Imagine a seguinte cena: você está diante de uma grande tela, como uma TV de 70 polegadas. No momento inicial surge a imagem de uma pintura abstrata. Depois de alguns segundos a imagem muda e, como sua expressão facial está sendo observada e analisada, é possível saber se a nova imagem agradou mais ou menos, e com isto, depois de algumas interações, o programa que está por trás desta análise já tem boas pistas do que mais lhe agrada. Com isto, as imagens com combinações de formas e cores estão cada vez mais interessantes para você. Ao final de muitas interações você está diante de uma pintura abstrata simplesmente belíssima e cativante. Personalizada para você. Mas o experimento pode ser feito com várias pessoas e grupos, cada um com sua expressão facial capturada e analisada, de tal forma que o produto final seria agradável não só para uma pessoa, mas para todo um grupo, e assim, provavelmente, se fosse leiloada poderia obter um significativo valor no mercado. Este produto final não poderia ser considerado uma obra de arte? Com certeza surgem perguntas interessantes nesta nova realidade como “de quem são os direitos autorais da obra?” Esta situação não é futurista, já é uma realidade e com o aprimoramento galopante de tecnologias de reconhecimento facial e inteligência artificial, muito brevemente já será possível termos nossas obras de arte personalizadas facilmente acessíveis.

Mas já temos robores que pintam como artistas? No início de novembro, o Museu do Amanhã recebeu um presente da ABB (Asea Brown Boveri) em comemoração aos seus 105 anos de presença no Brasil. Sim, chegaram aqui no país para o fornecimento dos primeiros equipamentos elétricos para o Bondinho do Pão de Açúcar. O presente foi uma pintura realizada ao vivo no evento, conjuntamente entre o artista plástico Caio Chacal e Yumi, um robô produzido pela empresa, normalmente usado para a produção industrial. Esta não foi a primeira incursão artística de Yumi. Semanas antes, Yumi regeu uma orquestra com o tenor Andrea Bocelli. E um aspecto interessante é que o robô ficou apto a realizar essa função complexa com apenas 70 horas de treinamento.

Uma das áreas da I.A. (inteligência artificial que ajuda computadores e aparelhos a criar coisas que o cérebro faz), que tem recebido muita atenção é o estudo da percepção humana. É através da percepção que coisas abstratas como sons e imagens podem se tornar conceitos na mente. E são os algoritmos de percepção artificial que permitem que hoje fotos sejam pesquisáveis baseado no que há nelas. Por exemplo, hoje já há algoritmos capazes de traduzir imagens em frases. Outro exemplo é que as inúmeras espécies de pássaros já podem ser identificadas em fotografias. E esta frente de estudo da percepção artificial tem trazido uma conexão grande com a criatividade artificial e a arte digital.

Como tem se dado este processo? De uma forma simplificada o que acontece é o seguinte: fotos são compostas por pixels. Assim, conjunto de pixels que seguem um determinado padrão acabam sendo traduzidos por algo, por exemplo, um gato. Entre os pixels e a tradução “gato” o que existe é o que pode ser denominado de um “caminho neural”. Assim acontece no nosso cérebro e desenvolvemos esta habilidade quando crianças, quando a partir das imagens que vemos, aprendemos a diferenciar as coisas. Isto é um gato, aquilo é um pássaro. A capacidade de processamento e as milhões de fotos disponíveis na internet, com a ajuda de pessoas para identificar o que existe nas fotos, permitiu que este “caminho neural” fosse desenvolvido para computadores. E ainda estamos engatinhando diante de todo o potencial que existe na área.

A partir do desenvolvimento deste “caminho neural”, que num computador se assemelha a uma fórmula, uma equação, ou o que chamamos de algoritmo, pode-se pensar na seguinte questão: “E o que acontece se caminharmos no sentido inverso?” Ou seja, a partir de uma palavra, criarmos os pixels associados. Este tem sido um dos projetos desenvolvidos por um time de engenheiros do Google que estuda esta área e, a partir destes experimentos, várias imagens que podem ser associadas à arte digital têm sido criadas.

Outro experimento divulgado recentemente na Austrália me chamou muita atenção. Através de pesquisas online, o público foi incentivado a identificar entre duas poesias, qual havia sido feita por um poeta humano e qual por um programa de computador. Hoje já há algoritmos capazes de construir seus caminhos neurais a partir de inúmeros poemas ou textos “lidos” e produzir novos poemas com o que foi “aprendido”. E os resultados são fascinantes. Em algumas das comparações a grande maioria do público julgou que o poema feito pelo computador (sem o saber, é claro) era mais “humano” que o produzido pelo poeta em carne e osso. Ou seja, uma obra de arte computacional mais “humana” do que a de um poeta consagrado.

Todas estas iniciativas, cada vez mais abundantes na humanidade, tem me ajudado a refletir que em áreas que há pouco tempo eu acreditava que seriam exclusivas aos seres humanos, como a das Artes, também temos um campo vasto de oportunidades de contribuição destas nossas criaturas, nossos computadores e máquinas cada vez mais inteligentes.

Sinta-se à vontade para trocar mais ideias sobre o tema escrevendo para mim. Meu e-mail é ney@corall.net.

Artigo originalmente publicado no blog Gestão Fora da Caixa da Exame.com