Um programa chamado Rainforest que ensina como criar ecossistemas inovadores e um encontro que reúne pessoas de diversos países para conversar sobre a construção de organizações plenamente humanas. O primeiro foi idealizado por uma empresa de venture capital e realizado próximo a San Francisco, na região conhecida por Vale do Silício, a pedido da Corall, e o segundo se deu em San Diego como parte das atividades do Conscious Capitalism, movimento inspirado por John Mackey e a expressão material de suas ideias inovadoras em gestão, Whole Foods. Sim, ambos ocorreram na Califórnia, o estado norte-americano berço de novas tendências e movimentos de transformação que ganharam o mundo, como os hippies, além, claro, de algumas das empresas de tecnologia mais festejadas do planeta, como HP, Facebook, Yahoo, Apple e Google. Mas o que chamou mesmo a atenção de quem participou das duas iniciativas foi uma palavra muito conhecida de nosso vocabulário e que explicaria esses novos impulsos que a ensolarada Califórnia está trazendo para o mundo: confiança.

Como fazer com que um cientista, um empreendedor e um investidor que nunca se viram antes trabalhem juntos e construam do zero uma nova empresa? Como evoluir as métricas de sucesso organizacionais de um modelo baseado fortemente no mercado de capitais para um sistema que se alicerça na prosperidade compartilhada por todos os stakeholders? Cada uma dessas perguntas tem seu próprio sistema explicativo. Para quem se interessar, recomendamos o livro “The Rainforest: The Secret to Building the Next Silicon Valley”, de Victor W. Hwang e Greg Horowitt, ainda sem tradução para o português, e “Capitalismo Consciente: Como Libertar o Espírito Heróico dos Negócios”, de John Mackey. Aqui vamos trazer uma pesquisa divulgada no encontro do Conscious Capitalism de 9 a 11 de abril e que, de uma maneira bem efetiva, comprova que o caminho sugerido pelas duas iniciativas e que converge no fundamento da confiança, de fato, estabelece relações do tipo ganha-ganha.

O estudo desenvolvido pela consultoria LRN recebeu o título “The How Report — Novas Métricas para uma Nova Realidade”, e se propõe a repensar a fonte de resiliência, inovação e crescimento por meio de uma análise empírica de como a governança, a cultura e a liderança impactam o desempenho organizacional. A consultoria adotou três arquétipos de governança, cultura e liderança, que dividem as organizações em: autocráticas ou do tipo obediência cega, baseada em regas e humanas ou de auto-governança. O primeiro achado é que apenas 3% do universo pesquisado pertencem à terceira categoria. A maioria ainda se divide entre organizações baseadas em regras (54%) e do tipo autocráticas (43%). O que, no entanto, surpreende é que, simplesmente, em todos os tópicos avaliados, as organizações baseadas em modelos de auto-governança apresentaram um desempenho muito superior às demais. Dos 36 mil empregados de 18 países trabalhando tanto para organizações locais quanto globais, que foram ouvidos, 92% daqueles que trabalham nas organizações de auto-governança afirmam que suas empresas são muito mais inovadoras que a concorrência, contra 67% dos empregados das organizações baseadas em regras e 38% das organizações autocráticas. Rapidez na adoção de boas ideias, lealdade e recomendação da empresa para outras pessoas são outros aspectos diferenciais apresentados pelas organizações de auto-governança. A satisfação do consumidor chega a ser mais do que o dobro nesse tipo de organização em comparação com as autocráticas. E, ao comparar com a concorrência, 93% dos empregados das organizações de auto-governança afirmam que o desempenho financeiro é acima ou muito acima da média, contra 74% das empresas baseadas apenas em regras e 48% das autocráticas, o que demonstra que organizações mais humanas, além de todos os benefícios relacionais — e justamente por isso — proporcionam também melhores resultados financeiros.

O estudo conclui que confiança, valores compartilhados e uma compreensão profunda e o comprometimento com uma missão inspirada por um propósito maior são os três fatores fundamentais que favorecem os comportamentos de auto-governança que produzem vantagem competitiva e desempenho superior. Uma empresa onde a cultura é baseada na confiança aumentaria em 22 vezes sua capacidade de lidar com riscos, 8 vezes o potencial de inovação e 6 vezes o desempenho financeiro.

O curioso nos achados desse estudo é que, ao mergulharmos na história do humano, mais especificamente, em nossa origem, vamos ver, como observou o biólogo chileno Humberto Maturana, que o que nos diferenciou de outros mamíferos bípedes, foi a linguagem. E esta, por sua vez, só pôde ser desenvolvida quando grupos de mamíferos bípedes passaram a conviver por um tempo longo o suficiente, tendo como fundamentos centrais nessa dinâmica de relação a curiosidade e a confiança. Em outras palavras, o que surge no mundo empresarial com o frescor da novidade, na verdade, é tão antigo quanto o próprio humano. No entanto, como um ovo de Colombo, parece que finalmente conseguiram colocar o tema no centro das atenções.