10 minutos com Pierre Schürmann — Empreendedor Zen

Líder Inovador

Por Luis Alcubierre

Filho mais velho da família Schürmann, Pierre desde muito cedo içou velas na vida e viveu aventuras no mar e fora dele. Em 1984, aos 15 anos, embarcou no veleiro Guapo com os pais, Vilfredo e Heloísa; e os irmãos, David e Wilhelm, para uma circunavegação pelos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico. A expedição foi a primeira do gênero realizada por brasileiros. Durou até 1994, mas Pierre, que estudou em mar aberto, desembarcou seis anos antes nos Estados Unidos para fazer faculdade de administração e trabalhar na corretora Salomon Smith Barney. Quando os Schürmann terminavam sua travessia, Pierre voltou ao Brasil para desenvolver o que seria o novo negócio da família: aventuras. Foi responsável pela estruturação e captação do projeto “Magalhães Global Adventure’, que foi acompanhado de perto por milhões de brasileiros através do programa Fantástico, da Rede Globo. Como consequência, chegou a São Paulo, onde passaria boa parte de sua vida profissional. Lá, foi um dos fundadores do mecanismo de busca Zeek!, em 1996, posteriormente vendido para a Starmedia. Também esteve à frente de uma das primeiras incubadoras do Brasil, a Ideia.com, em 2000. Três anos mais tarde, ainda com a ressaca do estouro da bolha na internet, criou a Conectis Experience, primeira agência de experience marketing do Brasil, que acabou sendo adquirida pelo Grupo Contexto. Paralelamente a isso, fundou o Experience Club, hoje o principal canal de relacionamento corporativo que conta com 180 empresas associadas. Entendendo que sua missão já havia sido cumprida na empresa, vendeu sua participação para os sócios em 2011 e foi para a Bahia, onde hoje mora com a mulher Fernanda e os gêmeos Guilherme e Chloé. Mas engana-se quem pensa que Pierre quer sombra e água fresca. Lá montou a BPG Shop e mais recentemente a Bossa Nova Investimentos, angel company que aplica recursos em startups de tecnologia já em fase de testes de seus produtos.

Pierre Schürmann é um empreendedor de hábitos simples e já escreveu sobre isso em inúmeras colunas no blog independente da IstoÉ — o “Caminho Zen”. Enquanto sua empresa avalia novos negócios da era digital, ele zarpa no dia 21 de setembro, junto com a família, para participar de algumas etapas da Expedição Oriente, que tentará desvendar um dos maiores mistérios da história da navegação mundial. Nesta entrevista exclusiva para o blog da Corall, Pierre mostra sua alma empreendedora. Depois de conhecê-lo um pouco mais, ficará fácil entender por que escolheu viver mais perto do mar que tanto ama — inspiração para aqueles que procuram realizar seus sonhos sem sacrificar sua paz interior.

Corall: Você teve uma adolescência absolutamente incomum. Como reagiu ao saber que faria uma expedição com seus pais e irmãos durante anos em alto mar? Foi difícil passar por certo isolamento em um momento de vida tão importante? O pit stop nos EUA foi programado desde o início?

Tive sorte porque desde menino minha vida foi de fato incomum. Mesmo antes de sair para a nossa primeira expedição, morávamos em Florianópolis, um lugar que por si só é maravilhoso. Mas morávamos em um lugar ainda mais especial: Santo Antônio de Lisboa, uma pequena praia que nos anos 70/80 não tinha nem estrada pavimentada. Na nossa casa não havia televisão e por isso comecei a ler cedo. Aos sete anos já tinha lido todas as obras de Júlio Verne. Comecei a velejar aos cinco anos e passávamos as férias muitas vezes a bordo. Ajudou muito o fato de meus pais terem planejado a viagem com bastante antecedência. Fui me envolvendo com ela aos poucos e na hora de viajar tudo pareceu muito natural. Já tinha 15 anos quando fizemos a primeira. Quanto ao isolamento, era algo que até gostaria de ter sentido. Quando cinco pessoas moram em 40m² é muito difícil ter privacidade e, por consequência, algum tipo de solidão. Ao longo da viagem estudava com meus pais e conversando com eles ficou claro para mim a necessidade de fazer uma pausa para a faculdade. Como não era possível administrar as duas coisas ao mesmo tempo, tive de partir.

Corall: É possível realizar uma travessia sem tempestades? Como minimizar os eventuais efeitos de tsunamis e de calmarias na carreira de um profissional?
 Acredito que as tempestades, tanto no mar como na carreira, fazem parte da vida. O grande risco, na verdade, está no mar calmo. Quem navega costuma dizer que “a calmaria não forma bons marinheiros”. Sou grande adepto da teoria da “antifragilidade”, de Nassim Nicholas Taleb, para quem “o que te faz frágil é a expectativa de que a vida será consistente”.

Corall:Nesta visão de segurança que as pessoas costumam buscar, como vê o futuro do trabalho e do emprego?
 Acredito que veremos uma nova “revolução” na forma de trabalho. Migraremos para um mundo com muito mais flexibilização na relação entre empregador e empregado. Uma empresa que simboliza isso bem é a Automatic, criadora do WordPress.

