por Marcio Svartman

Porque a espiritualidade nas empresas ainda é um tema tão controverso e difícil?

Um minuto, o Presidente foi consultar seu oráculo.

Esta frase seria corriqueira na tomada de decisão de um rei nórdico ou de um governante grego, mas hoje soa inaceitável para a maioria dos líderes organizacionais. Enquanto isto, a espiritualidade nas empresas vem crescendo como um dos temas que mais despertam interesse no novo contexto do trabalho, mas ainda navega tímido em um mar de pouca clareza.

Na Corall, a espiritualidade é um elemento central de nossa existência e da constituição e propósito do nosso trabalho. Sob a luz desta experiência e da interação constante com lideranças das mais diferentes organizações, buscarei estruturar algumas perspectivas para pensar este tema.

O Que é Espiritualidade?

Partimos de um primeiro desafio nada pequeno, que nasce na própria definição de espiritualidade. Uma rápida pesquisa mostra a imensa diversidade de abordagens que derivam em uma imensidão de diferentes definições.

Particularmente, classifico no campo da espiritualidade toda experiência que se origina na conexão com forças metafísicas ou na crença dessas conexões, às quais atribuamos caráter animista. Assumam para nós características das forças da natureza, de personagens ou de seres não encarnados ou elevados, a experiência de relacionar-se com estes seres e de vivenciar transformações de consciência ou sensoriais a partir daí, caracterizam-se para mim como espiritualidade.

O Legado Mecânico

Muitas das dificuldades de evolução organizacional hoje derivam do modelo estrutural mecanicista. A Administração e a Gestão são áreas de conhecimento que nasceram da lógica mecânica, copiando o modelo de funcionamento de uma máquina e transferindo-o para a organização em si. Lógicas de controle e divisão das tarefas em linhas de produção, onde cada um executaria uma pequena, simples e repetida tarefa, regeram a construção das organizações eficientes por séculos.

Numa estrutura mecânica, tudo que está fora do previsto atrapalha. Desta forma a espiritualidade e a subjetividade, e mesmo a criatividade, não tem lugar e são vistos como elementos de risco, que atrapalham a eficiência do sistema. Embora este modelo esteja bastante desgastado e não consiga mais dar conta de um mundo e um mercado complexo, onde as pequenas tarefas são feitas efetivamente por máquinas, o modelo mental nas empresas ainda é fortemente mecanicista, e tem dificuldade de absorver toda a potencialidade e variabilidade do humano.

Nas últimas poucas décadas as organizações vem pensando modelos que absorvam a criatividade e até mesmo a subjetividade. A espiritualidade começa a forçar sua entrada nessa transformação, mas ainda é difícil para as empresas entenderem como dar espaço a ela, e o sistema reage a ela como uma ameaça.

A Espiritualidade e a Religião.

O terceiro desafio vem da relação entre espiritualidade e religião. Tema que gera também bastante confusão.

Enquanto a espiritualidade, em última instância, vem de uma vivência individual na relação com o metafísico e com a experiência energética e até emocional, a religião vem de uma construção institucional, feita a partir de uma narrativa para esta relação que, por sua vez, determina um universo imagético, social e um código de conduta e comportamento, regido por uma estrutura de poder, com mais ou menos força dependendo da religião e do grupo. Ao mesmo tempo, a conexão com a espiritualidade pode acontecer sem nenhuma relação com qualquer religião, sendo percebida através de sensações e percepções individuais e pode, portanto, existir livre de uma escala de regras e poder. Ao mesmo tempo, a religião pode acontecer para um indivíduo sem que este viva a experiência da espiritualidade.

De qualquer forma, ainda é mais comum e aceita hoje a relação com a espiritualidade através da religião. Por isso, comumente, ao falar-se em espiritualidade muitos entendem falar-se de religião.

Ainda vale destacar que enquanto a espiritualidade pura se interessa pelo mistério e pela experiência, a religião frequentemente se interessa por respostas, que defende como o pilar de sua existência. Por fim, para muitos ligados à religião, a espiritualidade livre soa como heresia, e para muitos de criaram uma repulsa ao modelo religioso, ela soa como religião, gerando um nó de resistência e preconceito.

Ferida Histórica

A partir dessas duas últimas questões precisamos lembrar que o modelo mecânico e positivista que gerou o desenho clássico de empresa e de administração, nasceu com o movimento da Revolução Industrial, pós Idade Média, e cresceu influenciado e patrocinado como resposta a séculos de opressão do modelo Absolutista, que era diretamente apoiado por um modelo de religião opressor e restritivo. Quando fala-se na espiritualidade na empresa, naturalmente mexemos também com fantasmas e traumas vindos ainda desta experiência histórica, onde a espiritualidade foi travestida em um modelo de opressão e controle, e não de ampliação e elevação. O sistema, portanto, inconscientemente resiste.

