Sonhar grande, fazer pequeno, começar logo

Auto Gestão

Por José Bueno

Ouvi essas palavras durante uma das falas no primeiro TEDx São Paulo em 2009. Nunca mais esqueci.

Sonhar grande, fazer pequeno e começar logo ressoou forte em mim, pois resumiam um estilo de vida e trabalho que tenho adotado nas últimas décadas. Desde então, tornou-se um tipo de mantra do Instituto Harmonia que criei anos atrás e oferece múltiplas experiências cocriativas para dar corpo aos anseios de uma sociedade mais harmônica, justa e amorosa.

Sonhar todo mundo sonha e eu sou apenas mais um sonhador. Sonho um cidade amiga das crianças e dos idosos. Sonho com uma educação que prepare cidadãos para a vida e não apenas para o mercado. Sonho uma sociedade onde a confiança prevaleça sobre o medo. Sonho com uma cultura de mais envolvimento que desenvolvimento. Sonho com cidades que valorizem o patrimônio histórico e ambiental como tesouros para as próximas gerações. Sonho com rios abertos e ar puro. Sonho com calçadas generosas, arborizadas e repletas de bancos com encosto. Sonho com mais e mais praças e parques onde as pessoas possam se encontrar para criar, conversar, namorar, descansar e se divertir. Sonho com comunidades que mantenham viva a vocação amorosa da espécie humana. Sonho com a riqueza menos concentrada nas mãos de poucos e mais distribuída entre todos. Sonho com a expressão criativa dos talentos de cada pessoa. Sonho com o espírito cooperativo tomando mais e mais o lugar da competição que privilegia apenas os “melhores”. Sonho com uma consciência mais profunda e mais sistêmica da realidade que vivemos. Sonho com uma vida centrada no amor, no cuidado e no fluir natural. E continuo a sonhar grande sem cerimônia alguma.

Fazer pequeno é coisa séria. É onde os mais lindos sonhos começam a ganhar densidade na forma de sementes. Sementes que são sempre pequenas e contém em si a força das florestas. A iniciativa Rios e Ruas é meu melhor exemplo do poder criativo e explosivo de um simples encontro para um café com prosa. Na mesa de uma cafeteria, trocando ideias sobre educação, política e cidadania com o amigo Luiz de Campos, decidimos fazer um passeio a busca de algum rio esquecido pela cidade. Nunca mais paramos e se um dia voltarmos a nadar ou passear nas margens de rios abertos e limpos em São Paulo, lembrarei sempre do nosso cafezinho e do nosso primeiro passeio que nos levou para as nascentes do rio Iquiririm. Uma das coisas mais perigosas do mundo é a invalidação dos pequenos gestos. Frente a complexos problemas, esperam-se complexas soluções. Nada é mais paralisante que a sensação de insuficiência de recursos, pessoas, conhecimento ou tempo para dar início a realização de um grande sonho. Nada é mais poderoso que um movimento insignificante na direção certa. Muitos filósofos e pensadores já escreveram sobre esse poder. Minha contribuição é sentir o poder explosivo de um café com prosa, seguido de um pequenino gesto, que traga a mínima densidade e movimento, como ignição inicial para uma longa viagem.

E que o primeiro gesto seja breve. Que não espere as condições ideais. Que seja delicadamente ingênuo. Que não precise de uma intensa mobilização de pessoas ou recursos. Que seja divertido. Que comece em algumas horas ou agora mesmo. Que encontre um símbolo ou local que contribua para definir o marco zero da coragem. Que seja relembrado no tempo com ternura e potência. Que possa parecer para muitas pessoas uma iniciativa romântica ou fantasiosa e ainda assim siga em frente com a força empreendedora e criativa. Sejamos todos hippies profissionais!

José Bueno é arquiteto social e mestre Aikido do Instituto Harmonia