Você já reparou na quantidade de propósitos organizacionais que posicionam as empresas num patamar tão alto que faria inveja até para a turma da Marvel?

Vejamos alguns exemplos…

“Organizar as informações do mundo para que sejam universalmente acessíveis e úteis para todos.” (Google)

“Dar as pessoas o poder de voar.”(Sowthwest Airlines)

“Melhorar a saúde das pessoas, o mercado de alimentos e o planeta.” (Whole Foods)

Pode até ser que essas e outras empresas com uma ambição de impacto tão elevada estejam realmente praticando o que falam, mas, de modo consciente ou não, estabeleceram uma espécie de ditadura do propósito, onde quem não se coloca como salvador do planeta – e nesse caso a mais explícita é a Whole Foods -, está fora do clube.

Mais forte, no entanto, que esses propósitos é a experiência do consumidor, onde se dá a prova dos nove para frases e slogans impactantes.

Imagine se essas mesmas empresas resolvessem ser absolutamente fiéis a essa experiência?

Possivelmente a Sowthwest abraçasse o propósito de “oferecer passagens aéreas mais baratas”, a Whole Foods  o de “oferecer alimentos mais caros porém saudáveis”, e a Google assumisse que seu propósito é mesmo o de “disponibilizar informações precisas sobre qualquer público para quem quiser vender qualquer tipo de produto ou serviço”.

A única vez que vi algo do gênero foi no início dos anos 90 e no cinema, com o filme “Crazy People“, onde um grupo literalmente de loucos começa a criar campanhas publicitárias só falando a verdade.

Você compraria um carro espaçoso e confortável só porque ele é melhor para… fazer sexo? No filme, as vendas do tal carro aumentaram incrivelmente depois que a campanha usando esse mote foi ao ar.

Passados 30 anos desse devaneio, será que a provocação ainda é válida ou nós, consumidores, seguimos comprando promessas impossíveis de serem entregues?

Com o crescimento vertiginoso da acuracidade sobre o comportamento do consumidor, eu diria que quem ainda aposta em construir imagens ideais de si mesmo está com os dias contados – seja porque desperdiça grande parte dos investimentos destinados a marketing com balas de canhão, seja porque o consumidor está muito mais esperto depois de tanto tempo sendo enganado.

Privacidade Hackeada

Aliás, quem assistiu ao documentário da Netflix  “Privacidade Hackeada” (“The Great Hack”) teve uma verdadeira aula sobre as novas formas de manipulação do comportamento do consumidor.

O filme esmiuça o escândalo da Cambridge Analytica, que conseguiu identificar 5 mil dados de cada uma das 30 milhões de pessoas que ela acompanhou ao longo da campanha de Donald Trump à presidência, de modo a estabelecer mensagens absolutamente personalizadas que acabaram por fazer a diferença na hora do voto.

Sabemos que ela fez isso ilegalmente, em um escândalo que também resvalou forte na imagem do Facebook, que, a despeito de estar “apenas” fazendo seu negócio girar ao vender anúncios, resolveu, inclusive, rever o seu propósito depois desse episódio, incluindo em sua pauta o tema do direito à privacidade.

O que tudo isso diz sobre o mundo das empresas e seus propósitos?

Primeiro, que talvez tenha passado o tempo dos propósitos aspiracionais descolados da realidade.

E, segundo, que na nova era do big data, o que está em jogo não é mais apenas cumprir ou não leis, mas passar a mão na cabeça e refletir, muito mais do que sobre os aspectos legais, sobre uma relação ética entre o que se promete e que é entregue, entre usar todos os recursos para atingir o consumidor e fazer apenas o que ele conscientemente autoriza a ser feito.

Sem retoques, truques ou artimanhas algorítmicas para retirar dele seu bem mais precioso: seus dados.