Me entristece muito quando ouço alguém dizer que o brasileiro é alegre, simpático e acolhedor, mas que também é folgado, preguiçoso, só pensa em si mesmo e vive querendo tirar vantagem de tudo. Colocado nesta ordem, elogio antes da crítica e assim determinando a importância do que é dito.

Pode parecer um pouco pretensioso, já que sou brasileira, dizer o contrário disto tudo e afirmar que eu acho o brasileiro demais, mas vou me aventurar no risco do julgamento e da crítica e continuar afirmando minha tietagem incondicional, pois acho que este auto reconhecimento de nosso valor é uma das coisas que podem nos fortalecer ainda mais como povo e como cultura.

Ontem, nas ruas, tive uma experiência que demonstra o que quero dizer. Em São Paulo — e em todo o Brasil — ruas cheias, Metrô cheio, filas imensas, mas bom humor e gentilezas transbordando também.

É incrível como as pessoas se sentindo unidas por uma causa transformam meros desconhecidos a amigos, em poucos minutos. Gente que nunca se viu antes comprando passagem para o Metrô juntos e dessa forma ganhando tempo na fila. Ofertas graciosas de cartazes e bandeiras para quem estava desprovido de acessórios.

Conversas com desconhecidos, cheias de animação e otimismo no meio do barulho, do calor, do amontoado de gente. Pedestres, carros e bicicletas convivendo nas ruas lotadas, sem — ou quase sem -estresse. E o mais lindo e mais incrível de tudo: olho no olho. As pessoas se olhando, se alimentando nos olhares das outras, de esperança, de expectativas positivas, de fé num futuro mais cidadão. E este olhar cúmplice realimentando a emoção de saber que, quando juntos, conseguimos nos mover de um anseio ou desejo individual e egoísta para uma convivência generosa e pacífica, em prol de um bem comum e ao mesmo tempo democrático.

O olhar que dá passagem na rua, que pede desculpas pelo esbarrão, que sorri da cara pintada, que agradece a gentileza. Este olhar, que não é egoísta, reconhece o outro existindo em suas especificidades e preferências e convive. É o olhar de alguém que se move na direção do outro.

Cada pessoa que eu via, vestida de Brasil, me causava curiosidade. Me aproximava mais de um senso de humanidade, me fazia sentir mais igual a todo mundo. Que delícia saber e sentir que somos gente, simplesmente gente. E o brasileiro tem um jeito muito bom de fazer isso. O de ficar totalmente presente e atento e iniciar um diálogo, verbal ou não, com quem nunca viu antes e sorrir, se abrir, oferecer de si sua alegria, inteireza e atenção.

E favor não confundir isto com ausência de crítica! O brasileiro tem uma tolerância acima do comum para o que o desagrada. E esta tolerância vem para o bem e para o mal. Mas, afirmo que não falta senso crítico. Não somos bestas! Entendemos tão claramente o que acontece, que conseguimos produzir uma quantidade surpreendente de piadas e anedotas, num prazo curtíssimo e com um humor delicioso. É de longe sabido que o humor é mais fluido em pessoas inteligentes. Pois é. Pena que o humor também alivia a ansiedade e nos torna ainda mais tolerantes. Algumas vezes, a gente precisa ser menos tolerante. Para isso, faz-se necessário o reconhecimento do nosso valor. Somos inteligentes. Somos igualitários. Somos sensíveis. Somos abertos. Somos democráticos. Somos bem humorados. Somos tolerantes. E saber de tudo isso não significa que vamos esquecer do que ainda nos falta desenvolver. Podemos sim correr o risco de enxergar nossas qualidades, pois não somos preguiçosos, como algumas vezes querem nos fazer acreditar. Somos humanos. Falíveis, mas com uma vontade incrível de sermos melhores. Melhores do que nós mesmos. Claro que faltam algumas coisas. Mas, em quem não falta?

Eu acredito que a força emocional que estimula a continuar no caminho de crescimento e aprendizado não é a crítica. Nenhuma criança aprende a andar ou falar ouvindo críticas sobre seus primeiros passos desequilibrados ou sobre as palavras erradas que pronuncia. Pelo contrário. O aprendizado dela se dá a partir dos elogios e da exaltação daquilo que ela já consegue fazer, mesmo que imperfeitamente.

Para que possamos entender intelectualmente os passos que devemos dar em direção ao nosso desenvolvimento, precisamos de uma base emocional que seja nutritiva. Portanto, claro que temos muito que aprender e desenvolver. Mas, já quero dizer: Brasileiros, vocês são demais!

Angélica Moretti é sócia da Corall e escreve para o blog Gestão Fora da Caixa da Exame.