Dr. Antônio: simples assim

Por Denise Pragana

Tive o prazer de conhecer de perto uma das maiores lideranças empresariais que o Brasil já teve. Antônio Ermírio de Moraes, falecido em 24 de agosto deste ano, era o que parecia ser: um homem simples, que não precisava demonstrar poder, pois este já lhe pertencia, e cuja presença inspirava admiração, só de estar ao seu lado e falar com ele, sem hierarquia, de igual para igual. Por duas vezes tive a chance de experimentar essa sensação, que relato a seguir. Era sempre uma forte expectativa aguardar sua entrada no Encontro da Liderança, evento de final de ano realizado pelo Grupo Votorantim, ao qual compareciam acionistas e as principais lideranças do Grupo. O seu discurso e a mensagem de ano novo abriam o evento. Tendo feito parte da equipe de Comunicação de duas empresas do Grupo, também era convidada. Lembro que não havia prévia recomendação, muito menos ensaio. Mas era só o dr. Antônio (forma como nos referíamos a ele) entrar no salão, todos se levantavam em sinal de sincero respeito, e as palmas fortes soavam em sintonia com o sentimento de orgulho e gratidão por sua presença. Em um desses eventos, estava eu em seu caminho no momento em que ele deixava o salão. Ele poderia simplesmente ter ignorado minha presença, pedir licença e seguir em frente, mas não foi isso que ele fez. Parou, apertou minha mão e desejou Feliz Natal. Feliz com o cumprimento da pessoa mais importante do Grupo Votorantim, retribuí e disse: “dr. Antonio, eu sou a Denise e trabalho na VCP” (Votorantim Celulose e Papel, antes de se tornar Fíbria). E ele me respondeu: “Muito obrigado por você ser da equipe, Denise; Deus te abençoe”. Nunca mais esqueci essa sincera demonstração de humildade e respeito humano e profissional. De outra feita, na inauguração da ampliação da Unidade de Celulose da VCP, Jacareí, em 2003, a assessoria de imprensa que prestava serviço para o evento, cheia de cuidados, viu que a gravata do dr. Antônio estava torta, e que poderia ficar mal no vídeo ao gravar entrevista para a TV. Fui escolhida para pedir a ele que ajeitasse a gravata. Não tive coragem de pedir diretamente. Vi no Carlos Ermírio, seu filho, infelizmente também falecido, meu salvador. Falei: “Carlos, por favor, você pode pedir para seu pai endireitar a gravata”? E ele na hora me disse, na sua forma costumeiramente gentil: “Denise, se meu pai acertar a gravata, não será ele mesmo. Vamos deixar assim”. Pois é. É isso. Muito do que busco empregar em minha atividade profissional reflete essas experiências que tive na Votorantim. Tão fugazes, mas tão verdadeiras. Líderes que são líderes de fato são admirados pelo que são, pelo que inspiram. São o que são. Não é todo mundo que pode usar uma gravata torta e manter a elegância na deselegância. Ele podia. Simples assim.

Denise Pragana é gerente de comunicação da Camargo Corrêa