Muitas coisas me chamam a atenção na Califórnia, estado onde meu irmão vive há mais de 15 anos e que visito regularmente. Mas foi só quando já estava de novo em solo brasileiro que acabei descobrindo que, se fosse um país, a Califórnia seria a sexta maior economia do mundo, com um PIB de US$ 2,5 trilhões em 2015, bem superior ao Brasil, que fechou o mesmo ano com pouco menos de U$ 1,8 trilhões.

Sede de quatro das dez maiores empresas do mundo, a Califórnia é o mais diverso estado norte-americano, possuindo mais hispânicos do que anglo-saxões, além de um considerável contingente de africanos e asiáticos. Nenhum grupo, no entanto, alcança a maioria absoluta, o que se traduz em uma enorme diversidade étnica e cultural, condição sine qua non para a inovação. E sabe o que mais tem na Califórnia? Artistas. E não falo apenas dos astros de Hollywood ou de Harry Perry, lendário guitarrista patinador de Venice Beach. São artistas no conceito mais amplo do termo.

Arte vem do latim ars, que pode ser traduzido por técnica, capacidade de fazer alguma coisa. E a prática histórica da arte mostrou que a coisa mais importante que um artista é capaz de produzir é o encantamento, palavra que, a despeito de ter se originado para denominar o ato de lançar um feitiço contra alguém, acabou se popularizando com o sentido de maravilhar, seduzir. Artistas nos deixam maravilhados por sua capacidade de nos tocar de uma maneira que vai muito além do cognitivo. Quem nunca foi arrebatado por uma música sem fazer a menor ideia do que a letra significava? Ou se viu hipnotizado por uma pintura abstrata?

Em um popular vídeo da Apple (não por acaso uma empresa nascida na Califórnia), Einstein, Martin Luther King, Bob Dylan, John Lennon, Muhammad Ali, Gandhi, Picasso, entre outros, são apresentados como os que ousaram pensar e fazer coisas diferentes e, mesmo sob o risco de serem considerados loucos — e muitos de fato o foram -, desafiaram as regras e presentearam o mundo com novas perspectivas, empurrando a raça humana para a frente. É exatamente isso que os artistas fazem. E é isso que empresas precisam para ir para a frente em um mundo diferente a cada dia: novas perspectivas.

Quando se observa o que vem acontecendo no Brasil, mais especificamente nas relações de trabalho, a necessidade de as organizações cuidarem mais de seus artistas fica evidente. Esses artistas são pessoas que pensam e agem de forma diferente e que, muitas vezes, por causarem tanta estranheza em um modelo de reconhecimento ainda muito “MBAtizado”, acabam tendo o destino da maioria dos grandes artistas, ou seja, a loucura ou uma morte precoce.

Conforme apontou a pesquisa Carreira dos Sonhos 2016, realizada pela Cia de Talentos, mais de 70% dos 72.593 participantes distribuídos em 3 públicos — estudantes e recém-formados, gerentes e altos executivos -, afirmaram que, se o dinheiro não fosse uma preocupação, fariam alguma coisa diferente na vida, ou seja, não continuariam trabalhando onde atualmente trabalham. Detalhe: os três públicos praticamente coincidiram nessa questão. Nem o jovem talento nem os líderes que deveriam inspirá-lo estão felizes onde estão.

Uma das teorias sobre a decadência nas relações de trabalho é que as mudanças brutais em praticamente todas as áreas do conhecimento, especialmente na última década, têm tornado insuportável viver nas caixinhas que as empresas chamam de cargos e que, com a camisa de força dos jobs descriptions tradicionais, não permitem que toda a potencialidade das pessoas tenha lugar. Então, o que faz a jovem administradora promissora apaixonada por esportes radicais? Larga tudo e vai viajar. E o super talentoso engenheiro que ama cozinhar? Pede as contas e abre um restaurante. Não raras vezes para ganhar menos.

A mesma pesquisa revelou que o salário é bom, mas melhor ainda é o equilíbrio de vida — mais uma vez, um elemento de consenso nos três públicos pesquisados. E mais um ponto para a arte californiana agora em sua expressão organizacional: o Google, empresa dos sonhos que, por ter conseguido tantas vezes essa posição, já merece o título de hours-concours. O que essa que é também a maior empresa de capital aberto do mundo, faz de diferente?

Óbvio que um monte de coisas. Mas o que gostaria de destacar aqui é que, antes de qualquer outra, o Google percebeu que a única forma de inovar continuamente era criar uma cultura robusta onde os artistas se sentissem muito bem-vindos e valorizados. Tanto que, além de toda a preocupação com o ambiente de trabalho, a empresa permite que os colaboradores passem até 20% de seu tempo em seus próprios projetos, algo que seus fundadores consideram de extrema importância para obter comprometimento, criatividade e produtividade.

Em outras palavras, se o engenheiro que ama cozinhar e a jovem administradora apaixonada por esportes radicais trabalhassem no Google, provavelmente não precisariam abrir mão de seus empregos para colocar em prática suas artes — a serviço de si mesmos e da organização. E a propósito, qualquer um pode ser um artista. Mas se, eventualmente, você se sente muito enferrujado para expressar sua arte, não deixe que a cultura corporativa destrua os artistas de sua empresa. Artistas costumam ser mais sensíveis e precisam ser cuidados. Seja o protetor deles. Atue como mecenas e ajude sua empresa a viver um novo renascimento para o mundo.

Fabio Betti é sócio consultor da Corall e escreve para o blog Gestão Fora da Caixa da Exame.