O Guerreiro

 

 

– Olá.

Os dois olharam em sobressalto.

 

– De onde veio?

– De lá?

– Mas não o vimos.

– Vim pela lateral da estrada.

– Por que?

– Para não ser visto.

– Por que?

– Não sabia se eram amigos.

– E agora? Já sabe?

– Não. Mas sei que não são inimigos.

 

O Homem pensou por um instante enquanto trocava olhares com o Peregrino ao seu lado.

– E como sabe?

– Posso sentir. Nada em vocês indica que eu deveria temê-los.

– E se fossemos perigosos? Iria nos atacar?

 

Ao dizer isto viu que o Artista se aproximava curioso, expressando certa tensão. Foi então que  o Homem percebeu que o personagem que acabara de questionar tinha duas espadas na cintura. Suas mão evidenciavam muita força, embora estivesse aparentemente relaxado. Perguntou-se se deveria ter se calado, e se seria, ele sim, perigoso.

 

– Não.

– Não o que?

– Não iria ataca-los.

 

A curiosidade foi maior que seu receio, e o Homem seguiu na conversa.

 

– O que teria feito?

– Ido embora.

– E se tentássemos impedi-lo.

– Iria antes de perceberem a minha presença.

– Mas percebemos a sua presença assim que você chegou.

 

O sujeito com as espadas sorriu.

 

– O que foi?

– Não perceberam, não.

– Como não?

– Eu já os observava há algum tempo.

 

O Homem ia questiona-lo, mas percebeu que talvez fosse verdade. Não estava tão atento assim para poder afirmar que não estivessem sendo observados.

 

– E quando decidiu nos deixar perceber a sua presença?

– Ora, quando defini que não eram uma ameaça. E quando achei interessante a conversa que tinham.

– Que conversa?

– Sobre sentir raiva.

– E foi pelo que dissemos que concluiu que não éramos uma ameaça?

– Não.

– Então  o que fez você concluir isto, afinal?

– Entre outras coisas, o fato de que vocês não me perceberam, mesmo quando estive bem perto.

– Como assim?

– Aquele que tem em si a intenção de agredir, passa a vida com medo de ser agredido. Por isso está sempre tenso, e portanto, mais atento do que aquele que está relaxado.

 

– Hum… É sempre assim?

– Não sempre, mas na maioria das vezes, pois para ser diferente é preciso muito treino.

– Como assim?

– Para estar relaxado, e ainda assim atento, é preciso muito treino.

– Entendi… E será que eu deveria estar mais atento?

– Depende.

– Do que?

– Você acredita estar em risco?

– Sempre podemos ser surpreendidos.

– É verdade. Mas não é saudável estar sempre alerta. É preciso fazer escolhas.

– Como assim, não é saudável estar sempre alerta?

 

– Como disse, é preciso treino para poder estar atento e relaxado ao mesmo tempo. Sem este treino o estado de alerta torna-se desgastante. Este estado de atenção incessante vai gerando um stress profundo sem dar sinal evidente. É um stress físico e emocional, resultado do fato de que seu relaxamento é sempre relativo e o descanso nunca é profundo. Em breve estará se sobressaltando por movimentos insignificantes, e até reagindo a eles sem necessidade, enquanto pode acabar nem percebendo ameaças verdadeiras que sejam mais sutis. Você pode parecer alerta, mas na realidade está estressado. São dois estados muito distintos.

Estar alerta também é uma questão qualitativa, e demanda que a nossa capacidade de decidir esteja límpida.

 

O Homem permaneceu olhando com certa admiração. Por fim, falou:

 

– Faz muito sentido. Você, o que é? Um filósofo.

– De certo modo.

– O que é exatamente?

– Um guerreiro.

– Um guerreiro?

– Sim.

– E qual é a relação entre a guerra e a filosofia?

– Há muita relação. Mas independente disso, não confunda a guerra com o Guerreiro. Eu sou um guerreiro, e não a guerra. Como pode perceber, eu estou aqui, mas ainda assim, não há guerra.

– Verdade, mas é o Guerreiro que faz a guerra.

– Não.

– Como não?

– O Guerreiro envolve-se com a guerra, mas não a faz.

– E quem a faz, então?

– Todos.

 

O homem olhou intrigado. Por fim, disse:

 

– Eu não.

– O Guerreiro sorriu. Está fazendo uma pequena guerra agora mesmo. Este nosso embate é uma pequena batalha.

– Mas não é uma guerra propriamente dita.

– Verdade. Isto porque não estamos reagindo com violência aos nossos desacordos, o que reforça a noção de que o Guerreiro não faz a guerra necessariamente.

– Mas a guerra é feita por combatentes.

– Sim, mas nem todos combatentes são Guerreiros. A maioria, aliás, não é. Ao menos em uma guerra.

– Não entendi.

– O Guerreiro é aquele preparado a seguir o Caminho do Guerreiro. O Caminho do Guerreiro não é a guerra, e estar na guerra apenas, não faz um Guerreiro. É um estilo de vida em busca do constante aprimoramento do ser e da ampliação da consciência. Todo passo que dou é nesta busca.

 

O Artista se manifestou:

– Até aí, eu também.

– Existem muitos caminhos. – respondeu o Guerreiro assentindo com a cabeça serenamente.

 

O Homem refletiu por alguns minutos.

 

– E não são todos os caminhos assim? Nesta busca?

– Não. Mas muitos são, realmente.

– E o Guerreiro não entra na guerra?

– Sim. Entra.

– Para vencê-la?

– Sim.

– Então há violência em sua atuação.

– Não necessariamente. Pode até acabar por fazer uso da violência, mas este não é seu objetivo, e ele lançará mão de muitos recursos para evitar isto. Minha busca é sempre a harmonia.

– Na guerra?

– Sim. Exatamente onde ela é mais necessária.

– Mas a harmonia não é coisa de pacifistas?

– Nem sempre. Muitos se dizem pacifistas mas focam sua ação em brigar com quem está na guerra. Muitas vezes, com igual violência. Não há paz nisto.

 

– E o que faz o Guerreiro?

– Treina muito a mente o corpo e o espírito, para ficar pronto a entrar na guerra, dominar a situação e retomar a harmonia que se perdeu com o conflito.

– Parece difícil fazer isto.

– E é mesmo muito difícil. Por isso passo a vida me preparando. Se tiver êxito algumas poucas vezes, tudo valeu a pena.

– Tudo o que?

– A busca, o treinamento. Se puder dar a um conflito, que seja, uma saída harmoniosa, todo o esforço valeu a pena. A violência é sempre o caminho mais fácil, por isso é também o mais frequente.

– Não é mais fácil ignorar o conflito?

 

O Guerreiro não respondeu. Passou a olhar a paisagem.

 

– Não é mais fácil ignorar o conflito?

O Homem seguiu sem resposta. Repetiu a pergunta aumentando o seu tom de voz, pensando que talvez não fora escutado. Nada de resposta. Já irritado o homem gritou:

 

– Guerreiro!?

 

O Guerreiro seguiu olhando a paisagem. O Homem ficou muito irritado e levantou-se, indo até que ele, até que estivesse grosseiramente perto.

 

– Não me escutou? – gritou agressivo.

– Sim. Escutei.

– E?

– Eu estava apenas o ignorando. Aparentemente isto não serviu para tornar a conversa mais pacífica. Aliás, aparentemente, acendeu uma fagulha de violência em você. Como eu disse, ignorar o conflito não o torna mais pacífico.

 

O homem parou atônito, percebendo agora sua própria agressividade à flor da pele. Então,  retrocedeu atordoado e voltou a sentar-se em seu lugar.

 

– Ignorar o conflito é agredir de forma velada aqueles que, por uma ou outra razão, o estão provocando. Se há um conflito é porque há necessidades não atendidas que precisam ser acomodadas. Elas são aparentemente antagônicas, por isso o conflito se forma, mas ignorar estas necessidades só irá agravá-lo, e pode leva-lo rapidamente à violência.

– Nossa! É verdade. Não havia visto desta forma.

– Por isso o primeiro desafio do Guerreiro é libertar o olhar.

– Libertar o olhar?

– Sim. Para ver realmente ao invés de apenas olhar e nada enxergar.

– Qual é a diferença?

– Estamos tão embebidos de verdades pré-concebidas que quando olhamos para algo tendemos a ver aquilo que queremos ver, reafirmando nossas crenças ao invés de realmente ver o que há de novo naquilo. Temos de libertar o olhar para permitir ver de verdade, observar o que é visto e, se for o caso, permitir que isto mude nossa percepção das coisas. Todo olhar deve ser analítico em algum nível.

 

– Vou pensar nisto.

– Observe atentamente a qualidade do seu olhar. Este exercício é melhor do que pensar.

– Olhar atentamente evita a violência?

– Muitas vezes, ao menos, evita a violência desnecessária. E isto define quase toda  violência que ocorre.

– E você prefere sempre evitar a violência?

– Sim. Ela é perigosa, cruel e desgastante, além de nos expor a riscos desnecessários, pois ela alimenta a cólera que a gerou.

– Como assim?

– Veja bem: você acha que poderia me vencer em um embate físico?

 

O Homem olhou para o guerreiro sentado. Suas mãos eram fortes e os antebraços que apareciam para fora de seu traje eram largos e marcados. As espadas acomodavam-se em sua cintura, mas pareciam prontas a saírem de lá rapidamente. O homem suspirou.

 

– Não. Acho que não teria a menor chance.

– E ainda assim, se levantou e veio violentamente na minha direção. O que você estava buscando?

– Não sei – disse o homem confuso pela sua óbvia falta de clareza, sentindo-se um pouco envergonhado pela sua atitude que, repentinamente, revelara-se ridícula.

– Eu estava com raiva.

– Isto eu percebi. Mas por que veio na minha direção se na sua própria opinião, em caso de um embate físico, você perderia?

– Não sei. Não pensei nisso.