Corall: Existe uma máxima de que é mais seguro investir em uma carreira na iniciativa privada e, principalmente, na pública. Isso está mudando em sua opinião? O que falta para que o ensino fundamental e o ensino médio preparem melhor as crianças e os jovens para o empreendedorismo?
 Acredito que é muito, mas muito mais seguro financeiramente seguir uma carreira tanto na iniciativa privada como na pública. Empreender é algo binário: ou você dá certo, ou não. Já uma carreira é incremental. Pode ser que você não chegue a CEO, mas não corre o risco de perder seus bens e ainda consegue pagar suas contas. Acredito que o desafio está menos no sistema de ensino e mais na desburocratização, por exemplo, do processo de criar e fechar empresas. Porque quem tem espírito empreendedor vai empreender e buscar informação para se capacitar. O desafio é que esta pessoa, se não é bem sucedida, paga um preço enorme, que vai além do custo perdido da oportunidade. Demora anos para encerrar a empresa e seguir com a vida. E é aí que está um dos maiores problemas. Nem um bom sistema educacional resolve isso.

Corall: Como é o dia a dia de quem avalia novos projetos a investir e o que faz um investidor priorizar um em detrimento do outro?
 O dia a dia é muito focado em se informar das tendências de mercado e das empresas que estão sabendo antecipar isso. Mas o que faz um investidor decidir é muito mais o time que está empreendendo do que a ideia em si.

Corall: Você está querendo dizer que o time é muito mais importante do que aquilo que ele vende?
 Exato. Até porque a diferenciação está mesmo no capital humano, na capacidade que ele tem para inovar, se adaptar e fazer acontecer.

Corall: O que em sua opinião falta para o Brasil se destacar em inovação?
 Um sistema de registro de patentes que funcione. Isso não resolveria tudo, mas abriria um espaço enorme para aqueles que acreditam em sua capacidade de apresentar soluções.

Corall: Parece não existir muita lógica entre o mar que desbravou e a tecnologia que ajuda a desbravar. O que a experiência da navegação o ajuda a empreender?
 O mar é o mesmo há milhares de anos. Mas ao mesmo tempo, ainda é menos explorado que o espaço. Pisamos na Lua, mas ainda não conhecemos o que está na imensidão das profundezas. Neste sentido, ainda é um grande mistério a ser explorado. Tecnologia é isso: um grande oceano a ser desbravado. Empreender, como navegar, requer planejamento, um bom time e muita resiliência.

Corall: Perdas sempre fazem parte da vida das pessoas. Como encara as suas e o que faz para evitar que o barco afunde?
 Tenho memória seletiva, o que ajuda (risos). Aí entra meu lado zen, que acredita que nada é nosso”, mas está conosco. E cabe a cada um valorizar o tempo que tem com as coisas que estão ao seu redor. O barco só afunda quando você decide pular no mar.

Corall: Qual é o valor mais inegociável ao longo da carreira de um profissional?
 Integridade. Não há um rumo correto a seguir sem ela.

Corall: Qual a maior inspiração que absorveu de seus pais e como a pratica em seu dia a dia?
 O estímulo para sonhar. O sonho, no entanto, exige muito trabalho e uma data determinada para realizá-lo. Do contrário é apenas imaginação.
 Corall: O que mais admira e o que espera de uma boa tripulação?
 Dedicação, garra, fé no Capitão e, o mais importante, bom humor.

Corall: Você foi um dos pioneiros do marketing de relacionamento estruturado e organizado no Brasil. Conte-nos o poder que o networking tem de mudar a vida de um profissional.
 O networking é tão importante, que de acordo com alguns dos maiores headhunters no Brasil, a maioria das vagas sequer chega ao mercado. São preenchidas por pessoas da rede de relacionamento deles ou da empresa. Sei que é uma máxima, mas ela já diz tudo.

Corall: É muito comum vermos analogias de um barco a vela no meio de um oceano em comparação a uma empresa no meio de um mercado. Quais as lições que podemos tirar do mar para a vida em terra firme?
 Organize sua vida de tal forma que, em caso de tsunami, você esteja no alto da montanha.

Corall: Quais as principais competências que vê em seu pai na liderança das expedições.
 A capacidade de planejar, executar e liderar a equipe

Corall: Conte-nos um pouco da Expedição Oriente e qual será o seu papel na viagem.
Está é a terceira expedição da Família Schürmann. Foram cinco anos de planejamento e na segunda-feira, 21 de setembro, ela deixará Itajaí, em Santa Catarina, rumo à Ásia, passando por lugares como Ilha de Páscoa, Polinésia Francesa, Ilhas Cook, Samoa, Fiji, Nova Zelância, Austrália, Japão, China, Madagascar, África do Sul, Antártida, entre outros, em pouco mais de 32 mil milhas náuticas. A travessia vai durar dois anos. Participarei apenas de algumas etapas, já que não posso me ausentar muito tempo por conta dos negócios. Justamente por conta disso não posso ter um papel muito determinado. Ajudarei nas funções que sejam determinadas pelo Capitão. Ao todo treze tripulantes estarão na aventura. O objetivo é refazer o caminho que teriam trazido os chineses à América antes mesmo de Cristovão Colombo. A teoria é do inglês Gavin Menzies, que publicou em seu livro “1421. O ano em que a China descobriu o mundo” a ideia de que são os chineses os verdadeiros precursores das grandes navegações e descobrimentos.
 Corall: Você sempre foi conhecido por buscar o equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal. Que sugestão daria, tanto a empresários como a executivos, para lidar bem com as duas?
 Viva da forma que lhe faz feliz. O equilíbrio não é um destino a ser alcançado, mas o caminho que você percorre durante toda a sua vida.

Luis Alcubierre é jornalista, publicitário e administrador de empresas, mas só aventura-se em terra firme.