Democracia bem afinada — Práticas Inovadoras

Democracia bem afinada — Práticas Inovadoras

Por Mauricio Goldstein

Propostas de uma estrutura empresarial em que a descentralização e o incentivo à autonomia dos empregados estejam presentes, como as apresentadas pelo grupo Beyond Budgeting, destacam as vantagens de uma relação democrática dentro das empresas. Existe até mesmo uma organização, WorldBlu, que premia e divulga empresas que têm um funcionamento democrático. Falaremos sobre a WorldBlu em seguida, mas antes traremos um exemplo de uma empresa democrática, a Orquestra Orpheus.

Fundada em 1972, em Nova York, a Orpheus é uma orquestra de câmara que tem a notável característica de não ter um maestro. Para cada trabalho no qual a orquestra resolve se engajar, seus integrantes decidem entre si como os concertos serão executados, a interpretação, quem irá conduzir os ensaios e quais serão os músicos que assumirão as principais posições na execução das peças. Nos ensaios finais, todos os membros da orquestra participam na sintonia fina da interpretação e da execução. “Cada um de nós é responsável, como o maestro, em ter uma interpretação, conhecer a partitura e ser capaz de discutir essas questões com os demais colegas”, diz o violinista Renée Jolles. “E isso é algo que é pouco usual entre as orquestras.”

Desde 1972, a Orpheus vem crescendo em tamanho e em popularidade. Seu desempenho rendeu um Grammy em 2001 e inúmeros bons músicos foram formados em suas fileiras e se espalharam pelo mundo. A orquestra criou o Instituto Orpheus dedicado a desenvolver habilidades de liderança entre jovens músicos que são treinados tanto para tomar decisões quanto às suas carreiras artísticas, como também para resolver desafios administrativos. O Instituto também recebe estudantes de outras áreas, como de negócios, em cursos sobre liderança corporativa e processos criativos.

Mas afinal, o que é democracia em uma organização? Embora algumas empresas escolham seus líderes por voto, democracia não precisa ter o mesmo significado e procedimentos que tem a democracia, na sua concepção política. Aliás, é recomendável que nas empresas ela não venha acompanhada da eventual politicagem que grassa nas instituições democráticas. A WorldBlu é uma organização que divulga o conceito de liberdade e democracia organizacional. A instituição produz uma relação das empresas mais “democráticas” que seguem os princípios que esta preconiza. A definição de democracia organizacional para eles é a seguinte: “É um sistema baseado na liberdade, ao invés do medo e do controle; uma maneira de desenhar as organizações de modo a ampliar as possibilidades do potencial humano e da organização como um todo.”

A Worldblu tem uma lista de princípios para uma democracia organizacional, que é a seguinte:

  • Propósito e visão. Uma organização democrática tem clareza do porquê da sua existência (seu propósito) e para onde está caminhando e o que quer alcançar (a visão). Esse conhecimento é o seu Norte, que proporciona a orientação e a disciplina para seguir o seu caminho.
  • Transparência. É preciso dizer adeus à mentalidade de “sociedade secreta”. As organizações democráticas são transparentes e abertas para os seus empregados sobre a sua saúde financeira, estratégica e caminhos que pretende percorrer.
  • Diálogo e escuta. No lugar do monólogo de cima para baixo ou o silêncio improdutivo que costuma caracterizar os locais de trabalho, as organizações democráticas estão compromissadas em manter conversas que conduzem a novos níveis de conexão e significado.
  • Justiça e dignidade. Organizações democráticas não tratam algumas pessoas como uma “pessoa especial” e outros como “ninguém”, elas tratam todos com justiça e dignidade.
  • Essas organizações deixam claro quem é responsável pelo quê e para quem.
  • Individual e Coletivo. Nelas, o individual é tão importante quanto o todo. Isso significa que os empregados são valorizados tanto pela sua contribuição, como pelo que eles fazem para ajudar a alcançar os objetivos coletivos da organização.
  • Organizações democráticas se esforçam para proporcionar escolhas significativas para os seus empregados.
  • Organizações democráticas entendem que a liberdade exige disciplina e que se faça o que é moral e eticamente correto.
  • Descentralização. Significa que as organizações democráticas devem assegurar que o poder é compartilhado e distribuído de uma maneira apropriada, entre as pessoas na organização.
  • Reflexão e avaliação. Organizações democráticas estão compromissadas com o desenvolvimento e o feedback contínuo e desejam aprender com o passado e aplicar esforços para melhorar o futuro.

“Obviamente ditaduras não são efetivas em termos de governança na nossa vida do dia a dia. Então por que nós permitimos ditaduras nas organizações?”, pergunta Art Elizarov, vice-presidente de Recursos Humanos da DreamHost, uma das empresas democráticas da lista da Worldblu, em entrevista que nos concedeu em Los Angeles. “Isso faz com que a força de trabalho atue de maneira subversiva, e assim nunca teremos inovação.” Empresa que hospeda websites, uma hosting, localizada na Califórnia (EUA), a Dreamhost avisa em seu site que é uma organização que tem seus empregados como proprietários. “Nós somos uma família unida e não queremos vendê-la para investidores, conglomerados de hostings ou qualquer outra companhia gigantesca que se importa mais com o lucro do que em fornecer um serviço sólido de hosting.”

A determinação dos donos da DreamHost em manter o seu negócio como ele foi idealizado chega a parecer uma religião. O CEO da empresa, Simon Anderson, disse em uma entrevista que quando olhava para os empregados trabalhando via uma aura de luz brilhando em torno deles. E era uma aura azul. Eles tratam com sarcasmo as pessoas que trabalham ‘naquelas empresas’ para as quais, juram, jamais venderão o negócio. “As pessoas que trabalham para essas companhias são loucas. Elas ganham comissões de venda, se vestem de uma maneira ‘empresário-casual’, falam palavras engraçadinhas como ‘sinergia’ e usam água-de-colônia.”

Fora a rebeldia um pouco adolescente, a Dreamhost tem práticas inovadoras e que, pode-se ver, vêm trazendo bons resultados para o negócio. Quando a empresa foi fundada por um grupo de amigos de escola, em 1997, usava apenas um servidor e uma única linha de internet cedida, de graça, por um amigo comum. Em 2012, a empresa hospedava mais de 1,2 milhão de domínios, atendia a 300 mil clientes, empregava 200 funcionários fixos, possuía mais de uma centena de servidores de primeira geração e faturava US$40 milhões por ano.

E fazer juntos na empresa é, também, escolher o CEO. Os candidatos ao cargo passam por um processo, que poderia ser chamado de pré-seleção, em que são ouvidos pelos vice-presidentes da empresa. Na última vez em que isto ocorreu, o número de candidatos foi reduzido a dois. Uma consulta interna com os demais empregados elaborou uma lista de dez questões que estes julgaram importantes que os candidatos a CEO se posicionassem a respeito. Os dois finalistas foram, então, levados a um plenário, no qual estava um grande número de funcionários, e responderam a cada uma das questões, às quais eles não tiveram acesso prévio. O CEO foi escolhido por voto direto dos empregados. Tudo isso lembrou debates dos candidatos a cargos políticos promovidos pelas emissoras de TV.

Além do reconhecimento pelos próprios empregados de que a empresa é uma das melhores para trabalhar, os baixos números de turnover mostram isso. Nos últimos 5 anos, a empresa teve menos de 1% de demissões voluntárias e 0,5% de dispensa não voluntária. Em 13 anos, houve apenas um processo trabalhista contra ela.

Mauricio Goldstein é sócio e consultor da Corall