Em uma conferência realizada em 2012, os professores de economia e administração americanos Anjan Thakor e Robert Quinn discorreram sobre o poder do “propósito maior” em uma organização. Esse “propósito maior”, segundo sua definição, produziria benefícios mais amplos do que os ganhos em dinheiro da empresa e se estenderiam no tempo por um intervalo maior do que aquele proporcionado pelos resultados monetários. Os conferencistas diziam ainda que a satisfação decorrente de buscar um propósito maior está ligada muito mais à busca em si do que aos resultados que tal busca trará.

“Quais seriam as consequências econômicas para uma organização, cujo líder perseguisse um ‘propósito maior’ que eventualmente conflitasse com os objetivos usuais das empresas, como ter market share ou um bom valor de mercado?”, perguntaram. Thakor e Quinn responderam relembrando um caso clássico vivido por Henry Ford, o fundador da fábrica de automóveis Ford, em 1903.

Entre 1916 e 1917, Henry sofreu um processo aberto por dois acionistas da empresa, os irmãos John e Horace Dodge, que se opunham, entre outras coisas, à contínua redução dos preços do Ford T, que vinha sendo promovida ano a ano, por determinação de Henry. O Ford T, lançado em 1908, era um sucesso de vendas e continuaria a sê-lo até os dias atuais, um dos veículos mais vendidos na história do automobilismo. Os irmãos Dodge temiam, portanto, que a redução de preço pudesse afetar os lucros da empresa.

A transcrição do diálogo no tribunal, entre Henry Ford e o advogado dos irmãos Dodge, Elliott Stevenson, dá uma clara mostra do que era o ‘propósito maior’ defendido por Ford. O trecho foi transcrito, por Thakor e Quinn, do livro A imagem pública de Henry Ford, de David L. Lewis.

Elliott Stevenson: O senhor pensa que os seus lucros são “lucros assustadores”?

Henry Ford: Bem, eu acho que eu penso isso sim.

Stevenson: E o senhor não está feliz em continuar a ter esses tais lucros assustadores?

Ford: Nós não estamos conseguindo manter os lucros em um patamar menor.

Stevenson: O senhor está tentando manter os lucros menores? Por qual motivo a Ford Motors foi organizada, senão para ter lucros? Poderia me explicar, senhor Ford?

Ford: Foi organizada para produzir o máximo de bem, para todos os lugares, para todas as pessoas envolvidas que conseguir.

Stevenson: Qual é o propósito da Companhia Ford?

Ford: Fazer o máximo possível por todas as pessoas envolvidas. Ganhar dinheiro e usá-lo, dar empregos, oferecer benefícios para as pessoas e… casualmente ganhar dinheiro. Negócio é um serviço, não um desfrute.

Stevenson: Casualmente ganhar dinheiro?

Ford: Sim, senhor.

Stevenson: Mas o seu papel é empregar um grande exército de homens com altos salários [a Ford era conhecida por pagar um dos maiores salários da indústria], reduzir o preço de venda de seu carro, de forma que todas as pessoas que queiram ter carros possam comprá-los, não é isso?

Ford: [Sentindo que Stevenson havia explicado de maneira admirável a sua própria política frente aos negócios] E quando você entrega tudo isso, o dinheiro irá cair em suas mãos, não há como evitar.

John Mackey, fundador da Whole Foods, também fala do poder do propósito. “Os negócios precisam mudar o foco de maximização do lucro para a maximização do propósito”, diz. E propósito, ele define, é a diferença que alguém tenta fazer no mundo. E quando o propósito está firmemente implantado na mente, ele inspira todas as ações dessa pessoa e produz bons resultados para todos os stakeholders. Mackey parece ecoar as palavras ditas por Henry Ford um século antes: “Essa determinação está muito além de trazer dinheiro, mas, no entanto, ela acaba trazendo muito mais dinheiro do que se pensava ser possível.”