Corall Blog
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Bati os olhos em uma página do Linkedin que mostrava as pessoas que haviam compartilhado um dos meus artigos postados no Pulse. Um nome, ou melhor, um cargo capturou repentinamente minha atenção: Aprendiz Vitalício Jr. Isso mesmo: Aprendiz Vitalício Jr. Acessei imediatamente o perfil do dono do cargo e descobri que Roberto Sato havia tido uma carreira muito bem sucedida como executivo da Nestlé e um apreciador da numismática, a ciência que tem por objetivo o estudo sob o ponto de vista histórico, artístico e econômico, especialmente de moedas e cédulas. No instante seguinte, resolvi postar em minha página do Facebook: “O cargo mais criativo de todos os tempos do Linkedin: Aprendiz Vitalício Jr.” Não satisfeito, resolvi enviar-lhe uma mensagem parabenizando-o pela escolha. Poucos minutos depois, recebo a resposta na forma de um convite: “Vamos tomar um café?”

Ele chegou à Corall na hora combinada. Eu o deixei esperando alguns minutos enquanto finalizava uma reunião. Servi-lhe o café direto da garrafa térmica. Dei um primeiro gole e descobri que já havia esfriado. Essa foi a única surpresa desagradável desse nosso primeiro encontro. Tanto é que nem sei por onde começar…

Sato tem 59 anos, relata que ao completar 51, resolveu pesquisar o que seria necessário fazer para chegar com qualidade de vida aos 81, seu número da sorte. Desde então, anda diariamente, no mínimo, 10 mil passos. Tem como objetivo concluir 100 milhões de passos, o que corresponde a duas voltas ao mundo. E para iniciar a nova etapa de vida de forma criativa, diferente e desafiadora, fez sozinho os mais de 800 km do Caminho Francês de Santiago de Compostela, jornada que iniciou no dia seguinte ao de sua aposentadoria. E por que sozinho? Para se desafiar, ter mais de 35 dias para peregrinar e ainda poder escolher o que fazer com o tempo disponível: caminhar o dia todo ou simplesmente passear conhecendo as edificações de cidades históricas ou, viver a experiência de tocar um rebanho de ovelhas — coisa que ocorreu no meio do caminho entre Portomarín e Palas de Rei — ou ainda dormir numa das menores cidades do mundo — Moratinos, com 30 casas e cerca de 15 a 20 moradores. No total passou por 130 vilarejos, vilas e cidades, conversou e caminhou com centenas de pessoas de diferentes nacionalidades. “Vivencia, em cada dia, momentos inesquecíveis, jornada fantástica!”.

Natural de um pequeno povoado no Paraná, chamado Oito Irmãos, fundado pelo avô, pai e tios, a dois ou três quilômetros de Inajá. Foi alfabetizado em São Luia Doeste, distrito de Toledo-PR. Sato já morou em mais de 15 cidades diferentes, e atualmente vive em São Paulo com a esposa, Marisa e o filho Paulo Henrique. Às segundas-feiras, faz expediente no Google Campus, onde, relata que pouquíssimas vezes encontrou alguém com mais idade do que ele. Diz que aprende muito com “esse pessoal de start-up e jovens empreendedores”. Conheceu a Glória Pereira, que é CEO & Founder da Sinergia Studios e está desenvolvendo o Deed, um aplicativo para aprender sobre negociação e educação financeira sustentável. O Sato conta que ela o convidou para participar do primeiro teste do aplicativo. Também foi a pessoa que lhe contou sobre a existência do 5º e 6º andar do Google Campus. Sato, após ler seus 3 livros sobre educação financeira acabou fazendo contato para conhecê-la. Aliás, um de seus focos é justamente a educação financeira, que ele aprendeu na raça. Formado em Bioquímica e com diversos cursos nas áreas de Marketing e Vendas, conta que, desde cedo, atribuía valor à gestão financeira. Certo dia, até as balas doces que ganhava, decidiu guardá-las para consumi-las no futuro. Só não contava que formigas e baratas tinham outros planos para suas “economias”.

Com quem aprendeu a poupar e a planejar o futuro? Será que tem a ver com a cultura japonesa? Roberto brinca com isso, dizendo que seu pai, filho de japoneses, era o contrário do estereótipo do oriental: vivia totalmente no presente. Se tinha dinheiro, gastava. Se não tinha, trabalhava para conseguir. Com o pai, aprendeu as artes manuais. Desenhista autodidata, seu Mamoro Sato fabricava uma faca pequena com aço e suporte de madeira para guardá-la chamada Tantô. E ensinou ao Sato a arte da forja. E a paciência. Algumas facas levavam até 2 anos para ficarem prontas. Mas o que mais faziam eram anéis com moedas antigas, paixão que iria acompanhar Sato por toda a vida. Só que o planejamento financeiro, Roberto desenvolveu justamente porque, apesar dos dotes do pai, o dinheiro era algo sempre muito escasso na família. Sato resolveu fazer diferente. A experiência com as balas não o desanimou. Muito jovem ainda, ajudava na lavoura de algodão e fumo. Percebia que crianças eram mais rápidas na colheita. Resultado: Na colheita e preparo das folhas de tabaco disputava com os adultos. Portanto, além de ajudar em casa, também sobrava algum dinheiro para poupar.

Nos quase cinco anos de faculdade na UFPR, por ser de uma família carente, residiu na CEU-Casa do Estudante Universitário em Curitiba. Ali para residir tendo moradia e alimentação a custo baixo cumpriu cerca de 20 horas semanais, por um ano, em diferentes atividades: tesouraria, cozinha, lavanderia, bar no turno da noite, sala dos outros (espécie de albergue para estudante em transito), granja com cultivo de verduras e criação de porcos. E trabalhou mais um ano como tesoureiro da Casa do Estudante, quando pode ter contato com o governador Ney Braga, o ministro da educação Eduardo Portela, visitar o Ministério da Educação em Brasília e, conhecer o ITA e a Embraer. Aprendeu muito sobre gestão de recursos já escassos.

Foram 5 anos intensos pois estudava, prestava serviço na CÉU e ainda tinha dois empregos renumerados como plantonista de uma farmácia e em um laboratório de análises clínicas.

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“O futuro se constrói o tempo todo.”

Dos laboratórios para a vida de vendedor

Sato relata que ingressou na Nestlé, onde atuou por mais de 30 anos, em razão de um plano que acabou não sendo concretizando — o de estudar Direito ou Contabilidade e via na companhia de alimentos uma oportunidade de exercer uma destas áreas. Mas logo foi transferido para a área comercial, da qual nunca mais saiu, mesmo que, ao iniciar, não acreditasse no talento para a arte de vender. Tanto é que, após 6 meses de empresa, pediu demissão. Porém, chefe o convenceu a esperar mais um pouco, porque acreditava que, com os conhecimentos de química e biologia, faltava ao Sato apenas treinamento para decolar nas novas atividades. Com uma sede aparentemente insaciável por conhecimento, Sato foi estudar marketing, vendas, oratória, liderança, negociação, neurolinguística e acabou fazendo uma bem-sucedida carreira na área comercial. Crucial nesse aspecto, o seu gestor direto, José Roberto Souza, também o inspirou para que sempre buscasse a excelência. “Também defendia a bandeira: Não seja vítima, seja protagonista, sempre”. Outro líder que o influenciou muito foi o Dioclécio Campos jr, um professor de pediatria e nutrologia que mostrava o quão importante é investir nos primeiros seis anos de uma criança, onde 90% de nossa capacidade cognitiva é desenvolvida. E teve a oportunidade de indicar o professor Dioclécio, para um evento internacional, em 2005, com o James Heckman (Nobel de Economia no ano 2000), que defende a importância da educação na primeira infância e seu enorme impacto na produtividade da economia e desenvolvimento social. “Essas duas pessoas me marcaram”, continua Roberto, “porque tiveram cada uma em seus nichos de atuação uma visão de curto, médio e longo prazo, mostrando que o futuro se constrói o tempo todo.” “Prof. Dioclécio sempre dizia: O futuro não é abstração, o futuro é resultado!”.

