Meu filho compartilhou comigo uma experiência que me lembrou como ver uma situação de fora pode ser transformador. Ele estudou um ano em uma universidade particular em São Paulo e depois se transferiu a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como ainda estava de férias em São Paulo, ele decidiu visitar os amigos na antiga universidade e se surpreendeu com o que aconteceu durante a visita.

Ele sentou-se no espaço de convivência para esperar o horário do intervalo. Quando os alunos começaram a sair das aulas percebeu algo diferente. Ele passou a observar como as pessoas se vestiam, como as pessoas se comportavam, prestou atenção sobre o que conversavam e se sentiu incomodado, quase que sufocado, em um ambiente que, até muito pouco tempo, lhe era familiar e confortável. Se ele não tivesse tido a experiência de conviver em outra comunidade universitária, não teria como perceber a diferença de ambiente e cultura, entre as duas universidades.

Após ter tido essa experiência ele nunca mais irá conseguir ver as duas universidades da mesma forma que antes. Naquele momento, ele viu as duas universidades de fora e se libertou do olhar que não enxerga porque está envolvido no sistema. Ele reconheceu o seu olhar como somente uma perspectiva e, assim, se abriu para a possibilidade da existência de outras perspectivas.

Quando estamos envolvidos em um contexto é mais difícil enxergar oportunidades para evoluir e transformar. Imagino que você também já tenha vivenciado a experiência de estar com dificuldades de encontrar caminhos para resolver um problema e quando se distanciou dele, dormindo uma boa noite de sono ou se desligando um tempo do assunto, de repente encontrou uma solução que não estava visível até aquele momento.

É interessante que a palavra desenvolvimento contém muita sabedoria porque para desenvolver é necessário nos des-envolver. Para desenvolvermos com sucesso um projeto, uma estratégia, um novo negócio ou até mesmo um país é necessário darmos um passo para atrás para conseguirmos enxergar o contexto ampliado com suas múltiplas perspectivas, e assim, identificarmos caminhos de evolução e transformação.

No início do ano, tive a oportunidade de presenciar uma experiência semelhante a que meu filho me contou, em um encontro de líderes da América Latina de uma grande empresa multinacional. A empresa vinha de vários ciclos de resultados abaixo das expectativas e sua liderança tinha se acostumado a justificar a performance se apoiando em inúmeras explicações e fatores externos.

Nesse contexto, a chegada de um novo CEO e CFO do mercado que enxergavam a situação por outra perspectiva proporcionou o nascimento de um novo olhar. Quando eles apresentaram de forma clara a redução dos resultados ao longo dos últimos anos se descortinou uma nova perspectiva e eles se deram conta que poderiam se libertar daquelas justificativas e fazer algo diferente para liderar uma transformação possível e necessária.

Temos a oportunidade de nos vermos de fora todos os dias quando nos enxergamos no espelho, mas nem sempre aproveitamos o momento para nos ver e nos perguntar o que podemos fazer de diferente para evoluir e nos sentirmos mais plenos e felizes. Ver de fora requer coragem! O desafio é deixar de ver como sempre vemos, apegados as mesmas perspectivas, ao modelo mental vigente em que nos encontramos na vida e nas empresas em que trabalhamos. Com coragem podemos explorar novas possibilidades, nos abrir a múltiplas perspectivas e nos libertar para expressar plenamente a nossa potência.

Artigo originalmente publicado no blog Gestão Fora da Caixa da Exame.com: