Chega de dar murro em ponta de faca

Entre meus passatempos prediletos, está descobrir a origem das palavras e dos ditados populares. Ou de inventar significados. Por exemplo, costumo dizer que “perder a cabeça” vem de um processo disparado quando somos subitamente expostos a situações interpretadas por nosso cérebro como ameaças a nossa vida. Nessas ocasiões, não importa se estamos diante de uma onça faminta ou um chefe irado, nosso sistema nervoso simpático é acionado, aumentando rapidamente a produção de adrenalina e acelerando os batimentos cardíacos, de modo a bombear mais sangue do cérebro para os músculos e extremidades, o que nos prepara para lutar ou fugir — e também congelar -, transferindo momentaneamente o comando de nossas ações ao nosso sistema mais primitivo, o reptiliano. Assim, prejudicados em nossa capacidade de raciocínio lógico, perdemos a cabeça.

Outro que sempre me intrigou é o provérbio “Não adianta dar murro em ponta de faca”. Na ausência de fontes históricas confiáveis, resolvi dar um voto de confiança ao Mario Prata em seu livro meio documental, meio ficção “Mas será o Benedito?” Ele conta — ou inventa — que, em 1.150, quando Afonso Henriques expulsou os mouros, tornando-se oficialmente o primeiro rei de Portugal, resolveu formar um grande exército para defender suas terras. Alguns dos convocados que não queriam se apresentar davam murros em ponta de faca para serem considerados ineptos para o exército. Daí que, além de pretender realizar o impossível, a expressão também pode significar atentar contra si mesmo.

O fato é que não conheço ninguém que realmente tenha dado um murro na ponta de uma faca. Já a expressão corre solta pelo mundo, para nomear atitudes tão estúpidas, mas tão estúpidas que mais estúpido mesmo só dar um murro de verdade na ponta de uma faca.

O fato é que não conheço ninguém que realmente tenha dado um murro na ponta de uma faca. Já a expressão corre solta pelo mundo, para nomear atitudes tão estúpidas, mas tão estúpidas que mais estúpido mesmo só dar um murro de verdade na ponta de uma faca.

Outro dia, quis saber de um jovem motorista de táxi sua opinião sobre o Uber, que coloca os usuários em contato direto com os automóveis de passageiros com condutor. O assunto estava — ainda está — gerando muita controvérsia nos noticiários e redes sociais. Ao invés da ladainha de sempre, ouvi um “já sugeri ao meu pai, que é dono (sic) de um ponto de táxi, para comprar um carro em meu nome e experimentar o Uber. Se a coisa pegar mesmo, melhor pular para dentro, né?” Em outras palavras, dar murro em ponta de faca, nem pensar, né?

Uma empresa que vinha sofrendo de uma perigosa estagnação criativa nos chama para ajudar na criação e sustentação de uma cultura de inovação. Ao sinal do primeiro erro, entra em pânico. Rapidamente, aciona a tropa para identificar os culpados. Em segundos, já está instalado de novo o climão de caça às bruxas que assassina qualquer nova ideia antes mesmo que ela venha ao mundo. O biólogo Humberto Maturana descreve essa situação sem meias palavras: “Quando se pune alguém que se equivoca, faz-se um convite à mentira”. Implantar um programa de inovação numa empresa que não reflete sobre seu sistema de controle e punição é o mesmo que dar murro em ponta de faca.

Fiquei feliz em saber por uma pessoa de sua equipe que, depois do workshop, o executivo havia realizado uma reunião de gestão totalmente diferente da habitual.

Um executivo ficou o dia todo no celular durante um workshop cujo tema era justamente a comunicação face a face. Ao final, ele veio me procurar. Achei que era para pedir desculpas ou algo do gênero. Queria era desabafar. Fomos ao restaurante do hotel e ele, que ocupava um cargo de diretor, ficou o tempo todo reclamando da empresa. Na hora da sobremesa, não aguentei: Qual é hoje o seu grau de autonomia? Ele: Não tenho autonomia em uns 90% das decisões. Eu: Você percebeu que durante todo o jantar, você só falou sobre o que você não pode fazer? Estou curioso para saber o que você tem feito com seus 10%… Visivelmente constrangido, o homem balbuciou algumas palavras na tentativa de se justificar. Em seguida, permaneceu em silêncio enquanto se afundada em sua torta “tres leches”. No dia seguinte, lá estava ele de novo, na primeira fila, celular sobre a mesa e prestando atenção com “olhos de Mônica” (a personagem do Mauricio de Sousa). Fiquei feliz em saber por uma pessoa de sua equipe que, depois do workshop, o executivo havia realizado uma reunião de gestão totalmente diferente da habitual — “foi um grande diálogo”, disse ela. Ao invés de continuar dando murro em ponta de faca, ele resolveu fazer algo com seus 10% de autonomia.

Em outra empresa, o líder responsável por um projeto de disseminação do novo propósito da organização me procurou preocupado quando sentiu que os gerentes envolvidos num conjunto de ações que eles mesmos criaram para colocar em prática o tal propósito perderam energia assim que se iniciou um processo de “due dilligence” movido por um investidor interessado em ampliar sua participação acionária. A frase foi dita assim, sem pontuação, numa talagada só, evidenciando a angústia de meu interlocutor. Entre o novo propósito e o “due dilligence”, as pessoas estavam escolhendo o segundo. Disse a ele que exatamente aí nascia a oportunidade de reposicionar o novo propósito, mostrando que as duas coisas se complementavam, o que de fato acontecia. E, claro, que não adiantava dar murro em ponto de faca, mas aceitar que, no momento, a energia do grupo estava mesmo voltada a apagar incêndios. A área de Comunicação preparou um comunicado associando as duas iniciativas, que foi imediatamente encaminhado para os envolvidos. E o líder do projeto aproveitou para agradecer a todos pelo esforço extra.

… a realidade pode ser, em grande parte, fruto de nossas escolhas — mais que isso, uma escolha pode nos levar a um espaço de potência ou impotência, de ação ou paralisia, de consecução de nossos objetivos ou barreira involuntária ao que desejamos.

Essas quatro histórias ilustram o quanto a realidade pode ser, em grande parte, fruto de nossas escolhas — mais que isso, o quanto uma escolha pode nos levar a um espaço de potência ou impotência, de ação ou paralisia, de consecução de nossos objetivos ou barreira involuntária ao que desejamos.

Como disse certa vez Henry Ford, “se você acredita que pode, tem razão. Se acredita que não pode, também tem razão”. Mais do que uma mera frase de efeito, o que Ford disse e que, nos esportes já se sabe há muitos anos, é que você funciona melhor quando para de dar murro em ponta de faca e aprende a ler os sinais que estão a sua volta para descobrir onde está o seu lugar. E o seu lugar, como dizia Aristóteles, fica exatamente onde seus desejos e paixões encontram as necessidades do mundo. Em outras palavras, ou você vai ao encontro das necessidades mutantes do mundo e descobre uma maneira diferente de se adaptar ao novo contexto ou acabará atropelado por elas.

Fábio Betti é jornalista, sócio-consultor da Corall Consultoria e escreve para o blog Gestão Fora da Caixa da Exame.com

Posso ajudar?