Assim que conseguiu a independência financeira, Sato decidiu se aposentar da vida de executivo. Sobre esse longo período de convivência como executivo, Sato observa que, quanto maior fica a empresa, maior é a quantidade de vítimas e menor a de protagonistas. Pouca inovação e mais renovação do mesmo. Diz que uma das causas é que a empresa acaba fazendo do balanço trimestral o seu propósito, e o trabalhador faz o mesmo com o seu salário. “Tem que haver equilíbrio”, recomenda. “Não se pode prescindir do dinheiro, mas também não deveria ser a única alavanca para a evolução, seja de uma empresa, seja de um trabalhador.” “Há que defender uma causa maior, um propósito”. “Há que trabalhar o mérito pela produtividade e não pelos conchavos; há que valorizar a ética e não as ‘panelinhas’; há que estimular quem pratica o que prega e não os ‘puxa sacos’!”

Existe vida, muuuuuita vida, na pós-carreira de executivo

Mesmo sem crachá, Sato mantém uma agenda variada e disciplinada. Isso tem a ver com o tempo menor que ele afirma ter pela frente e, portanto, a necessidade de acelerar ainda mais ao invés de desacelerar, e sua crença de que as pessoas se preocupam demais, ao invés de se ocupar. “Eu procuro ocupar 99% do meu tempo e da minha mente para sobrar só 1% para me preocupar”, comenta antes de descrever sua rotina. Depois de começar a semana batendo ponto no Google Campus, às Terças, dedica-se à outra paixão: os estudos de educação financeira na livraria da Vila, da Cultura ou Saraiva. Quarta ele chama de o dia da criatividade, pois decide o que fazer quando acorda. “Quarta feira é o meu segundo sábado!”. Nas tardes de quinta, pode ser encontrado no Espaço Cultural Alberico na praça Benedito Calixto, batendo papo com o proprietário, o Alberico, ex-professor de literatura inglesa da USP. E, as sextas-feiras, das 10 às 16 h, faz expediente, segundo ele, mais uma vez como aprendiz, na sede da Sociedade Numismática Brasileira, no centro da cidade, onde nutre a paixão antiga pelo estudo das moedas. Participa também da Sociedade Numismática Paranaense, com sede em Curitiba. E nos fins de semana? Pasme! Ele descansa.

Muitos perguntam e o tempo para a família? Ele responde “Aprendi que a melhor maneira de estar presente, participar e valorizá-los, especialmente a esposa e o filho, é tornando-os não dependentes da minha presença física e de minhas palavras, mas influenciando-os com as minhas atitudes e exemplos. Sou imensamente grato ao Paulo Henrique e a Marisa por darem a mim este suporte e liberdade de atuação”.

Mas de onde vem tanta energia? “A energia vem naturalmente, eu busco por ela o tempo todo. Porque quando pulsa energia e entusiasmo, sinto mais presente e me conecto melhor com as pessoas, seja quem for. Essa vibração sacode a minha mente, dá mais vida ao dia a dia.” Sato é voluntário em um programa da FIA chamado GESC — Instituto Gestão de Entidades da Sociedade Civil, sob direção do professor Alfredo dos Santos Jr., que ajuda organizações do terceiro setor a profissionalizar sua gestão. Além dos recursos próprios e das aposentadorias pública e privada, Sato pensa em fazer dinheiro com seus conhecimentos de numismática, paixão que surgiu ao observar as moedas antigas de vários países, guardadas no cofre que seu pai mantinha.

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Educação financeira sustentável só se consolida mediante entendimento de si mesmo e compreensão consciente do viés comportamental em cada atitude que tomamos no momento de consumir, poupar, investir.”

Anos atrás, resolveu se desfazer de toda a sua coleção de moedas de 2000 Réis, do império, por descobrir que, primeiro seria mais vantajoso focar-se apenas em peças mais raras, e segundo, que o avançar da idade lhe daria menos tempo para apreciar as moedas — que ele o reservasse, portanto, às mais raras e com história para contar. E assim iniciou outra coleção de olho em moedas que podem custar de US$ 50 a milhares de US$. Estamos falando das moedas de 960 réis, também conhecidos como Patacão, que é o seu foco de estudo, coleção e futuro ganha-pão. “Monetizar o que é hobby, lúdico e histórico”, afirma Sato.

Participa também, mensalmente, de um encontro com o grupo liderado pela Profª. Vera Rita de Mello Ferreira, pioneira na análise de fenômenos econômicos na ótica combinada da psicanálise e da Psicologia Econômica, que tem como tema central os temas que circundam a Psicologia Econômica e Finanças Comportamentais. “Educação financeira sustentável só se consolida mediante entendimento de si mesmo e compreensão consciente do viés comportamental em cada atitude que tomamos no momento de consumir, poupar, investir”, afirma o Sato.

Outro de seus planos é viajar. Revela que sempre viajou muito a trabalho e já conheceu todos os estados do Brasil, excetuando o Amapá, e que ama Santa Catarina, para o qual reserva um plano especial: sair de carro visitando todas as 299 cidades do estado pesquisando as diferentes formas como as pessoas cultivam a qualidade de vida. Para isso, pretende conhecer em cada cidade a pessoa mais idosa e aquela que todos reconhecem como tendo a melhor qualidade de vida e aprender com as histórias dessas pessoas. Ainda, de quebra, descobrir a principal praça de cada cidade, para seguir com a meta dos 10 mil passos ao dia. É um plano, um sonho. Já fez até as contas: levará uns 15 anos para completar esse percurso, caso opte por visitar algumas cidades, dedicando para isso, uma semana por mês. Antes disso, está desbravando a pé, de metrô, trem, bicicleta ou carro, tudo que a grande São Paulo oferece: espaço cultural, museus, parques e praças, ruas, teatros, cinemas, Shows, bairros, livrarias, cidades próximas.

Embora possa até parecer chavão, Sato diz que seu futuro é agora e que, pelo fato de sempre ter lido muito, descobriu Carl Sagan ainda muito jovem, o que lhe ajudou a viver bem com a ideia de que somos pequenos e grandes ao mesmo tempo. “E, mesmo sendo ínfimo diante do tamanho do universo, meu futuro, para ser grandioso, tem que ter um início”, explica. “Então cada dia para mim é um início desse futuro grandioso que eu não tenho como saber hoje qual é, mas eu posso influenciar para vir a ser.” E para os que lhe perguntam se tem medo de morrer, responde que, se morrer agora, está preparado. “Minha meta pessoal sempre foi tornar minha esposa e meu filho independentes, meta concluída — eles sabem se virar -, o que me dá toda essa tranquilidade para partir a qualquer momento se tiver chegado a minha hora.” Acrescenta que, cuidar da sua saúde, é uma tentativa de evitar uma morte lenta em um hospital. “Prefiro partir com saúde, de repente”.

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“Nesta fase da vida, ser e se posicionar como aprendiz é libertador! Dá amplitude ao presente e ao futuro, que já começou!”

Na busca pela longevidade com qualidade de vida coloca em prática as 4 recomendações defendidas pelo gerontólogo Alexandre Kalache:

  1. Capital saúde, caminhando 10 mil passos dia e se alimentando com equilíbrio.
  2. Capital mental, lendo e estudando numismática, educação financeira e sobre liderança.
  3. Capital social, participando da comunidade de educação financeira e da numismática através da Sociedade Numismática Brasileira e Sociedade Numismática Paranaense.
  4. Capital financeiro, gerindo a sua independência financeira como uma empresa. E, trabalhando para disseminar o valor da educação financeira e seu impacto na vida das pessoas.

Faria alguma coisa de diferente se pudesse voltar no tempo? “Certamente seria muito mais ousado. Porque fui cauteloso demais. Eu teria me focado num propósito maior desde cedo. Como um dos meus tios costumava repetir, citando o filósofo Ralph Waldo Emerson, se um homem, mesmo que isolado, permanecer indomavelmente nos seus instintos, com um propósito, o vasto mundo vem pra você também, mas você precisa buscar.” “No mundo falta atitude, ação, fazer acontecer, é muito mimimi”.

E o que já aprendeu na nova carreira de Aprendiz Vitalício? “O principal aprendizado foi que posso ser professor e aprendiz de mim mesmo.” “Aprender é se desafiar o tempo todo, não se limitar. É expandir o status quo. É tentar surfar a onda da aposentadoria de forma diferente, todos os dias”. A propósito, diz que seu plano de carreira prevê que, aos 67 anos, seja promovido a Aprendiz Vitalício Pleno, e aos 81, se tudo correr como previsto, os 100 milhões de passos, será alçado à posição de Sênior. Por enquanto, vai levando a vida como Júnior, sem maiores problemas. “Nesta fase da vida, ser e se posicionar como aprendiz é libertador! Dá amplitude ao presente e ao futuro, que já começou!”.