 

– É disso que estou falando. A reação colérica e violenta é imatura e fraca. Ela nos turva a mente e a visão e nos coloca em risco. A explosão violenta não é sinal de força, é sinal de fraqueza e de inabilidade para lidar com situações críticas.

 

– E você não se irritaria?

– Creio que não. – o Guerreiro tomou uns segundos pensando – Muito pouco.

– Como não?

– Treino pra isso.

– Pra não se irritar?

– Pra não perder a calma, mesmo sob a mais forte provocação. Mesmo na situação mais tensa.

– E você consegue?

– Quanto mais me preparo e treino, mais consigo.

– E quando não consegue?

– Aí me torno fraco, pois entrarei na batalha sem estar preparado para ela.

– E vai retomar a harmonia perdida no conflito?

– Neste caso, talvez não.

– Talvez ou certamente?

– Talvez.

– Mas se você perde a calma e entra no combate com agressividade, como vai ajudar a harmonia a se reestabelecer?

– Os movimentos que treinamos exaustivamente são feitos para isto. Pode ser que minha mente e meu espírito estejam atuando sem clareza, mas meu corpo pode me colocar novamente no caminho certo. Nesta hora pode despertar minha mente e meu espírito para o caminho certo. O corpo também tem sabedoria, própria e aprendida. Uma sabedoria imensa.

– E dá tempo de se acalmar no meio da batalha?

– Sim.

– Mas acalmar-se leva tempo.

– Não leva, não. É quase imediato. Toma o tempo de uma respiração.

– Eu demoro para me acalmar.

– Você demora pois está apegado à raiva e à ilusão de que o outro deveria sucumbir para que você seja vitorioso. Se apega à noção de certo e errado e espera uma justiça representada pela consagração de suas ideias ou de sua opinião, enquanto na verdade, isto não é importante na maioria das vezes. O conflito aprisiona todos os envolvidos, que ficam tomados pelo impulso de vencer o outro, perdem o olhar ampliado, confundem seus próprios objetivos e se apegam ao objetivo superficial e primitivo de agredir o outro. O que demora a passar é o apego a tudo isto, pois não deixamos que ele se vá. Se aprender a abrir mão, pode alterar seus estados emocionais rapidamente, mas é preciso treinar muito a mente, o corpo e o espírito.

 

– Não havia visto desta forma.

– Como disse: É preciso libertar o olhar.

– E aí você poderá retomar a harmonia sem lutar?

– Não. Eu vou lutar. Vou entrar no embate, dominar o oponente e tomar controle da situação, de preferência sem feri-lo.

– Por que?

– Porque somente aí poderei propor uma nova relação. Eu estou seguro e dominando a situação, portanto não preciso mais temer, e posso abrir mão de ser violento. Ao mesmo tempo, o outro deve perceber que seu ataque já foi neutralizado, e aí pode dar ouvidos a propostas novas. O treino exaustivo é para aprender a fazer isto sem machucar o outro, para que ele, ao acalmar-se, perceba que está seguro também, e pode confiar em uma nova proposta. Também verá que não ignorei e nem me opus ao ataque dele, mas o absorvi no novo movimento.

– Difícil de entender.

– É difícil pois é distante de seu modelo de pensamento. Você entende que dominar a situação e vencer o outro são a mesma coisa, mas não são.

 

– Então você nunca treina maneiras de machucar o outro?

– Já treinei muito, como machucar e até matar, e ainda treino com frequência. Mas isto faz parte do caminho, e serve mais a preparar nossa autoconfiança do que às demandas verdadeiras da batalha, e pretendo usar estas técnicas cada vez menos.

– Mas usaria eventualmente?

– Pode ser.

– Quando?

– Quando achar que é meu último recurso para ficar vivo.

– Mas e se você avaliar mal?

– É um risco, por isso treino. Quanto mais hábil eu for em tomar controle da situação, mais difícil me encontrar em uma situação onde acho que corro risco de vida eminente, ou onde meu medo domine e me faça pensar assim.

– É, faz sentido, mas muitos pacifistas discordariam de você. Alguns dizem que preferem morrer a ter de machucar o outro.

– Respeito esta opção, mas não é a minha.

 

– Sei, você disse que entra na guerra para vencer.

– Sim.

– Mas se entrar em acordo com o outro você não venceu a guerra.

– Venci sim. Não confunda vencer a guerra com vencer o oponente. Eu não quero acabar com o oponente, quero acabar com a oposição violenta em si. Quero acabar com a guerra.

 

– Mas se os conflitos acabarem o Guerreiro não será mais necessário.

– Os conflitos nunca acabarão.

– Mas não é isto que você busca?

– Não. Não tenho a pretensão de eliminar os conflitos, apenas de dar a eles saídas sem violência. Sem guerra.

– O Homem suspirou cansado. Olhou para o céu e perguntou ao guerreiro: Você viu o céu?

 

O guerreiro continuou olhando pra ele, mas respondeu:

– Vi. Está lindo.

 

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Trecho retirado do livro de Marcio Svartman

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