Toda vez que você se sente ameaçado(a), seu cérebro simpático assume o comando. Pode esperar secreção imediata de adrenalina e cortisol, com consequente aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão arterial e do açúcar no sangue para a obtenção de energia e reações automáticas como luta, fuga ou paralisia. Acredite: não é um defeito de fábrica. Pelo contrário, é o melhor que seu organismo é capaz de fazer numa situação que seu sistema nervoso interpreta como um perigo para sua vida. E é aí que começam os problemas.

Na maior parte das vezes em que esse mecanismo é acionado, não estamos vivendo uma situação real de ameaça a nossa sobrevivência. É que nosso sistema nervoso é incapaz de distinguir, de imediato, entre um leão faminto e uma discussão ríspida. A reação é basicamente a mesma se você está perdido numa floresta repleta de animais selvagens ou numa reunião, digamos, acalorada: bombeamento de sangue para os músculos e o corpo mobilizado para defender a própria vida. Além de, num primeiro momento, basicamente perdermos a cabeça, a longo prazo, a repetição frequente desse processo pode nos levar a doenças sérias, que vão desde a depressão e problemas digestivos a diabetes, formação de pedras nos rins, hipertensão e osteoporose.

Muita calma nessa hora! Até porque quanto mais preocupado(a), pior. Existem muitos instrumentos disponíveis para ajudar o organismo a voltar rapidamente à operação de cruzeiro. Os mais simples e comentados versam sobre exercícios respiratórios, meditativos e de atenção plena que qualquer pessoa pode aprender e, com disciplina, praticar até transformá-los em um recurso pessoal de modulação do sistema simpático. E, além de transformar a forma como seu corpo lida com situações de stress, acredite, você pode influenciar a cultura reinante, que costuma atuar como mais um gatilho de acionamento do sistema reptiliano. Que cultura é essa? É a cultura do debate, da não escuta, da briga por quem tem razão, do duelo pela verdade, da crença na escassez — tudo o que nos leva a encarar o outro, o diferente, como inimigo a ser batido.

Na medida em que, como Homo Sapiens, somos seres imersos na linguagem, você pode mudar a cultura mudando a linguagem

Preste atenção nas palavras e expressões que usamos e que, sem pensar, reforçam essa cultura bélica. Buscamos “reter” os melhores talentos, para garantir maior “competitividade” e “conquistar” o mercado, “superando” nossos “concorrentes”. Se a vida é representada como uma selva cheia de perigos, nada mais natural, portanto, do que assistir investidores colocando empreendedores na parede num programa chamado “Shark Tank”. Tremendo incentivo para empreender, né? #SQN

Depois, a culpa é do sistema reptiliano…

Como a linguagem é um sistema muito complexo construído coletivamente, transformá-la é tarefa para um deus… ou para um hacker! Hackers são mais conhecidos por invadir computadores do que por sua capacidade notável de decifrar sistemas. Tanto é que, a despeito da fama histórica ligada à criminalidade, hackers se tornaram profissionais altamente valiosos para organizações que precisam inovar e não conseguem fazer isso “de dentro para fora”. Hackers não estão aprisionados pelas regras do sistema — por isso frequentemente conseguem obter soluções que vão muito além dos limites do funcionamento dos sistemas como previstos por seus criadores.

Como me parece ser mais fácil pensar e agir como um hacker do que como um deus, imagino que se um hacker resolvesse invadir o sistema de nossa linguagem bélica e separatista, ele não seria estúpido de entrar num debate para provar que essa linguagem é antinatural ou que acabará por nos levar à extinção. Não, um hacker iria fazer algo bem diferente, procurando pelos pontos frágeis inconscientes ao sistema. Ele iria observar a matrix operando pelo tempo necessário para identificar seus principais padrões. E, quando finalmente identificasse um padrão que lhe parecesse central, iria isolá-lo e criar várias novas conexões onde esse padrão pudesse ser replicado sem que o sistema percebesse.

Troque “oposto” e “contrário” por “complementar”

Um hacker poderia perceber que um dos padrões mais centrais dessa linguagem é a dualidade. Toda dualidade é expressa por uma dinâmica definida, explicitamente ou não, pela conjunção “ou”. A partir desta constatação, um hacker deliberadamente passaria a substituir, nas frases onde naturalmente se esperaria uma dinâmica dual, a conjunção “ou” por outra conjunção, “e”. Dessa maneira, “fulana tem uma carreira como executiva ou tem filhos”, se transforma em “fulana tem uma carreira como executiva e tem filhos”. Ao expressar suas próprias opiniões, um hacker evitaria dizer que “entende sua opinião, mas gostaria de trazer uma opinião contrária”. Diferentemente, ele diria que “entende sua opinião e gostaria de trazer uma opinião complementar”. Além de substituir outra conjunção que reforça a dualidade, o vocábulo “mas”, por “e”, nessa frase ele deu mais um passo na direção da transformação da linguagem e trocou a palavra “contrária” por “complementar”.

Para entender os códigos da linguagem, nosso aplicado hacker mergulhou nos estudos da complexidade e descobriu que uma característica do humano é a impossibilidade de o sistema nervoso representar o mundo tal qual ele é de fato. Já dizia Freud, “quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo.” Nossas lentes basicamente constroem um mundo tão real para nós que nos parece impossível que outra pessoa possa ver um mundo diferente. No entanto, assim é. “O mundo em que vivemos é o que construímos a partir de nossas percepções”, explica Humberto Mariotti, um dos maiores estudiosos do pensamento complexo no Brasil. “Por conseguinte, nosso mundo é a nossa visão de mundo. Se a realidade que percebemos depende da nossa estrutura — que é individual -, existem tantas realidades quantas pessoas percebedoras.”

Em outras palavras, por mais paradoxal que pareça, uma opinião nunca é contrária ou oposta à outra, mas sempre complementar. Eu vejo um mundo, outra pessoa vê outro mundo. O que ela vê e o que eu vejo ampliam as possibilidades de cada um sobre o entendimento do mundo — desde que, claro, aceitemos nossa condição de seres humanos e paremos de agir como deuses oniscientes e onipotentes.

“Entendi sua opinião e gostaria de trazer uma opinião complementar.” Simples assim. Essa é outra característica dos hackers. Quando eles decifram um código, a gente se sente um tanto quanto idiota diante do óbvio ululante que eles nos esfregam na cara. Aí a gente se pergunta: “Como não pensei nisso antes?” E eu respondo: Antes tarde do que muito tarde.