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  • Gestão
  • Foto de Fabio Betti Fabio Betti

Crise por contágio — Modelo de gestão

  • março 11, 2015

Crise por contagio — modelo de gestao

Tem uma crise lá fora. A gasolina subiu, a Petrobrás, que sempre foi o orgulho nacional, está enfrentando a maior crise de sua história, por causa do seu modelo de gestão. A economia se desacelerou e, tecnicamente, já vivemos uma recessão. As empresas de modo geral vêm realizando demissões há vários meses. Muitas pessoas falam em sair do país — conheço gente, inclusive, que se mudou para Miami, onde o valor dos aluguéis e o custo de vida estão bem menores do que na maioria das grandes cidades brasileiras. A crise hídrica que assola vários estados e, em especial, São Paulo, pode, de fato, resultar numa catástrofe econômico-social sem precedentes em nossa história.

Além de todas essas crises, há uma crise ainda mais perversa: a crise que se dá aqui dentro — dentro de cada um de nós. Uma crise que, como uma doença, é pega por contágio. Ela atende por vários nomes, mas vem sempre acompanhada de frases que grudam como refrões baratos: “o ano está perdido”, “vai de mal a pior”, “não há o que fazer”. E, como uma profecia auto realizável, a crise por contágio vai se alastrando e se transformando rapidamente numa verdadeira epidemia, transformando uma crise que já era séria em gravíssima. Isso se dá porque nós, como seres biológicos, temos um sistema nervoso que reage a partir do que acreditamos e não, como muitos creem, respondendo a uma realidade objetiva. Se, portanto, acreditamos que não há saída para a crise, nossa imagem da realidade nos coloca em um estado de ameaça e medo e nosso organismo reage a essa informação com o melhor que ele pode fazer, ou seja, ativando mais frequentemente nosso sistema nervoso simpático, que é responsável por preservar nossa vida quando nos sentimos ameaçados.

O sistema nervoso simpático induz a produção acelerada de substâncias químicas como adrenalina e cortisol, que provocam a aceleração dos batimentos cardíacos e o aumento da pressão arterial, de maneira a que o sangue seja bombeado o mais rápido possível para os músculos, nos preparando para três reações básicas instintivas: fugir, lutar ou congelar. Essa reação natural é uma herança de nosso desenvolvimento como seres humanos, quando nossas reações eram capitaneadas pelo cérebro reptiliano, o mais primitivo de nosso cérebro, chefe dessa “operação de guerra” que é essencial para lidarmos com uma situação de risco real a nossa vida. O problema é que um efeito colateral desse mecanismo é a diminuição da oxigenação do neocórtex, a parte mais nova de nosso cérebro no processo evolutivo e responsável pelo pensamento lógico, o que afeta diretamente nossa capacidade de raciocínio. Em outras palavras, quando nos sentimos ameaçados, perdemos a cabeça! E, fazendo um trocadilho com uma expressão conhecida de todos nós, “no brain, no gain”! Sem poder contar com o melhor de nossa capacidade de raciocínio, como encontrar uma saída para a crise? Está formado o ciclo vicioso em espiral descendente na direção do desespero. Entregar-se para a crise equivale, portanto, a enfrentar um leão faminto de verdade. Nosso corpo é submetido a um stress que, a depender da fome e do tamanho do leão, pode nos ser fatal.

Aqui talvez você se pergunte qual seria o primeiro passo para romper esse ciclo vicioso. Não se trata simplesmente de encarar a crise como oportunidade, ao invés de ameaça. Aposto minhas fichas que isso, você já sabe. Aproveitar a crise para mudar algum hábito que, num novo contexto, se tornou disfuncional é o segundo passo. O primeiro é respirar — respirar longa e profundamente -, de maneira a ajudar seu organismo a voltar ao equilíbrio. Com a diminuição dos batimentos cardíacos, o cérebro volta a sua oxigenação natural. Em outras palavras, você volta a contar com sua capacidade plena de raciocínio.

Com a calma recuperada, junte um grupo de líderes de diversos níveis e áreas diferentes para conversar de modo franco e aberto. Depois de construir um entendimento comum sobre o desafio, deixe-os livres para definir uma única ação que prometa ter um alto impacto sobre o sistema e possa ser implantada imediatamente. A técnica, chamada de “ação por acupuntura”, promove ganhos de maneira rápida e sem muito esforço, desde, é claro, que as agulhadas sejam nos pontos certos. É aí que entra a inteligência coletiva: duas cabeças pensam melhor do que uma, certo? Imagine então um monte delas.

Antes, no entanto, que você possa pensar que essa história se trata apenas de teoria para vender consultoria, deixe-me trazer o resumo de uma conversa que tive outro dia com um jovem executivo de uma grande empresa do segmento de construção. Em nove anos de companhia, ele conta que já enfrentou, pelo menos, outras duas grandes crises e que, mesmo de contornos bastante distintos, a tática para lidar com elas é sempre a mesma: desafiar a equipe a encontrar um novo serviço para oferecer ao mercado. Mas o que mais me chamou a atenção nesse relato foi o fato de o executivo revelar que sua principal motivação nesses momentos de maior dificuldade não estava diretamente relacionada ao resultado gerado para a empresa, mas à necessidade de encontrar uma maneira economicamente viável de não dispensar pessoas experientes e integradas com a cultura da companhia, um bem de enorme valor e, portanto, muito caro para ser descartado. Mesmo sem ter como foco a recuperação financeira da companhia, o que aconteceu? Em meio a uma dessas crises, a equipe identificou que a expertise que ela usava dentro da própria empresa poderia ser oferecida como um serviço de consultoria a outras organizações. Resultado: a equipe teve seu emprego garantido e a companhia criou uma nova área de negócios. E adivinhe quem foi chamado para chefiá-la?

Fábio Betti é sócio e consultor da Corall

Clique aqui para ver o artigo original na EXAME

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