A maior e mais sutil violência nas organizações

Basta passar alguns minutos dentro de uma organização para perceber o vocabulário de guerra, violência, embate e competição que impera nas reuniões, discussões e eventos motivacionais. Mas existe um comportamento mais sutil e mais violento que passa quase desapercebido e impede que as pessoas e organizações exerçam sua potência.

“Vamos ser o número 1″, “vamos matar a concorrência”, “o líder precisa dominar sua equipe”, “você tem que ir lá e por o ***** na mesa”, “missão dada, missão cumprida”… frases e expressões como essas são comumente ouvidas nos corredores, salas de reuniões, eventos e convenções ou nos cafés onde uma pessoa de sucesso aconselha um amigo… vivemos um ambiente, um idioma e uma cultura de guerra dentro das organizações. Isso é percebido e explícito.

O que nem sempre é percebido conscientemente é um outro tipo de violência, que atinge diretamente as pessoas, equipes e, poderia dizer com uma boa dose de confiança, os resultados das organizações:

O que eu estou dizendo é a verdade!

“A certeza cega. Quanto mais certeza você tem, menos você vê” – Maturana

A imposição de uma única perspectiva da realidade, ainda que acompanhada de fatos e dados, como A Realidade única e objetiva, mina completamente a potência humana.

Isso se torna ainda mais violento e potencialmente destrutivo quando a imposição de uma (perspectiva da) realidade é associada a uma posição hierárquica superiora. Quantas vezes uma organização ou equipe aceita uma realidade, mesmo não concordando com ela, simplesmente porque ela foi dita por um CEO, Vice Presidente, Diretor, Superintendente (esse nome é curioso, né?).

“Mesmo de uma perspectiva anatômica, é impossível para nosso cérebro ver qualquer coisa de maneira crua sem alguma interpretação. Podemos nem sempre estar conscientes disso.” – Nassim Nicholas Taleb em A Lógica do Cisne Negro

Acontece que não respondemos ao mundo de uma maneira direta. Tudo passa por nosso filtro interpretativo. Nossa anatomia e nossa biologia nos fazem viver realidades e mundos completamente diferentes uns dos outros, mais interessante ainda, nos faz (automaticamente) enxergar alguns fatos e (automaticamente) ignorar outros que nos façam confirmar nossas crenças e hipóteses, o que seguramente nos faz reconhecer que o que vemos, sentimos e percebemos sobre o mundo existe apenas em nosso mundo.

Diante dessa situação complexa da biologia humana, podemos escolher o caminho de simplesmente simplificá-la, um caminho “violento” onde impomos ou definimos apenas uma verdade e classificamos as outras perspectivas como falsas. Usamos o poder, o status e a liderança que conquistamos (vejam quantas palavras de guerra numa frase) para reduzir a diversidade de perspectivas e impor aquela que acreditamos ser a melhor, para partirmos logo para a ação, para a entrega dos resultados, para que eles satisfaçam nada mais do que as próprias expectativas que criamos sobre o que é correto, o que é sucesso e o que é um bom resultado.

Porém, até mesmo sob um olhar da eficiência e da alta performance, esse caminho pode não nos trazer bons frutos.

“Daí surge uma das consequências mais perversas da racionalização: quanto maior a competência argumentativa, mais cresce a unilateralidade e a superficialidade com que os assuntos são tratados. Ao procurar convencer os outros de que está cada vez mais perto da verdade, o ‘bom’ argumentador vai eliminando, uma a uma, as possibilidades criativas da discussão. No limite, acaba por suprimir a diversidade e esterilizar o processo.” – Humberto Mariotti

Vivemos hoje em um mundo cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo (para usar a sigla VUCA, em inglês), nesse mundo precisamos e muito da diversidade e complexidade do humano para encontrar soluções inovadoras e disruptivas para os nossos grandes dilemas, precisamos do humano em toda a sua potência.

Por isso, precisamos mais do que nunca de relações e diálogos que incluam as diferentes perspectivas sobre uma realidade e co-criem soluções inéditas para os desafios inéditos.

Em um mundo complexo, a capacidade que uma organização tem de evoluir depende da qualidade das relações e conexões entre suas pessoas (seus stakeholders).

Precisamos extinguir essa sutil e marcante violência se quisermos evoluir como pessoas, como organizações, como sociedade e como planeta.

Essa, pelo menos, é a minha perspectiva. Por favor, inclua a sua 🙂

Artigo originalmente publicado no blog Gestão Fora da Caixa da Exame.com