O mistério de ser chefe — Gestor

Por Nelson P. Chapira

Gestor

Alguém disse que, no Brasil, todo defunto vira santo. Não importa quem tenha sido ou que tenha feito em vida. Até notórios criminosos encontram quem por eles derrame uma lágrima ou um suspiro compadecido, talvez se lembrando de uma época em que, antes de delinquir, ele tenha sido apenas o amante querido ou mesmo um bebê, uma criança inocente e indefesa.

Disse “todo”, mas talvez seja exagero. Há uma espécie de gente que, viva ou não, será sempre lembrada por suas boas ou más obras, independentemente da passagem do tempo.

Ora, falo dos chefes, aquela espécie que Deus parece ter colocado no mundo para relembrar-nos a todo o momento sobre os extremos a que pode chegar um ser humano: da mais íntima e singela solidariedade ao despertar dos nossos maiores terrores.

Quem foi seu primeiro chefe? Ainda lembra? E o último? E, dentre os vários com que deve ter tido a oportunidade de conviver, quais são os que permanecem como santos “na parede da memória” e quais os nem tanto.É provável que alguns dos santos sejam lembrados com um certo carinho, enquanto outros foram largados nalguma gaveta debaixo nos escaninhos da mente.

No entanto, os capetas, os horrorosos, os insensíveis ah!… esses fantasmas estão sempre em volta ressurgindo na semelhança física ou de comportamento com algum colega ou chefe do presente.

Mas porque essas figuras conquistaram tamanha relevância no mundo corporativo?

Houve um mundo em que havia famílias razoavelmente estruturadas. Além de papai e mamãe, professores, policiais e doutores eram figuras de autoridade.No entanto, depois que quase tudo relacionado à criação de filhos, exceto o ato em si de procriar, passou a ser terceirizado e comercializado numa mera relação de cliente/consumidor, quem ocupa o espaço existencial antes reservado aos pais e professores?

Isso mesmo, sobrou para você: o chefe, agora chamado “ gestor ”, no release 2.0. E é esperado que você faça o que faziam papai, mamãe e professores. Com um detalhe: não está lidando com criancinhas em quem se podia dar umas merecidas palmadas e por de castigo de vez em quando,e sim com serezinhos que estudaram no Exterior, (pensam que) sabem um montão de coisas que só eles sabem e conhecem meio mundo como se fosse a área de lazer do condomínio.

Ah! É possível que você mesmo seja um serzinho desses, que nunca foi nem escoteiro e agora tem a missão de cuidar de um bando de pessoas tão jovens quanto você. Ou pior: mais velhas.

Para quem está nessa situação, há boas e más notícias. A boa: gerenciar pessoas é algo que pode ser aprendido. Agora a má: é preciso mais que um punhado de técnicas ensaiadas.

Em resumo, é preciso dedicar mais tempo e energia para os outros que a si mesmo e à própria carreira.

A sua equipe passa a ser como o mar, e você um barquinho. Quando a maré sobe, você sobe. Simples assim.

Nelson P. Chapira é prestador de serviços em gestão e desenvolvimento de pessoas.