Por Ney Silva, sócio-consultor Corall.

Outro dia lembrei-me de uma história onde um amante da natureza, que adorava fazer caminhadas por trilhas, conseguiu chegar ao topo de uma montanha num dia lindo. Deste ponto, conseguiu ver o vale verdejante por muitos e muitos quilômetros. Naquele dia ensolarado, depois de horas de esforço, sentia-se profundamente conectado à natureza e ao Divino. Nunca havia encontrado tamanha paz e unidade com o Universo. Viveu o sentimento de estar no Paraíso.

De repente, ouviu um barulho diferente, que lhe lembrou o rugido de um felino. Que animal poderia estar ali por perto? Quem sabe lhe espreitando? Talvez esperando um bom momento para dar o bote? E se imaginou morrendo nas garras e dentes de uma fera. Foi invadido por um medo profundo e lembrou de sua família e amigos que nunca mais veria. Estava encurralado no alto de uma montanha, prestes a morrer sem poder se despedir de seus entes queridos. Nunca tinha passado por uma situação tão infernal. Do paraíso ao inferno em um segundo. A descida da montanha foi com muito medo e angústia, mas nada aconteceu.

Para mim, o mais interessante desta história foi a mudança da percepção da realidade em um instante. Nada do que existia externamente e que levou este indivíduo ao estado de êxtase, deixou de existir. A única mudança, um ruído que o levou a criar uma história aterrorizante, gerou um dos maiores estresses que já viveu. Por mais improvável que fosse a existência da suposta ameaça, o medo arrebatou-lhe, levando-o a manter sua atenção, seu foco na história que criou para si.

Lembrei desta história num dia que estava muito abalado com alguns acontecimentos e decisões tomadas no Congresso Nacional, decisões estas que vão trazer dificuldades gigantescas para o próximo governo, independente de quem seja o vencedor das urnas. Tenho uma natureza bastante otimista, mas confesso que neste dia encontrava-me com certo sentimento de desânimo e desesperança com nosso país. Minha atenção neste dia estava totalmente voltada aos futuros problemas que viveremos como nação, de acordo com a história que criei para mim, com as informações que acessei.

Recordei então de uma pergunta chave para avaliar nosso estado emocional: onde está seu foco? No que você está pensando? Com que tipos de pensamentos você está alimentando sua mente? Um lado meu me diz: olhe para os dados da realidade! Há fatos e situações concretas que vão trazer mais dificuldades e riscos. Tudo isto é verdade para mim, pelo menos naquele momento.

Ao mesmo tempo, reconheço que num mesmo contexto, posso viver estados emocionais muito diferentes, dependendo de onde coloco minha atenção. Do que chamamos “realidade”, somos capazes de acessar somente um número ínfimo de informações que estão disponíveis e o que selecionamos, interpretamos e damos significado de acordo com nossas crenças e modelos mentais.

No final, diante desta realidade percebida, se pretendemos melhorar nosso estado emocional, podemos atuar em três frentes: a primeira é ter consciência de que há muito mais informações que podem ser adicionadas para ampliar nossa perspectiva. E geralmente fazemos esta seleção com nosso viés. Selecionamos as fontes, com quem e como conversar de acordo com estas preferências. Ampliar este conjunto de informações e se possível com pessoas que tenham perspectivas diferentes das nossas, sejam complementares ou divergentes, e que podem por em teste nossas certezas e convicções pode ser um caminho interessante para ampliar estas perspectivas. O que já há de positivo no cenário? Quais foram as últimas conquistas? No que já avançamos? Só o simples contato com informações de pessoas sérias e críveis e que trazem um conjunto mais positivo de outros dados do cenário que vivemos, já traz certo alívio emocional e mesmo esperança. E se nossa atenção passa também pelo que já está presente e dando certo, nosso humor torna-se outro.

Uma segunda frente é a de estarmos abertos para questionar e reavaliar nosso modelo mental, nossas crenças, e que são a base para como olhamos e interagimos com o mundo. As pessoas que estão mais otimistas e felizes, que lente estarão usando para observar esta realidade? Será que a medida de sucesso e avanço é diferente? Que outros indicadores e bases de avaliação podem estar usando? Em especial, considero muito importante, a lente que me coloca como um cocriador da realidade que vivo e não somente um “telespectador”. O que estou fazendo ou deixando de fazer que de alguma maneira contribui para esta realidade que quero tornar diferente?

A terceira frente está nas escolhas que faço de como vou agir e me comportar diante desta realidade. O que posso fazer diferente para de alguma maneira contribuir para esta nova realidade que quero criar? O que já faço e que contribui ou mesmo devo fazer mais ainda para fortalecer o cenário que almejo?

Estas frentes que englobam ampliar as informações, reavaliar a lente que uso para atuar na realidade e como escolho me comportar são bastante poderosas para nos tornar protagonistas diante das situações que vivemos no nosso dia-a-dia. Podemos abrir mão da posição de vítimas e atuar de forma definitiva para contribuir para o cenário que desejamos e nos beneficiamos de todo o impacto emocional positivo que esta abordagem nos traz.

Sinta-se à vontade para trocar mais ideias sobre o tema escrevendo para mim. Meu e-mail é ney@corall.net.

Artigo originalmente publicado no blog Gestão Fora da Caixa da Exame.com