Surfando nas ondas da crise — Recursos Humanos

Por José Luiz Weiss

Há algumas semanas um convite para dar uma palestra na Câmara Americana de Comércio — AMCHAM de Belo Horizonte sobre “Quais as ações de Recursos Humanos diante do atual cenário brasileiro”, me fez pensar e buscar perspectivas para contribuir com a reflexão dos meus colegas de Minas Gerais.

Nos últimos tempos, em muitos lugares, temos ouvido e falado sobre a “crise do Brasil”. Existem setores do mercado que estão realmente enfrentando uma crise, mas há outros que continuam crescendo agressivamente. Antes de generalizar o contexto para todos, como se estivéssemos em um transe coletivo, cada organização deve se perguntar qual é o seu cenário específico e evitar percepções de dificuldades que limitam em vez de abrir novas possibilidades.

Nestes momentos turbulentos, o líder de RH pode ter um papel fundamental de fazer perguntas provocadoras para catalisar a reflexão dos líderes da organização sobre o cenário atual. A partir da clareza do contexto, o RH pode escolher entre diversos caminhos de atuação: de Fora para Dentro, de Dentro para Dentro, do Negócio para o RH e do RH para o Negócio ou em uma combinação de todas elas.

Pensando primeiro de “Fora para Dentro” — as pesquisas da Universidade de Michigan, uma referência global em RH, indicam que a competência que mais diferencia o profissional e a função de RH, é o seu conhecimento externo da empresa, ou seja, do mercado, do setor e das necessidades atuais e futuras dos seus clientes. Este pode ser um excelente momento para mergulhar no mercado e aprofundar o conhecimento dos seus clientes para buscar insights que podem trazer novas soluções e perspectivas de como a organização pode gerar diferenciação sustentável.

Atuando de “Dentro para Dentro ” — cenários desafiadores são momentos excelentes para reconectar os colaboradores com a essência da organização: o seu propósito, valores e histórias de sucesso. Quando os colaboradores da empresa estão conectados com esta essência, eles são mais engajados e estão muito mais disponíveis para contribuir na superação dos desafios e construir novos níveis de performance. No seu livro “Firms of Endearment”, Raj Sisódia afirma que empresas que tem este tipo de cultura podem gerar resultados até 10 vezes superiores à média. Então, esta pode ser a hora de resgatar e construir esta força dentro da sua empresa.

Na perspectiva do “Negócio para o RH” — o RH responde às necessidades dos seus clientes internos provendo processos com excelência, gerenciando mudanças e contribuindo estrategicamente para o negócio. O desafio é, e sempre será, equilibrar a dedicação a cada uma destas prioridades lembrando que entregar processos de gestão de pessoas com excelência é fundamental para ter credibilidade para alavancar a contribuição estratégica da função. Para escolher como equilibrar as demandas, pense como dono e foque no que é mais importante para o todo.

Finalmente, pensando do “RH para o Negócio” — temos a oportunidade de nos libertar dos padrões de mercado e inovar reinventando os processos de gestão de pessoas. Profissionais de RH tem o costume de fazer benchmarking com outras empresas e com isso os processos se tornam muito semelhantes e nem sempre são coerentes a realidade de cada organização. Por exemplo, se este é um momento de transformação organizacional, pode ser uma boa oportunidade para se desenhar novos processos de pessoas que sejam únicos e diferenciados, e assim fortalecer a cultura que está emergindo.

Uma forte tempestade no mar pode ser assustadora para muitos, enquanto para um surfista as ondas altas são um convite para deixar para trás o que está fazendo e ir curtir uma experiência maravilhosa no mar revolto. Este é o momento para observar o mar e escolher surfar a melhor onda para alavancar a contribuição de RH para o sucesso da empresa.

José Luiz Weiss é sócio e consultor da Corall

Acesse o artigo original na EXAME