Tudo começa com um sentimento — Liderança Inovadora

Por Fábio Betti

* Liderança Inovadora

Tomo a liberdade de dar um “copy e paste” no título e em parte do texto que um cliente escreveu e postou em sua intranet na tentativa de explicar a profunda transformação em que um grupo de líderes havia embarcado a convite da direção da organização. “Tudo começa por um sentimento”, dizia ele. “E, por isso mesmo, tudo começa com pessoas. Sim, porque é da essência do ser humano sentir. E sentir só é possível quando reconhecemos e interagimos com o outro.” A mensagem é óbvia — espero que, de fato, o seja. No entanto, entendê-la é outra coisa. Aceitá-la, então, ainda parece algo bastante distante num mundo onde as pessoas são cobradas para serem mais objetivas e as verdades são defendidas como únicas. Proponho-me então a prestar esse serviço de utilidade pública esclarecendo o papel das emoções nos processos de gestão.

Para começar, não somos seres racionais. Mesmo que para fazer essa afirmação, eu tenha feito uso da razão, são as emoções as responsáveis diretas por tudo o que pensamos e fazemos. Para fundamentar esta afirmação, hoje resolvi abusar do “copy e paste” e incluo aqui um texto do livro “Emoções e Linguagem na Educação e na Política”, de autoria do biólogo chileno Humberto Maturana. “As premissas fundamentais de todo sistema racional são não- racionais, são noções, relações, distinções, elementos, verdades, que aceitamos a priori porque nos agradam. Em outras palavras, todo sistema racional se constitui como um construto coerente a partir da aplicação recorrente e recursiva de premissas fundamentais no domínio operacional que estas premissas especificam, e de acordo com as regularidades operacionais que elas implicam. Quer dizer, todo sistema racional tem um fundamento emocional. Pertencemos, no entanto, a uma cultura que dá ao racional uma validade transcendente, e ao que provém de nossas emoções, um caráter arbitrário. Por isso é difícil para nós aceitarmos o fundamento emocional do racional, e pensamos que isso nos expõe ao caos da irracionalidade, onde tudo parece ser possível. Acontece, entretanto, que o viver não ocorre no caos, e que há caos somente quando perdemos nossa referência emocional e não sabemos o que queremos fazer, porque nos encontramos recorrentemente em emoções contraditórias.”

Como costuma dizer Maturana em suas aulas na Universidad Mayor do Chile ou nos concorridos cursos livres de Biologia-Cultural que ele ministra em vários países, “no momento em que você observa esse mecanismo ocorrendo em seu viver cotidiano, você perde a inocência.” E eu complemento: perde a inocência para usar verdades absolutas e afirmar que, se o outro não entendeu algo que você disse, o problema é ele que é ignorante, resistente ou não sabe escutar. “Seja objetivo!” Quando queremos que o outro concorde com o que pensamos, somos mesmo hábeis na arte de usar a razão e sua expressão mais concreta, a linguagem, a nosso serviço. No entanto, na medida em que somos seres relacionais, seria mais sensato — racional! — entendermos que, quando ignoramos esse fundamento científico, que toda razão é baseada numa emoção, criamos muitas vezes situações desqualificadoras e, portanto, improdutivas — quem dá o melhor que pode quando está triste ou com medo?

O Google não é a empresa dos sonhos dos jovens brasileiros por pagar os melhores salários. Os talentos são atraídos e se mantém leais a uma empresa quando se sentem bem e confiam em seus líderes.

A Apple não é uma empresa inovadora simplesmente porque tem os melhores cérebros. A inovação surge quando pessoas se encontram num espaço de escuta genuína, de confiança e respeito-mútuo. Elas se sentem empoderadas para pensar livremente e expor suas ideias sem receio de serem julgadas.

Dinheiro e poder engajam muito menos do que um propósito que vá além do lucro. Isso porque as emoções vêm primeiro. E uma determinada emoção em particular parece ter vindo antes de todas as outras quando o tema é o ser humano. Maturana acredita que o principal ponto de diferenciação de nós, humanos, para outras espécies de primatas, seria a linguagem — linguagem entendida como uma ação coordenada de aprendizagem recursiva. E para ter surgido essa competência sofisticadíssima que não se observa em nenhum outro ser vivo na Terra, foi necessário que um determinado grupo de primatas estabelecesse uma forma de convívio baseado na colaboração, na confiança e no respeito-mutuo. Isso porque leva-se tempo para que a linguagem possa ser desenvolvida, um processo que só ocorre em todo o seu potencial se baseado numa dinâmica relacional onde as pessoas que dela fazem parte surgem como legítimas outras. Isso equivale a dizer que, se nossos ancestrais não aprendessem a escutar uns aos outros, aceitando e incorporando em seu viver cotidiano as diferentes perspectivas de mundos trazidas recorrentemente pelo outro e co-criadas a partir dessa interação, provavelmente ainda estaríamos pulando de galho em galho atrás de bananas. Essa emoção de aceitar o outro como um legítimo outro, Maturana chama de amar. Note que, embora a palavra seja a mesma, o amar a que o biólogo se refere é bem distinto do amar romântico, essa outra dinâmica que, não raras vezes, se baseia na expectativa e na exigência, ou seja, em outro tipo de emoção.

Um líder que ignora essa característica de nossa história que nos acompanha como uma condição biológica e que pode ser observada, geração após geração, no processo de desenvolvimento de cada criança, pode incorrer no erro de comprometer suas metas e o sucesso da organização ao não dar o devido valor às emoções que sua dinâmica de liderar está gerando e que, em primeira e última instância, são os reais motivadores ou desmotivadores das ações de sua equipe. Longe, porém, de propor que as organizações se tornem consultórios terapêuticos, diminuir ou, se possível, evitar julgamentos sumários e apegos a verdades universais já seria um tremendo adianto.

Fábio Betti é sócio e consultor da Corall

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