Liderança Nos Dedos Da Mão

Liderança Nos Dedos Da Mão

Por Fernando Lanzer Pereira de Souza

Para aprender a ser um líder é importante aprender a respeito de três aspectos: sobre si mesmo, sobre o mundo ao seu redor e sobre o futuro.

Em Ai Ki Do, a arte marcial que virou moda e tem servido de referencia para o desenvolvimento de executivos do Ocidente nos últimos dez anos, isso é representado de forma singela com um gesto da mão.

Feche sua mão direita como um punho, como se baixasse sobre você o santo de um rapper suburbano que cumprimenta seus amigos dando soquinhos nos punhos fechados deles. Mantenha a mão fechada e o coração tranquilo, deixando que o rapper dentro de você escorregue lentamente e saia do seu corpo pela ponta do pé ou pelo orifício da sua preferencia.

Agora levante o polegar, como quem faz um sinal de positivo, ou como o imperador romano que, atendendo à multidão do Coliseu, resolve deixar que o gladiador sobreviva, ao invés de condená-lo à morte.

Em seguida, estenda o dedo indicador para a frente, como o dedo duro do acusador Émile Zola dirigido ao Presidente da França. Sua mão deve estar parecendo a de uma criança imitando um revólver.

Agora estenda o dedo médio, aquele usado em filmes americanos para sugerir ao bandido que faça um exame de próstata, de tal forma que esse dedo médio fique perpendicular à palma da sua mão. Se você acompanhou essas instruções atentamente, (pois é, tornar-se um líder é um processo complicado…) sua mão direita tem o polegar para cima, o dedo indicador para a frente e o dedo médio (o “pai de todos” no folclore nacional) para o lado. Use esse gesto para lembrar a si mesmo daquilo que você necessita aprender para se tornar um verdadeiro líder.

Em primeiro lugar, o seu dedo polegar representa aprender sobre si mesmo. Como já dizia Sócrates (não o craque do Coríntians; o outro, que jogava na seleção grega), “antes de mais nada, conhece-te a ti mesmo!” Ser líder não é mandar nos outros; é inspirar os outros. Para tanto, é requisito conhecer-se a si mesmo para entender o que é sentir-se inspirado, o que é que inspira você. Só assim você poderá inspirar os outros de forma sincera e autêntica.

A liderança não pode ser fingida, embora os marqueteiros políticos tentem nos convencer do contrário. A verdade é que as pessoas sabem distinguir um líder autêntico e sincero de um líder falso e fingido. O primeiro é inspirador; o segundo inspira dor, inspira cuidados, inspira ira e desprezo. Comece aprendendo quem você realmente é e o que você quer; só assim você poderá apontar o caminho para os outros.

Em segundo lugar, veja que seu dedo indicador representa o futuro. Aprenda sobre o futuro: o que pode acontecer, quais são os cenários possíveis e prováveis, qual o cenário que você pretende fazer acontecer (e como). Aprendendo sobre o futuro, você pode viver por escolha, não por acaso (como diz Lady Gaga: “live by choice, not by chance”). No Brasil dizemos que “o futuro a Deus pertence”, mas Ele empresta pra você dar uma olhadinha e se você fizer a lição de casa, pode influenciar o Dito para que Ele ajude a que aconteça o que você quer.

Como dizia aquele grande goleiro, que o repórter de campo chamou de “sortudo”: “pois é, quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho…!” A sorte sorri para quem trabalha para fazê-la sorrir para ele (ou ela).

Em terceiro lugar, considere que o seu dedo médio representa tudo o que existe ao seu redor: outras pessoas, bichos, plantas, objetos, coisas, situações acontecimentos. Já dizia Heidegger que “o homem é um ser no mundo”, ou seja, de pouco adianta imaginar o ser humano como uma entidade totalmente independente e isolada, pois o homem só existe, de fato, no mundo, e nunca fora dele. Portanto, trate de aprender sobre o mundo à sua volta e como você se relaciona com ele (e como gostaria de se relacionar com o mundo). Qual é o ambiente em que você atua? Quais são os interlocutores (“stakeholders”, que Luciana Gimenez traduziria como “seguradores de bife”) mais importantes na sua realidade de líder? Como você se posiciona em relação ao mundo que o cerca (saia de cima da cerca!).

Sempre que você der a si mesmo o presente da reflexão (algo que deve acontecer pelo menos três vezes por dia; quatro vezes aos sábados), faça o gesto descrito pelo Ai Ki Do e pense: o que preciso aprender mais agora (sobre mim mesmo, sobre o futuro, sobre o mundo que me cerca)? Pense na mão e mãos à obra!

Fernando Lanzer é consultor de gestão e autor dos livros “Tire Os Seus Óculos” e “Cruzando Culturas Sem Ser Atropelado.”