Dos Rituais e Identidades

Por fim, quero trazer a questão dos rituais e regras. A espiritualidade, seja ela formatada por uma religião ou não, carrega um arcabouço de rituais e costumes. De uma procissão a acender um incenso, passando por imagens ou uma rápida meditação; em uma organização pode ser difícil absorver e dar espaço à multiplicidade de formatos que podem surgir quando a espiritualidade vira parte da vida da empresa. A criação de rituais institucionais ecumênicos e livres pode ser uma alternativa, mas ainda assim não é tão simples acolher significados e formatos que atendam de forma satisfatória a tamanha diversidade de repertórios.

Caminhos Possíveis

Abraçar a espiritualidade na empresa deve ser um caminho de aceitação das várias perspectivas de como cada um se relaciona com o metafísico e o energético. Para alguns a espiritualidade se traduz na relação com uma força exterior. Para outros se traduz na relação com instâncias mais profundas de si mesmo, e outros ainda navegam nessa discussão experimentando distintos olhares. Já ao abraçar uma religião, uma empresa se veria comprometida com um arcabouço específico de regras e condutas, sendo potencialmente excludente a outras perspectivas. Por preferência dos proprietários, em caso de empresas privadas, uma organização pode seguir algumas regras de uma ou outra religião, mas deve cuidar para não ser excludente às demais crenças.

Por exemplo, se uma empresa cujos proprietários são judeus, determina que na sexta feira à tarde não se trabalha, e isso é coerente com a crença dos proprietários, não há problema algum. No entanto, se outro funcionário seguir uma religião distinta que guarda como sagrado um outro dia, seria coerente que a empresa desse a este funcionário a liberdade de não vir trabalhar neste dia. Fazendo isto respeitam a espiritualidade, independente de religião, mesmo que a instituição se organize prioritariamente ao redor de uma delas. Agora, se a empresa não permite esta ausência, está se alinhando a uma religião em seu caráter estruturante, e se opondo a dar espaço às religiões diferentes como continente valido da espiritualidade. Isso ressaltaria a religião no seu caráter opressor, e não espiritual.

Neste sentido, acolher a espiritualidade em suas distintas manifestações vai ao encontro de tantos outros movimentos coerentes com as novas formas do trabalho, fundamentais para que as empresas se tornem mais modernas e potentes. Modelos onde a individualidade deve ter espaço, e as estruturas devem ser mais flexíveis e o controle exercido sobre colaboradores deve ser substituído por responsabilidade compartilhada e pelo diálogo constante.

Vale a Pena?

Podemos nos perguntar se faz sentido para as empresas preocuparem-se com isso e ter o trabalho de mergulhar nesta discussão.

A grande maioria dos movimentos de transformação e evolução nas empresas nasce da necessidade de se adaptar ao que vai acontecendo no mundo e no contexto em que a empresa está inserida. Esta discussão aparece no momento que colaboradores, cliente e o mercado ao redor começam a pedir estes espaços novos. A espiritualidade na empresa aparece junto com diversos outros campos que vem ganhando espaço no mundo do trabalho, e precisa se inserir num processo de evolução da cultura, dos modelos de gestão e mesmo de nossos padrões comportamentais e de percepção do mundo. As empresas precisam descobrir como se adaptar a isto e como incorporar o que este campo tem a oferecer, porque o movimento já está acontecendo, independente da preferência delas. É um desafio de flexibilidade e adaptabilidade, e não uma escolha de ser mais acolhedora ou moderna. Empresas sentirão a necessidade ou a pressão em momentos e intensidades distintas, mas todas encontrarão, em algum momento, a vontade de se transformar ou a crise decorrente da resistência a esta transformação. É preciso reconhecer o movimento e transformar-se com ele.

O Melhor da Festa

O que surge com a possibilidade de reincorporar a espiritualidade na gestão não é apenas um ambiente com maior liberdade e diversidade. Não é apenas uma organização que permite distintos rituais e referências, e que respeita diferentes perspectivas. Além de tudo isto, pode-se reincorporar a conexão com o campo e as informações que podem vir daí. Uns as nomeiam de espiritualidade, outros de pressentimento ou sensação, mas há uma riqueza de percepções e informações que hoje são descartadas e condenadas à inutilidade pelos modelos mecânicos e controladores. Decisões tomadas por sensações ou informações subjetivas ainda não são aceitas na maioria das empresas e seguem sendo queimadas na fogueira.

Quando as empresas puderem valorizar uma mentalização coletiva como algo que pode fazer a diferença e respeitarem algo sem demandar explicações, estaremos abrindo as portas para reaproveitar muitos recursos que são hoje desperdiçados.

Por fim, o desafio é que estes domínios consigam dialogar com os processos atuais de controle, compliance e eficiência, e possamos alcançar níveis de potência ainda maiores, como empresas, como profissionais e como coletivo.

Reintegrar a espiritualidade na empresa é dar mais um passo importante em reincorporar o ser em toda a sua possibilidade de realização e liberar profissionais muito mais potentes e engajados. O resultado será um empresa mais corajosa, livre e potente.

Artigo publicado no blog Gestão Fora da Caixa da Exame.