CULTURA: SERIA O MOMENTO DE OLHAR PARA O PRÓPRIO UMBIGO? — SUCESSO DA ORGANIZAÇÃO

CULTURA: SERIA O MOMENTO DE OLHAR PARA O PRÓPRIO UMBIGO? — Sucesso da organização

Por Alessandro Gruber

* sucesso da organização

O que existe de original e único na organização que você trabalha?

Seria possível refletir e destacar pelo menos um aspecto original que faça toda a diferença para o sucesso da organização e que ao mesmo tempo tenha tudo a ver com você e com o “jeitão” que você gosta que as coisas funcionem?

Muitas pessoas e organizações nos procuram para ajudá-las a encontrar, evoluir ou até mesmo resgatar aspectos que as fazem únicas. Geralmente, existe um desejo de conectar algo que tenha relação com um propósito ou uma essência original com alguma necessidade contemporânea, como um papel social, uma questão econômica, um movimento do mercado ou um desafio de atratividade de pessoas que se apaixonem por elas (como funcionários, parceiros, clientes ou investidores).

Nesse momento, é importante percebemos qual seria o equilíbrio ideal e único entre o que vem de fora e o que vem de dentro. Se partirmos da percepção de que a organização é um sistema vivo, podemos aprender muito com a maneira pela qual as células trabalham nesse equilíbrio. Cada célula possui um limite, que a distingue do ambiente. Esse limite é a sua membrana. As membranas celulares são uma característica universal da vida e possuem o mesmo tipo de estrutura em todos os seres vivos.

As membranas celulares são permeáveis, permitindo a entrada de substâncias essenciais para preservação da vida e mantendo outras substâncias do lado de fora. A membrana também é responsável por colocar para fora todos os resíduos.

Ou seja, as membranas celulares separam ou identificam as células de seus ambientes, selecionam o que entra, o que sai e o que fica de fora. Elas, essencialmente, preservam a identidade e protegem as células das influências ambientais nocivas.

Poderíamos relacionar a membrana celular com a cultura de uma organização. A cultura possui um papel, uma função essencial de caracterizar, identificar e diferenciar uma organização em um determinado ambiente. A cultura preserva a identidade da organização e está em constante movimento para selecionar ativamente o que lá fora existe e deve vir para dentro para preservar sua perenidade.

Nesse sentido, o convite é para refletirmos como anda a cultura de nossas organizações.

Será que ela está viva, em constante movimento e saudável para manter a organização sustentável, original e equilibradamente conectada com o ambiente?

Será que ela é tratada como coisa mecânica, estática ou fixa e está completamente desconectada do ambiente, servindo para alimentar um nostálgico comportamento que fazia sentido apenas num passado onde ela era realmente conectada com tudo e todos?

Será que ela é, na prática, uma fina e frágil camada que permite a entrada de qualquer ideia, crença, visão de mundo ou comportamento que venha do ambiente, a ponto de correr o risco de se auto-destruir?

Com o excesso de comunicação e conexão que acabamos desenvolvendo nos últimos anos, talvez tenhamos nos tornado uma massa homogênea, uma coisa igual, igual àquela empresa que está ganhando muito dinheiro, igual àquela outra que tem atraído os melhores profissionais ou igual àquela que tem clientes fiéis…

Talvez seja o momento de olharmos para nossa membrana viva, de olharmos para o que nos identifica, nossa cultura.

Talvez, nesse ambiente complexo e conectado, seja o momento de olharmos para o nosso próprio umbigo, para nossa essência, para aquilo que nos caracteriza.

Como escreveu Lévi-Strauss em seu livro Mito e Significado:

“Para que uma cultura seja realmente ela mesma e esteja apta a produzir algo de original, a cultura e os seus membros têm de estar convencidos da sua originalidade e, em certa medida, mesmo da sua superioridade sobre os outros; é somente em condições de subcomunicação que ela pode produzir algo. Hoje em dia estamos ameaçados pela perspectiva de sermos apenas consumidores, indivíduos capazes de consumir seja o que for que venha de qualquer ponto do mundo e de qualquer cultura, mas desprovidos de qualquer grau de originalidade.”

Pensar em subcomunicação, hoje em dia, parece completamente contra-intuitivo. Mas, talvez seja uma boa reflexão para, pelo menos, revermos o balanço, o equilíbrio entre o que está vindo de fora e o que está sendo criado de dentro. Afinal, para que toda a rede prospere junta, mantendo e criando vida, precisamos cada vez mais de células originais.

Alessandro Gruber é sócio e consultor da Corall

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