Receitas de omelete — Comunicação

Por Fábio Betti

Só com ovos, o preparo clássico com presunto e queijo, omelete de abobrinha, baiana, caipira, assada, ufa… Você ficaria impressionado com a quantidade de receitas diferentes de omelete que se encontra na Internet. E, não importa a receita, algo se repete em todas elas: a necessidade de quebrar os ovos. Caso contrário, você terá que se contentar com ovos ornamentais ou, na melhor hipótese, ovos cozidos. É de se espantar, portanto, a quantidade de gente que encontro pela vida querendo fazer omeletes, só que sem quebrar os ovos. E não satisfeitas com o autoengano, ainda querem contratar quem as ajude a colocar em prática o quixotesco desejo.

Explico: se é omelete o que querem, não tem jeito, precisaremos quebrar os ovos. Elas não dão o braço a torcer e criam qualquer história para que os ovos permaneçam intactos. “Nos disseram que com ovos não se brinca.” Finjo me ofender e pergunto quem é que está de brincadeira. Cozinhar é coisa séria. Todos queremos uma omelete de respeito. Só que ainda não inventaram um modo de fazê-la sem que se quebre os ovos.

Contam que, na empresa onde trabalham, já tentaram uma vez e encontraram até ovo podre. Em outra, a falta de habilidade em quebrar ovos fez com que a casca entrasse na receita, o que acabou levando a um resultado final que ninguém conseguiu engolir. Foram experiências traumáticas, revelam.

Sou repentinamente acometido por um sentimento de compaixão que quase me impele a vender um ovo cozido caprichado como se fosse uma receita exótica de omelete. Lembro-me dos tempos em que criava campanhas motivacionais e peças de comunicação que ajudavam a construir uma imagem irreal ou surreal, poética, inspiradora, enfim, a imagem que fosse e que, parodiando Cazuza, não correspondia exatamente aos fatos, mas era um primor em matéria de atendimento ao briefing.

Será que é possível uma Comunicação mais consciente e menos manipuladora? Essa foi a pergunta que me fiz, quando, finalmente, me dei conta de que estava todo lambuzado de extrato de tomate. Ao observar as muitas empresas que têm feito omeletes saborosíssimos, em processos colaborativos, integrados e generativos, criando, inclusive, suas próprias receitas, estou a cada dia mais confiante que essa Comunicação já existe e é a base das empresas mais queridas* do mercado. A Whole Foods, por exemplo, destaca em sua Declaração de Interdependência que “nossa capacidade de instilar um sentido claro de interdependência entre os nossos vários stakeholders (as pessoas que estão interessadas e se beneficiam com o sucesso de nossa empresa) depende do nosso esforço para uma comunicação mais frequente, mais aberta e mais solidária. Uma melhor comunicação se equipara a um melhor entendimento e a uma maior confiança.” Empresas como a Whole Foods só conseguiram se reinventar nesse novo mundo, onde todos os stakeholders verdadeiramente importam, porque largaram o conforto de suas poltronas forradas de seda, arregaçaram as mangas e foram para a cozinha fazer sua omelete da única forma possível: quebrando ovos.

Fábio Betti é sócio e consultor da Corall

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