“Mudança Dura”: porque algumas vezes mudar é tão difícil?

Imagine a cena: 31 de dezembro, momento em que muitos fazem planos, assumem compromissos consigo mesmo, muitas vezes os mesmos compromissos que foram assumidos naquele mesmo instante em anos anteriores, mas que não foram realizados. Parar de fumar, perder alguns quilos, ser mais paciente com determinada pessoa ou situação, etc. Ou no ambiente de trabalho, quando nós (ou outros) somos (são) convidados a realizar uma mudança comportamental que faz todo sentido, que vai ajudar a nós mesmos e aos que estão ao nosso redor e ainda assim fracassamos nos nossos planos, apesar de estarmos resolutos sobre a mudança proposta.

Mudar algumas vezes pode ser bem difícil. Para os que não estão nos nossos sapatos, pode parecer que é falta de força de vontade, determinação, planejamento, foco e execução. Sim, às vezes, pode ser isto mesmo. Mas o tipo de mudança que gostaria de explorar com vocês neste artigo é aquele, em que, apesar de toda nossa convicção, resolução e determinação, é muito mais difícil de levar adiante. Vou apelidá-la aqui de “Mudança Dura”.

Meu ponto é que podem existir várias dimensões envolvidas neste tipo de “Mudança Dura”, dimensões com forças potentes que funcionam como verdadeiros freios para a direção que escolhemos. Estas forças, nas distintas dimensões, podem atuar de forma somada e integrada para frear nossos objetivos. Às vezes, uma dimensão é mais preponderante e uma atuação efetiva em suas forças consegue liberar o movimento para transformação tão almejada. Outras vezes, precisamos de um esforço coordenado para que o trabalho seja realizado nas distintas dimensões.

Mas afinal, que dimensões são estas? Acredito que analisar um caso concreto tornará mais claro o que estamos falando. Vamos exemplificar então com uma situação corriqueira: perder peso. Imagine o caso de alguém que realmente quer muito emagrecer, mas que não tem alcançado suas metas. Que dimensões e forças podem estar envolvidas neste caso?

Dimensão física. Não vou me aprofundar, mas sabemos que várias pessoas possuem variações hormonais e metabólicas que trazem um impacto tremendo na capacidade de emagrecer. Quando pessoas resolvem tomar medicamentos, ou fazer intervenções cirúrgicas como a bariátrica, estão usando o pressuposto de que a atuação nesta dimensão bio-físico-química será a determinante para que a mudança ocorra.

Dimensão comportamental (hábitos). Nesta dimensão operamos com a tríade gatilho-rotina-recompensa. A partir de estímulos existentes no nosso ambiente, sentimo-nos fortemente induzidos a buscar a recompensa e desenvolvemos uma rotina, um hábito para chegar até ela. Um aspecto interessante destas forças é que temos um bom nível de consciência da rotina, mas não de quais são os gatilhos e mesmo de qual é a verdadeira recompensa. Imaginemos uma pessoa que tem o hábito de dar aquela paradinha à tarde no trabalho para ir até a lanchonete e comprar um bombom ou chocolate. E com isso engordou alguns bons quilinhos com esta rotina. Qual será o gatilho? Fome? Tédio? Falta de açúcar no sangue? Necessidade de dar uma parada antes de iniciar nova tarefa? E a recompensa? O chocolate em si? A energia que vem com o consumo dele? Mudar de ambiente para relaxar? Socializar com os amigos na lanchonete? Nesta dimensão operamos com a premissa de que se tenho consciência de quais são os verdadeiros gatilhos e recompensas envolvidos, posso mudar meus hábitos a partir de um bom plano. E assim, aquele que engordou pelo hábito de comer chocolate à tarde, pode desenvolver novas rotinas para chegar às mesmas recompensas.

Dimensão psicoemocional. Quando uma pessoa não consegue se manter fiel aos seus planos e compromissos para emagrecer, e com isto permanece acima do peso, será que há ganhos ocultos, normalmente inconscientes, para se manter nesta situação? Será que há crenças mais profundas que oferecem freios potentes à mudança desejada? Crenças que estão na base da auto sabotagem e que atuariam de forma totalmente subliminar? Conheço o caso de uma moça que depois de um mergulho profundo nestas dinâmicas sabotadoras, descobriu que ao não emagrecer ocultava um medo muito intenso: e se após emagrecer, continuasse a não ser atraente para os homens? Neste caso o problema não seria o físico, mas sua essência que seria rejeitada. E esta possível dor seria excruciante para ela.

Dimensão sistêmica. Somos partes de sistemas sociais, e em especial familiares, que têm grande influência sobre nós. Podemos carregar, pelas conexões que mantemos com nossa ancestralidade, pais, avós, bisavós e até gerações anteriores, tensões e traumas que são totalmente inconscientes para nós. E que podem se configurar como fortes impedimentos aos movimentos que queremos ver manifestos nas nossas vidas. Atuei como representante em uma constelação familiar (abordagem terapêutica desenvolvida por Bert Hellinger), onde o cliente era um rapaz que já buscava tratar há vários anos de seu problema de compulsão por comida, que acabou levando-o à obesidade. Seus irmãos e pais eram todos magros, somente ele fugia deste padrão físico. Através da intervenção, uma pessoa que durante a dinâmica representava seu bisavô, manifestava fisicamente profunda dor diante do representante de um de seus filhos. Resumindo a história, que acabamos sabendo após a constelação: este bisavô, fugido da 2ª guerra, havia perdido um filho que morreu de fome. O cliente desta intervenção, o jovem obeso, por motivos totalmente inconscientes, se emaranhou com este trauma que envolveu um de seus antepassados que nem chegou a conhecer. E precisou se desconectar deste emaranhamento, o que felizmente aconteceu, para conseguir tratar de sua compulsão por comida.

Dimensão espiritual. Talvez a expressão espiritual possa parecer um tanto estranha neste contexto de dificuldade para a mudança, mas vou me permitir compartilhar um caso que conheci em um dos programas de formação que participei. Neste contexto, os participantes passavam por processos de hipnose e acessavam registros inconscientes de sua mente, com a intenção de ampliar suas perspectivas sobre um tema a ser trabalhado. No caso em questão, o paciente também tratava de distúrbios alimentares. Durante o processo hipnótico, acessou imagens e sentimentos num tempo longínquo, no qual associou a uma vida anterior, uma vez que acreditava na multiplicidade de existências, identificando-se com um garoto que nas vezes que brigava com sua mãe, era colocado de castigo trancado no seu quarto, sem alimentação. Como era um castigo corriqueiro, desenvolveu a estratégia de esconder comida, mas vivia um intenso medo de ser pego e ter um castigo ainda maior. Por isto, comia rápida e vorazmente, tentando reduzir este risco. Esta compulsão e voracidade ao se alimentar mantinham-se presentes ainda hoje.

Meu objetivo ao trazer estas histórias envolvendo múltiplas dimensões e forças que freiam movimentos da “mudança dura”, foi a de ampliar as perspectivas sobre possíveis travas que podem estar presentes. As dimensões possuem profunda interdependência. Forças psíquicas desencadeiam hábitos, que por sua vez trazem impacto no aparelho físico. Somos seres integrais. E assim sendo, quando temos esta amplitude de visão do que pode estar acontecendo, individual ou coletivamente, temos mais oportunidades de desenvolver as intervenções mais apropriadas para liberar o potencial para a evolução.

Sinta-se à vontade para trocar mais ideias sobre o tema escrevendo para mim. Meu e-mail é [email protected].

Artigo Originalmente publicado no blog Gestão Fora da Caixa da Exame.com: