Conversamos com Cynthia Betti, responsável no Brasil pela Plan International. Falamos sobre transição de carreira e os desafios da liderança no terceiro setor.

Veja o vídeo abaixo:

Quem é a Cynthia hoje? Após essa transição de carreira

A Cynthia está se ressignificando. Trabalhei 30 anos no segundo setor, em empresas corporativos e então há um ano eu fiz uma transição de carreira. Eu resolvi assumir o desafio de estar a frente de uma Organização Não Governamental, reconhecendo que eu tinha que reaprender e aprender muita coisa, a começar pelo Brasil. Eu achava que conhecia nosso país. Mas percebi que não conheço.

E quais foram as situações que você viveu e experimentou que te levam a dizer que agora você conhece a Brasil?

Eu sabia que muitas pessoas não tem tanto acesso aos recursos básicos. Mas vendo da bolha que eu vivia, eu acreditava que as políticas existissem pra isso.

Entretanto, eu conheci regiões e comunidades onde as políticas públicas não existem ou não são praticadas. Lugares onde os mínimos direitos não são garantidos.

A Plan tem trabalhado para atender essa demanda. O que fazemos é olhar pra as pessoas dessas comunidades e entender como que eu poderia ajudar, como elas podem se ajudar, como podem conhecer os seus direitos e mudar essa situação.

Esta frase que está estampada aqui no teu escritório:
“Nós não vamos parar até que as meninas sejam ouvidas, respeitadas e tenham seus direitos garantidos.” O que esta frase significa pra você?

A Plan é uma organização que existe há 80 anos e está presente em mais de 70 países. Nosso foco é proteção dos direitos da criança e do adolescentes. Temos um grande pilar que é a proteção do direito das meninas. Nós queremos que essas meninas tenham igualdade de direitos.

Mas sempre trazendo essa luz para o gênero. Do mesmo modo é preciso falar para os meninos, que sofrem também com os esteriótipos de gênero. O menino não pode chorar, não pode se emocionar, tem que ser o cuidador, tem que ser o provedor da casa. Então nós trabalhamos com meninos e meninas nesse sentido.

Temos 3 grandes focos:

  • Que essas crianças e adolescentes possam se auto proteger. Temos projetos para que elas possam entender aquilo que é errado, até com relação a abuso sexual.
  • Que elas possas tomar decisões a respeito da sua vida. Nós trabalhamos a questão do casamento infantil e da gravidez na adolescência, para que esses meninos e meninas percebam que o casamento não é uma opção quando ela é criança.
  • E que elas possam liderar. A gente trabalha que essa criança não perca a autoestima. Não perca a confiança nela.

Uma parte importante do trabalho de vocês é trabalhar a liderança das meninas. Teve algum encontro com alguma dessas meninas que foi marcante para você e te ensinou muito?

Eu consigo contar uma história da Julia. Ela é do interior do Maranhão e um dia um amigo a cumprimentou pelo dia da mulher. E ela ficou muito brava.

Ela explicou que não era uma mulher. Que era uma menina. Um ser em construção. E explicou pra o amigo essas diferenças e foi trabalhando com a sala de aula esse tema e suas relações.

E então, no dia 11 de outubro, que é o dia internacional da menina, os meninos a cumprimentaram.

Apesar dela vir de uma família muito humilde, ela sonha em ser astrofísica. Ela sabe que aqui no Brasil não tem muito campo. E então ela foi atras de uma bolsa de estudos de inglês porque ela sabe que vai ter que estudar fora do Brasil. A Júlia é uma pessoa simples, que percebeu o potencial que existe nela. Que pode ter acesso a outras escolhas.

Do mesmo modo, aqui na Plan nós também trabalhamos com os pais e mães, cuidadores e cuidadoras sobre esse tipo de assunto.

Alguma coisa mudou da tua experiencia de quem esteve anos no mercado corporativo como executiva na liderança? Você enxerga alguma diferença na tua liderança atual?

O fato de ter sido líder por muito tempo e querer começar de novo, me fez dar um passo pra trás e pensar como é que eu iria liderar uma equipe que conhece mais que eu e como eu poderia usar essas pessoas, no melhor sentido da palavra, para poder crescermos e fazermos juntos.

Para isso a escuta foi muito importante nesse processo. Poder escutar sempre, poder olhar no olho, estar junto. Conversar com os educadores sociais, aqueles que estão ali na ponta, que podem trazer para nós o que está acontecendo. Tudo isso foi muito importante nesse processo de transição.

Na Corall nós falamos que a liderança é um processo. Não é uma pessoa ou uma competência, mas algo que acontece entre nós.
Tem uma liderança que é eu com os outros, com a organização e tem outra que é a relação minha com algo maior.
E aqui a gente entra no tema de espiritualidade.


Eu gostaria que você contasse qual o papel do propósito, da espiritualidade na sua vida e como funciona isso entre você e a Plan.

Quando falo de propósito eu me lembro de Capitalismo Consciente. Em 2014 eu li um livro sobre Capitalismo Consciente. Eu quis conhecer um pouco mais e fui em um congresso em Chicago e voltei de lá super transformada.

Porque eles falam muito sobre a questão do propósito. Tem que fazer o que você gosta de fazer, o que as pessoas precisam e ainda ser pago por isso. Conseguir juntar tudo isso é encontrar o seu propósito. Isso que me fez pensar e preparar essa minha trajetória, minha mudança, para eu fazer o que eu amo fazer.

Enfim, estar a frente de uma organização que trata direto com as pessoas que mais precisam de projetos e trabalhar para que possam resgatar a dignidade, me traz uma felicidade absoluta.

Mas ao mesmo tempo me traz uma grande tristeza, porque temos 15 mil crianças patrocinadas e o que fazemos tem grande impacto. Mas traz ao mesmo tempo uma sensação de impotência.

Definitivamente não é por projetos que conseguiremos mudar essa realidade. É com politicas publicas, mais agentes, mais parceiros, mais luz aos temas que trabalhamos.

Ao mesmo tempo que eu durmo com a consciência tranquila de que estamos fazendo um trabalho incrível com a ajuda das pessoa que estão aqui. Eu tenho plena convicção de que esse trabalho não é suficiente.

Inegavelmente é muito estranho, voltar pra casa, no conforto no meu lar, ao privilégio que eu tenho e poder pensar, como é que posso fazer mais, como eu posso ajudar essas pessoas que não tem esse privilégio?

E a espiritualidade?

Do mesmo modo, quando se fala em espiritualidade eu tenho fé de que eu vim para o mundo para isso, minha transição de carreira me trouxe até aqui.

A fim de fazer um trabalho de autoconhecimento eu fiz uma sessão com um coaching de carreira alguns anos atrás e falei que quando eu me aposentar eu gostaria de trabalhar com projeto social. Eu nunca imaginei que eu ia trabalhar antes.
Abrir mão de um salario maior, de mais benefícios e etc. E hoje eu percebo que não me faz falta. Eu tinha que ter essa felicidade mais plena. Eu acho que eu cheguei la.

Se você pudesse resumir tudo que você ta vivento hoje em um sentimento, qual seria?

Acima de tudo gratidão. Eu me sinto tão privilegiada por ter tido essa oportunidade de fazer transição de carreira, a vida, a família, os amigos, as pessoas, essa equipe que me recebeu.

Voltando ao tema liderança:

Esse ano eu recebi um dos feedbacks mais duros da minha vida. Percebei que eu posso ser muito forte na hora de me comunicar. Eu sou grata por esse feedback. Eu nunca soube que eu era assim.

Dessa forma sou grata por isso também, em poder me conhecer mais, a ver onde eu tenho que melhorar. Gratidão é acordar todo dia com muita vontade de trabalhar. É a forma de eu devolver um pouco pra esse mundo tudo que ele me deu.

Em conclusão, poder usar do privilégio que eu me encontro hoje para fazer a diferença na vida de alguém tem sido uma experiência maravilhosa.