Nestas férias de julho, minha família e eu escolhemos fazer uma viagem tranquila de carro, aproveitando a beleza e a natureza que estão próximas a São Paulo. Nada de avião, aeroportos, atrasos, malas extraviadas — ufa! Fomos a São Francisco Xavier aproveitar as montanhas e as cachoeiras e a Paraty para curtir a praia, a gastronomia e o charme da cidade. No caminho, passamos por Cunha, uma cidade em São Paulo quase na divisa com o Rio de Janeiro, conhecida pela qualidade e variedade de sua cerâmica. São 23 ceramistas espalhados pela cidade, que produzem de pratos para comer até obras de arte impressionantes.

Conversando com um dos pequenos ceramistas de Cunha, ele nos contou uma história que me fez refletir: em 1975, um grupo de jovens artistas construiu o 1º forno Noborigama para queima da cerâmica. Eles trabalhavam levando as cerâmicas para fora da cidade. Um dos principais ateliers, Suenaga & Jardineiro, produzia um grande volume de peças e Gilberto Jardineiro pegava seu carro com frequência para entregar a cerâmica às lojas, em especial no eixo Rio-São Paulo. Parece que Jardineiro sofreu um acidente de carro em uma de suas viagens e isto o fez repensar seu modelo: como poderiam atrair os compradores para a cidade, ao invés de ter que entregar as peças? Em 1988, o Atelier Suenaga & Jardineiro realizou a primeira Abertura de Fornada, um ritual trimestral que começou a atrair centenas de pessoas para a pequena cidade de Cunha e persiste até hoje. Curiosamente, isto teve um efeito adicional: um aumento do fluxo de visitantes, vinda de outros ceramistas e artistas plásticos para a região, criação de pousadas, restaurantes e todo um suporte ao turismo, criando um círculo virtuoso para a cidade. De uma situação inesperada e desconfortável — um acidente de carro — floresceu toda uma cidade!

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De uma situação inesperada e desconfortável, floresceu toda uma cidade!

Logo antes das férias, tinha recebido outro presente de um cliente, também de origem japonesa: a sua empresa está vivendo desafios no mercado, fruto da globalização e da situação econômica do Brasil — redução nas vendas, perda de participação de mercado, menor margem de lucro. O presidente do conselho parecia tranquilo e fiquei curioso em saber como ele encarava a “crise” que estava vivendo. E recebi uma aula de centramento: “A economia desce e sobre outra vez. Quando cai, temos que ter oxigênio para sobreviver. Quando sobe, saímos na frente”. A empresa está fazendo alguns ajustes de custo (garantindo o oxigênio), mas com um olho na fase seguinte de crescimento. Ele complementou “Que estamos passando por uma crise, eu não tenho dúvida. Vai demorar 2 anos, ou talvez 4 ou 5. Vamos continuar investindo no desenvolvimento das pessoas e na inovação tecnológica. Temos que utilizar o tempo para formar as pessoas, qualificar a nossa equipe”.

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Como damos as boas-vindas ao desconhecido e o convidamos para uma xícara de chá, para que ele possa nos contar a que veio?

Qual é a relação entre esses temas? Nos dois, aconteceu algo que foi desconcertante (um acidente, uma crise, um ataque), ou seja, a vida mudou repentinamente. E a pergunta é: como respondemos a esta situação de mudança? Como podemos continuar centrados, curiosos, disponíveis para conversar com a vida, sem ter que “lutar”, sem um “esforço exagerado”, mas com grande atenção e presença, perceber a força que está querendo emergir, as portas que estão prontas para serem abertas, que nunca teriam aparecido se a vida não tivesse mudado? Como damos as boas-vindas ao desconhecido e o convidamos para uma xícara de chá, para que ele possa nos contar a que veio? Como permanecemos centrados, eventualmente tomando decisões difíceis no curto prazo, mas com foco no futuro, no sucesso que vem a seguir, e não a partir de um lugar de angústia e desespero? Como oferecemos às nossas pessoas e organizações este exemplo de direção? Este é o papel dos líderes quando a vida muda…

Mauricio Goldstein é consultor da Corall, autor, palestrante e escreve para a Exame no blog Gestão Fora da Caixa.