Sobre hábitos, dentes e inovação. Por Priscila Ghnó Mattucci, designer na Corall.

Hoje foi um daqueles dias bons. Quando tudo (ou quase tudo) parece contribuir para um sentimento de “estou no caminho certo”. Na aula de hoje na pós graduação que comecei há pouco, tivemos uma aula excelente sobre processos e ambientes que conduzem à inovação e ali, tive uma epifania.

Faz algum tempo, eu não estava lá muito contente com a vida corporativa que levava. Trampo de escritório por 14 anos e aquela coisa clichê: das 8h às 18h convivendo com a dor excruciante de ver no fim do dia o sol indo embora num céu que eu mal vi na hora do almoço. Conhece essa história? Aí eu tive um ímpeto, juntei uns trocados, larguei tudo e fui morar no Butão. Hoje sou uma nômade digital mega bem sucedida e vendo módulos de melhoria de produtividade viajando pelo mundo. Rá, mentira, claro. Na realidade eu ainda estou (ainda por que esse incômodo começou por volta de 2007 se agravando muito em 2012 e tornando-se insuportável em 2015) me mordendo aqui no presente pra pegar a linha do futuro que me levará a ver esse cenário lá bem no passado. Embora já tenha operado grandes mudanças (uma delas foi ter vindo trabalhar com a Corall), só agora eu começo a entender que, às vezes, uma mudança desse nível requer algo que eu, e certamente grande parte da população ansiosa, não tem paciência de aguardar: tempo. Tempo e perseverança. Tempo e perseverança e disciplina. Tempo e perseverança e disciplina e persistência. E pra arrematar tudo isso, um novo mindset (porque tá na moda essa palavra).

“Mudar o modo de pensar dói. Chego a dizer que dói fisicamente. O cérebro rejeita, abomina, afinal: pra que você vai querer fazer um novo caminho neural?”

Porque raios você ó servo-coração vai querer inventar de mudar o que eu cérebro-mestre já faço igual há tanto tempo? Eu não quero! Anos e anos você aceita migalhas de endorfina ao resignar-se trocando liberdade (pra dentro da cabeça) por uma roupitcha nova. Ou então um pequeno shot de serotonina que te acalma e faz assistir felizinho o video de gatinho arco-íris no Facebook! E então, no desespero de mudar, você passa a travar uma batalha neurótica contra você mesmo: começa a devorar tudo quanto é video aula dos mega bem sucedidos do YouTube, se obriga a acordar às 5 da manhã porque esse é o horário dos vencedores, toma suco de couve detox todo dia e tudo o que consegue é sucumbir ao sussurro vil do cérebro acomodado dizendo: ah, dorme mais… você não consegue… é difícil demais pra você… você é noturna… você isso… você aquilo…

Nessa ambição de mudar a mim mesma, li muito (e ainda leio) sobre comportamento e loopings de hábito, mas um livro especificamente trouxe um exercício que me fez rir. A autora sugere: você quer desenvolver o hábito de usar fio de dental? Repita sempre, o mesmo ato, no mesmo momento do dia, de preferência conjugado a outro acontecimento e lembre-se, passe o fio dental em apenas um dente até que o hábito esteja estabelecido. Pensei comigo: tá de sacanagem né? Mas foi aí que na aula de hoje eu me liguei. Resumindo muito, a professora disse assim: em processos de inovação, comece pequeno. Não queira já fazer tudo logo de cara porque sempre há muita resistência do ecossistema (outra palavra da moda). Vá aos poucos implementando isso e aquilo e quando vir, terá inovado.

“Em processos de inovação, comece pequeno. Não queira já fazer tudo logo de cara porque sempre há muita resistência do ecossistema.”

Olhando agora, parece muito óbvio (e quase ridículo), mas foi algo que demorei a entender/ aceitar. Estabelecer um pequeno novo hábito, será o menor caminho para implementar um comportamento, que por sua vez me conduzirá com mais resiliência por caminhos mais longos na direção do meu novo eu futuro, qualquer um que ele seja.

Evidentemente, existem muitas pedras no caminho. Como contribuiu meu padrinho Fabio Betti: “inovar é se atirar na direção de algo que você ainda não sabe mesmo se vai dar certo, dar o primeiro passo (o pior e mais difícil deles!) e ter fé, sim, antes de tudo é um ato de fé tão inabalável que os torcedores contra e os detratores mais poderosos acabam falando sozinhos.” Fica claro que nada é de graça pra um cérebro acostumado (ou um ecossistema), mas ainda assim, podemos nos fingir de surdos e fazer algo.

Você quer um caminho novo? Comece com um dentinho.

Meu nome é Priscila Ghnó Mattucci. Eu estou rabugenta e também estou designer e como tal quero usar o poder do design pra melhorar a vida das pessoas no trabalho, em casa e dentro delas mesmas.

A pós de Design Estratégico e Inovação rola no IED e a professora (substituta no dia) é a Graziela Di Giorgi, autora do livro O Efeito Iguana.

Se você se interessa por hábitos e comportamento e é leigo como eu, você pode ler: O Poder do Hábito, Charles Duhigg. O ponto de equilíbrio, Christine Carter. A única coisa, Keller, Gary / Papasan, Jay. Ação — Nada Acontece Até que Algo Se Mova, Robert Ringer.