Para que servem os líderes?

Por Vicente Gomes

Na minha opinião os líderes preservam nas organizações que comandam um valor intangível, o capital social dos relacionamentos. Esse tipo de liderança, na nossa ótica, permite que as pessoas sejam mais felizes, com todas as implicações positivas da felicidade no ambiente profissional. Capitaneadas por homens e mulheres movidos por crenças humanistas, há empresas que constroem espaço para orações — independentemente do credo de líderes e liderados — estimulam manifestações artísticas, convidam os funcionários a discutir o papel social da companhia, apoiam o trabalho voluntário e veem a comunidade na qual estão inseridas como parte delas próprias. O modelo mental do líder é o responsável pela cultura que suporta esse arcabouço.

Tomemos o exemplo da W. L. Gore, de controle familiar, com faturamento de US$ 3,2 bilhões, fundada há mais de 50 anos, presentes em 30 países e mais de 10.000 associados. Seus principais produtos tem aplicação em equipamentos eletrônicos, tecidos, equipamentos industriais e equipamentos médicos. A Gore é considerada um ícone de inovação em produtos e em gestão e talvez seja, junto com a Whole Foods, a empresa mais forte em todos os vetores que identificamos em nossa pesquisa. Eles se definem como “um empreendimento unicamente inventivo, movido pela tecnologia, focado em pesquisa e inovação de produtos”. Para ser tão inventiva e inovativa, a Gore se estrutura de forma completamente horizontal, como uma rede distribuída.

O processo de liderança da Gore talvez seja uma dos mais inspiradores que encontramos. Cada associado faz parte de um time, seja de processo ou operação. Conversamos com Debra France, do time de Aprendizado e Desenvolvimento da empresa que nos contou sobre o início da empresa, quando Bill Gore trabalhava na Du Pont e estava super entusiasmado com este novo polímero mas que a empresa não queria investir. Assim, com a benção da empresa, Bill e seu filho Bob desenvolveram o material que então poderia ser aplicado de forma muito versátil e flexível, que hoje é fonte de aplicações nas várias áreas de produtos da empresa. A capacidade de inovação destas aplicações foi e continua a ser um dos traços do DNA da empresa. Antes do livro de Douglas MacGregor, do MIT, sobre a Teoria X e Y, Bill e sua esposa Vieve criaram uma organização que valorizava o ser humano e sua criatividade, e sua empresa acabou sendo configurada exatamente da forma mais progressiva como descrita no livro de MacGregor. Debra nos contou também que nem todos os associados tem alto desempenho: “É provável que tenhamos 2% dos associados com necessidade de melhorar o desempenho, ao contrário da GE com seus 10%. Falamos sobre como não criar regras para impactar estes 2% quando os outros 98% estão trabalhando no seu melhor, por isso somos muito lentos para adotar novas regras e políticas para pessoas, o que não é a mesma coisa para procedimentos para a fabricação.” Outra característica da empresa é que o trabalho é organizado em times, sejam de processos ou projetos. Tipicamente uma pessoa está associada a vários times ao mesmo tempo e um deles é sua base.”

Vicente Gomes é sócio e fundador da Corall