O que a série de TV norte americana Billions tem a nos ensinar sobre o poder de perceber o sutil e criar espaços de vulnerabilidade. Por Erica Isomura.

Eu gosto muito de seriados, mas a série de TV norte americana chamada Billions não estava no meu radar até pouco tempo. O que mudou foi que depois de eu ter recebido alguns comentários comparativos, como por exemplo: “Você é tipo a Wendy aqui na empresa” ou “Seu trabalho parece com a da Wendy”, me levaram a assistir ao seriado para entender o significado desta comparação.

Alerta! Se você não assistiu ao seriado e não se importa com spoilers pode continuar lendo, caso contrário, entra na Netflix, assista pelo menos o episódio Piloto e o 11 “Pensamento mágico” 😉 De qualquer forma, eu fiz um resumo rápido para contextualizar o seriado.

Billions se passa dentro da cidade de New York, em um ambiente altamente competitivo no mercado financeiro de ações. Os principais conflitos políticos e ideológicos estão ao redor do fundador da agência de investimentos e fundos hedge Bobby Axelrod (Damien Lewis) e o procurador de Justiça do estado Chuck Rhodes (Paul Giamatti). Até aqui nada de mais, o que torna esta série interessante mesmo é a presença da Wendy Rhoades (Maggie Siff, de vestido vermelho logo abaixo), uma psicóloga, coach de performance in-house e que conhece com profundidade as pessoas envolvidas e o mercado de fundos e exerce um papel central durante os conflitos e tomadas de decisão de alto risco.

Wendy é uma personagem capaz de perceber o sutil e levar os personagens para espaços seguros. Nestes, eles falam sobre suas emoções, sentimentos, medos e dúvidas, demonstrando toda a vulnerabilidade para que, a partir das sessões, tenham uma consciência diferente e as decisões possam ser tomadas com maior atenção e cuidado, o que faz toda a diferença dentro de um mercado tão veloz e competitivo como o de Wall Street.

Bom, foi aí eu entendi a comparação que os clientes fizeram, na verdade o seriado incluiu para o público em geral um papel que não é tão conhecido e que gera um importante impacto nos resultados e no clima da organização. Coaches e psicólogos que como a Wendy, conhecem o mercado em que o negócio acontece, os principais stakeholders e sem dúvida podem contribuir, apoiando as pessoas em momentos decisivos.

Vamos pensar em um exemplo prático para clarificar o papel de Wendy e diferenciá-lo de psicólogos clínicos ou coaches em geral: Um executivo está com problemas familiares e precisa tomar uma decisão de alto risco para a organização. Nele, sentimentos como raiva, frustração, irritabilidade, além de padrões de tomada de decisão em situação de grande estresse estão presentes. A organização, consciente da necessidade de perceber o sutil e como consequência criar espaços para que este executivo fale sobre suas vulnerabilidades possui um profissional disponível (psicólogo ou coach treinado) para que o executivo possa: dialogar, refletir e analisar o cenário em que está inserido. Ou seja, o profissional disponível (psicólogo ou coach treinado) contribuirá para ampliação das perspectivas em que o executivo está inserido e através destes diálogos, pode-se:

  1. Ampliar a capacidade perceptiva do executivo, através de uma visão sistêmica.
  2. Reduzir o viés inconsciente na tomada de decisão, que pode colocar em risco grandes negociações.
  3. Torna visível padrões de comportamentos que antes estavam invisíveis para não repetí-los em tomadas de decisão sob estresse.
  4. Criar espaço de ressignificação de conflitos do passado e a interferência no conflito presente.
  5. Contribuir na identificação e nomeação de emoções e sentimentos que estão presentes no contexto.
  6. Identificar auto sabotadores, motivadores de prazer ou de dor inconsciente que formam barreiras de realização e geração de resultados.

Neste exemplo podemos perceber o quanto a presença de um profissional como Wendy gera um espaço seguro para que os pensamentos e sentimentos sejam incluídos no campo organizacional e como consequência, gerar um balanço entre os resultados em curto prazo versus longo prazo, reduzir tensões pessoais presentes no conflito organizacional atual. Vale lembrar que antigamente, existia — e ok, está presente em algumas organizações até hoje — uma enorme cisão entre “vida pessoal e vida profissional”, o que mudou dada inúmeras pesquisas que apontam que a integridade é a melhor forma de gerarmos resultados sustentáveis. Logo, falar sobre emoções e sentimentos ganhou espaço na agenda dos profissionais do século XXI.

No Brasil temos visto e recebido cada vez mais pedidos, informações sobre como criar espaços de segurança psicológica e a vulnerabilidade passe a ser força para os colaboradores. As empresas têm investido na criação de uma relação que permite que os profissionais sigam com diálogos com psicólogos e coaches experientes ajudando-os e tornando o sutil percebido, com um enorme respeito ao código de ética profissional que garante o sigilo das informações conversadas.

Artigo Originalmente publicado no blog Gestão Fora da Caixa da Exame.com