O contexto que vivemos hoje, nos convida de maneira veemente e urgente a sermos adaptativos, como pessoas e como organizações.

Somos todos sistemas vivos e complexos, como pessoas ou como organizações (ou comunidades, grupos, times). Por isso, qualquer movimento que desejamos fazer para evoluirmos, nos transformarmos ou nos adaptarmos, quer queiramos ou não, acaba acontecendo respeitando os princípios da complexidade e dos sistemas vivos.

Vivemos, também, em um contexto explicitamente complexo, incerto, volátil e ambíguo. Quer queiramos ou não, nossas organizações e nossas instituições só sobreviverão caso se tornem sistemas adaptativos, que rápida e continuamente se transformam, aprendem e evoluem.

Precisamos enxergar as organizações como sistemas vivos, tornando-as organizações adaptativas.

Para desenvolvermos a adaptabilidade, a mais essencial das questões tem a ver com a qualidade das conexões entre as pessoas que fazem parte de uma organização/sistema e entre elas consigo mesmas.

A qualidade da conexão consigo mesmo
Nós somos um sistema propriamente dito. Se olharmos para os aspectos biológicos do nosso corpo, temos uma série de sistemas, organismos e seres interdependentes. Se olharmos para nossa mente, incluindo aí os pensamentos, crenças, o consciente, o inconsciente, alma, perspectivas, sentimentos, intuição e todos os aspectos intangíveis adicionamos ainda uma infinidade de elementos, personalidades, talentos e seres também interdependentes.

Gosto muito de uma citação de Lévi-Strauss no livro Mito e Significado que diz:

“Nunca tive, e ainda não tenho, a percepção do sentimento da minha identidade pessoal. Apareço perante mim mesmo como o lugar onde há coisas que acontecem, mas não há o ‘Eu’, não há o ‘mim’. Cada um de nós é uma espécie de encruzilhada onde acontecem coisas. As encruzilhadas são puramente passivas; há algo que acontece nesse lugar. Outras coisas igualmente válidas acontecem noutros pontos.”

Somos uma encruzilhada, e nossa capacidade de perceber, sentir, experimentar, aprender e evoluir nossas conexões “internas” será nossa capacidade de nos tornarmos mais adaptativos.
Precisamos evoluir nossa conexão conosco mesmo.

Faz parte essencial do trabalho que realizo junto com meus sócios, contribuir para que as pessoas, individualmente, percebem essa encruzilhada que são, consigam acessar suas múltiplas inteligências, consigam ouvir profundamente e sem preconceitos a si mesmas, consigam acessar o seu lugar interior. Quando isso acontece, vemos explicitamente o que chamamos de “Liberação de Potência”, uma pessoa que consegue acessar suas potências, adaptá-las constantemente e oferecê-las aos outros.

A qualidade das conexões na organização
A organização que não opera em rede, que não está constantemente evoluindo a qualidade das conexões entre todas as pessoas e sistemas que interagem com ela não consegue sobreviver por muito tempo, porque fica parada, focada no cumprimento de regras ou nos resultados que inventou atingir, ou ainda, na legislação de comportamentos e atitudes que inventou serem o bem. Vivendo uma ficção absurda de que é possível controlar a vida.

“Essa desconsideração pela dinâmica da vida fica assustadoramente clara nas organizações de hoje. Os líderes usam o controle e a imposição em vez de processos auto-organizadores. Reagem à incerteza e ao caos puxando ainda mais as rédeas que já são fracas, em vez de investir nos nossos melhores recursos.

Para fazer com que as pessoas trabalhem, os líderes usam emoções primitivas de medo, escassez e interesse próprio, em vez de traços humanos mais nobres, como a cooperação, o interesse e a generosidade.

Isso nos trouxe a esta época difícil…”
(Margaret J. Wheatley, no livro Liderança para Tempos de Incerteza)

Para sobreviverem, as organizações precisam ser adaptativas. Ser adaptativo é estar conectado e se transformando constantemente. É operar através de uma rede interdependente. É se permitir morrer e renascer inúmeras vezes. É saber reconhecer e lidar com a imprevisibilidade e com os (difíceis) convites à evolução que o contexto faz. É perceber a diversidade de suas potências e cada vez mais fortalecer essa diversidade.

“a antifragilidade é uma propriedade de todos aqueles sistemas naturais (e complexos) que sobreviveram [nós, organizações, florestas, etc], privar esses sistemas de volatilidade, aleatoriedade, e agentes estressores os prejudicará. Eles enfraquecerão, morrerão ou serão destruídos.”
(Nassim Nicholas Taleb, no livro Antifrágil)

Faz parte essencial do meu trabalho junto com meus sócios, contribuir para que as organizações se tornem organizações adaptativas. E nossa experiência e estudos nos mostram que é questão essencial evoluir as conexões entre as pessoas e como elas operam e aprendem juntas.
Quando conseguimos evoluir a qualidade das conexões e o operar em rede (aliado ao trabalho da conexão do indivíduo consigo mesmo) percebemos que um movimento de transformação acontece de maneira exponencial, acelerada, de alto impacto. Chamamos isso de “Liberação de Potência” da organização. É a diferença que faz a diferença. É um movimento que acelera todos os outros movimentos. É quando as coisas acontecem! Mesmo!

Precisamos, juntos, criar contextos, protótipos e experiências que permitam que novas conexões surjam, conexões existentes se fortaleçam, nutrir e animar uma rede interdependente e dar autonomia para que ela encontre as soluções, quebre e evolua padrões, se reinvente e então começaremos a ver a liberação de potência acontecer.

Bora?

Artigo originalmente publicado no blog Gestão Fora da Caixa da Exame