Politicamente Incorreto — Gestão de pessoas

Por Maurício Goldstein

Gestão de Pessoas.

Certa vez, entrou no consultório do Dr. Milton Erickson, um dos maiores terapeutas do século 20, uma senhora bem gorda usando um vestido com uma estampa cheia de cocos, buscando ajuda para emagrecer. Logo ele lhe perguntou para que tinha vindo vê-lo e ela respondeu que “estava um pouco acima do peso”. Ele era conhecido como uma pessoa gentil mas ele a surpreendeu. Ele respondeu “um pouco acima do peso? Eu nunca vi uma mulher tão gorda quanto a senhora, e a senhora não fica nada bem com esta estampa de cocos.” A mulher arregalou os olhos e ele lhe disse: “quero que você venha me ver na semana que vem e engorde 1 quilo; só 1 quilo”. Ela retornou na semana seguinte e ele lhe disse: “ainda não está bom; quero que a senhora engorde mais 1 quilo”. E assim foi durante mais de um mês até que um dia, quando ela entrou no consultório, a senhora disse: “já não aguento mais este peso, está insuportável!” e o Dr. Erickson respondeu: “agora vou ajudá-la a emagrecer.”

Esta história contém vários ensinamentos intrigantes e algumas vezes não intuitivos: primeiro, o Dr. Erickson foi capaz de dizer a verdade, que aquela senhora era a mais gorda que ele já tinha visto, e evitou o “politicamente correto” que tantas vezes usamos. Ele a ensinou a gerenciar o seu peso para “engordar apenas 1 quilo na semana”, ou seja, começou a desenvolver uma competência necessária para o emagrecimento, mas ainda de uma forma fácil para a paciente. Ele esperou que a tensão e intenção de mudança da paciente aumentasse para só então começar o emagrecimento.

E o que esses ensinamentos têm a ver com o ambiente organizacional? Vamos explorar neste post, o primeiro deles: o politicamente incorreto. Gestão de pessoas

Na última década aprendemos a ser politicamente corretos. Com o crescimento da importância da função RH e da “gestão de pessoas” nas empresas, a preocupação com o clima e o engajamento dos empregados, a onda de atenção à diversidade e equidade, muitos líderes deixam de falar a verdade para seus reportes diretos e seus times e se atém a passar meias mensagens, a “dar a entender” o que querem dizer, na esperança que o outro entenda o que lhe está sendo dito e o que se espera da pessoa.

Há pouco tempo estava falando com o diretor de uma multinacional no setor alimentício e ele me contou que iria dar um feedback difícil para um de seus gerentes, e que teria que passar a mensagem que, caso ele não melhorasse nos próximos meses, teria que demiti-lo. Quão grande não foi a minha surpresa ao encontrar o gerente poucas horas depois com um grande sorriso no rosto. Na conversa, não consegui resistir e perguntei como tinha sido a reunião com seu chefe e ele me contou que tinha sido ótima e que achava que seria promovido em breve. O diretor foi tão sutil em sua mensagem que o gerente entendeu o contrário.

Vi situações no processo de contratação em que o entrevistador fica mais de uma hora com o candidato, quando já decidiu nos primeiros 5 minutos que a pessoa não tem o perfil adequado para a vaga, só por “educação”. Gastar o tempo de duas pessoas numa conversa falsa não parece ser a melhor forma de demonstrar educação. Talvez falar a verdade com respeito e dando dignidade à outra pessoa seja uma ótima maneira de ajudar o seu desenvolvimento e honrar a relação.

Como aprendemos a dizer claramente o que pensamos, a expressar a nossa verdade, mesmo que crie algum desconforto, para gerar diálogos construtivos, para iniciar conversas com a intenção da co-evolução, de crescermos juntos — não para destruir a outra pessoa mas para liberar o potencial que algumas vezes está contido e inexplorado? De certa forma, para expressar o nosso amor. Há aí uma avenida a ser explorada, uma “nova” competência de liderança.

Maurício Goldstein é sócio e consultor da Corall