A felicidade interna bruta é parte das organizações inovadoras — FIB

Por Vicente Gomes

A questão que se apresenta então para as empresas é como levar a felicidade para o ambiente de trabalho. Uma das abordagens mais modernas, que engloba inclusive as descobertas científicas mais recentes, é o conceito de FIB, Felicidade Interna Bruta. O FIB surgiu em 1972 no Butão, um pequeno reino encravado nos Himalaias, entre a China e Índia. Em resposta às críticas de que seu país mantinha uma economia pequena e fechada, o rei do Butão, Jigme Singya Wangchuck, declarou-se interessado não em aumentar o PIB, o Produto Interno Bruto, e sim o FIB, a Felicidade Interna Bruta de seu povo. Tratava-se de construir uma economia preocupada não apenas em contabilizar a produção, mas que também considerasse os valores espirituais do budismo; a ideia era que crescimento material e espiritual caminhassem juntos, inaugurando um novo modelo de desenvolvimento social. O governo do Butão começou, então, a organizar o gerenciamento do país considerando esse índice, que deveria valer tanto para políticas públicas quanto para decisões de investimentos. Foi uma decisão vertical, de difícil implementação até hoje. No entanto, trazia em si um conceito interessante e inovador, que vinha se somar a uma saraivada de críticas que o PIB vinha recebendo desde os anos 1960.As organizações inovadoras tem por objetivo levar a felicidade para o ambiente de trabalho, pois ela não está preocupada apenas em contabilizar a produção.

A questão que se apresenta então para as empresas é como levar a felicidade para o ambiente de trabalho. Uma das abordagens mais modernas, que engloba inclusive as descobertas científicas mais recentes, é o conceito de FIB, Felicidade Interna Bruta. O FIB surgiu em 1972 no Butão, um pequeno reino encravado nos Himalaias, entre a China e Índia. Em resposta às críticas de que seu país mantinha uma economia pequena e fechada, o rei do Butão, Jigme Singya Wangchuck, declarou-se interessado não em aumentar o PIB, o Produto Interno Bruto, e sim o FIB, a Felicidade Interna Bruta de seu povo. Tratava-se de construir uma economia preocupada não apenas em contabilizar a produção, mas que também considerasse os valores espirituais do budismo; a ideia era que crescimento material e espiritual caminhassem juntos, inaugurando um novo modelo de desenvolvimento social. O governo do Butão começou, então, a organizar o gerenciamento do país considerando esse índice, que deveria valer tanto para políticas públicas quanto para decisões de investimentos. Foi uma decisão vertical, de difícil implementação até hoje. No entanto, trazia em si um conceito interessante e inovador, que vinha se somar a uma saraivada de críticas que o PIB vinha recebendo desde os anos 1960.

Criado na década de 1930 pelo Prêmio Nobel russo de economia Simon Kuznets, o PIB mede toda a riqueza produzida no país e consagrou-se como o mais popular indicador de desenvolvimento de uma nação.

Décadas se passaram até que as descobertas científicas fossem aos poucos e de forma cumulativa criando entre especialistas a consciência de que talvez, afinal de contas, o rei estivesse certo. Hoje não são poucas as críticas ao modelo predominante de desenvolvimento e progresso, baseado no PIB. Quanto maior o PIB melhor está o país. Quanto mais o PIB cresce, melhor é seu governo. Quanto maior o PIB per capita, mais feliz é seu povo. São crenças reforçadas pelo noticiário e pelas rodas de conversas. Pois bem, vários estudos apresentam evidências que talvez não seja exatamente assim.

Um dos conceitos básicos da economia da felicidade foi trazido pelo economista americano Richard Esterlin, da Universidade do Sul da Califórnia. Estudando as séries históricas de dados sobre PIB e felicidade em vários países no mundo, Esterlin descobriu que a relação entre PIB e felicidade não é perfeita, ou seja, não é verdade que, quanto maior o PIB per capita de um país (maior a riqueza média dos indivíduos), maior a felicidade de cada um. Esse achado é de suma importância, pois estilhaça a relação entre o aumento da produção e do consumo e o aumento da felicidade — justamente o suporte do modelo econômico e empresarial no mundo de hoje. Esterlin descobriu que sim, riqueza e felicidade andam juntos, mas somente até um determinado ponto, quando as necessidades básicas, conforto e até um certo nível de luxo podem ser adquiridos graças ao nível de riqueza alcançado. Além deste ponto, ou o nível de felicidade fica estável ou, como observado em muitos países, como Japão e Estados Unidos, a felicidade diminui! Isso tem implicações importantes para o modelo de desenvolvimento dos países, do sistema econômico e das empresas. Está claro que, enquanto não for atingido o nível de satisfação das necessidades básicas, de conforto e até de um pouco de luxo, a ênfase na melhoria do padrão de vida deve permanecer, porém de modo que outros fatores importantes para a segunda etapa do desenvolvimento não sejam eliminados da vida social ou organizacional. Entre esses fatores estão as relações harmoniosas, o significado da vida e do trabalho conectados a uma causa maior e o vínculo sustentável com a Natureza, entre outros; se forem esgarçados, regenerá-los pode ser muito difícil ou até impossível.

O economista americano Joseph Stiglitz, laureado com o Nobel em 2001, é outro autor que faz uma crítica feroz ao processo de desenvolvimento dos dias de hoje. Ao afirmar que “aquilo que medimos afeta o que fazemos”, e admitindo que o PIB seja um indicador falho, ele pontua que possivelmente estamos maximizando a coisa errada e, assim, contribuindo para a degradação do padrão de vida. (Um ponto de partida para reflexão é pensar que o sistema econômico hoje tem ricos cada vez mais ricos e o restante da população vivendo em condições cada vez mais degradadas.) Da forma como está estabelecido, uma pessoa de 50 anos em tratamento (caro) de um câncer terminal, que morresse numa batida de carro depois de sair de uma reunião com o advogado para tratar da separação de um casamento de 30 anos estaria contribuindo fortemente para o progresso de seu país. O PIB não diferencia entre gastos relacionados ao bem-estar de sua população e gastos que claramente pioram a qualidade de vida. Minha experiência no mundo da gestão me mostrou que pessoas, organizações e instituições dão foco e atenção àquilo que é medido; se não é mensurado, será sistematicamente negligenciado.

O FIB não substitui o PIB, mas complementa-o, incluindo aspectos subjetivos para medir a opinião da população sobre os diversos fatores que impactam seu bem-estar e sua felicidade. As nove dimensões do FIB são: Padrão de Vida Econômico (equivalente ao PIB, mas focado no impacto na vida da pessoa), Saúde, Educação (esses três primeiros indicadores perfazem o IDH, hoje medido pela ONU), Cultura, Governança, Resiliência Ecológica, Vitalidade Comunitária, Uso do Tempo e Bem-estar Psicológico.

No Brasil, a coordenadora do movimento FIB, Susan Andrews , já desenvolveu vários pilotos com o objetivo de adaptar e aprimorar os indicadores à nossa realidade. Sua ideia é, principalmente, criar um processo prático e participativo que congregue agentes das comunidades (cidadãos, líderes comunitários, governo, empresas, academia). Hoje cidades como Itapetininga, Campinas e Dois Córregos (todas no interior de SP), Bento Gonçalves (RS) e Brasília possuem pilotos da abordagem FIB adaptada ao Brasil.

Crédito: Vicente Gomes