O efeito da tecnologia na gestão

O efeito da tecnologia na gestão

O memorando, o WhatsApp e a comunicação nas organizações
Por Bruno Carramenha

Estamos em 1985. Um gerente de uma importante empresa, liderando uma grande equipe, precisa comunicar uma mudança: um de seus melhores coordenadores vai trocar de emprego, algo pouco comum nessa época. Após tomar a decisão de como fará a reposição, o gerente dita à sua secretária um memorando para ser datilografado e distribuído, por malote, para todo o seu time, que fica espalhado pelo Brasil e receberá, portanto, a informação em tempos distintos. Pelo caráter de urgência, aos cinco empregados que reportam diretamente a esse coordenador resolve fazer uma ligação direta, que toma parte da sua tarde de trabalho.

Estamos em 2015. Um gerente em posição similar (mas com 15 anos a menos de idade) tem em sua equipe menos da metade de gente do que o personagem de 30 anos atrás, mas, ainda assim, responde por um faturamento cinco vezes maior. Seu melhor coordenador decide deixar a companhia seis meses depois de ser promovido, pois recebeu uma proposta para uma posição gerencial em outra empresa. Enquanto pensa em como fará a reposição da vaga, começa a esboçar um e-mail para comunicar todo seu time sobre a mudança (a empresa extinguiu a posição de secretária para gerentes há mais de 15 anos). Nesse momento, recebe uma ligação de um de seus empregados que trabalha do outro lado do país, questionando sobre a viabilidade de concorrer à vaga que seria aberta. Ele ficara sabendo da saída do colega, junto com todo o time, ao mesmo tempo, por meio de uma mensagem num grupo de WhatsApp e confidencia que já está acontecendo um “bolão” entre os colegas com palpites sobre quem será o sucessor.

O que essas histórias ilustram não é apenas a agilidade que a tecnologia trouxe para a gestão das organizações, mas a mudança na forma como se produzem e se propagam as informações no ambiente empresarial. Desde sempre a comunicação acontece entre empregados — nos cafés, nos corredores — e cumpre um papel relevante de explicar o ambiente para além do trabalho prescrito.

A tecnologia trouxe agilidade para a gestão das organizações e também mudou a forma como se produzem e se propagam as informações no ambiente empresarial.

Hoje, entretanto, as conversas de corredor, que regularmente ficavam restritas ao contato pessoal, contam com a poderosa ajuda do WhatsApp, que prescinde do ambiente físico para funcionar. O aplicativo reúne algumas características que o diferenciam de outras mídias do ambiente corporativo (como e-mail, o telefone ou até o SMS comum) e têm possibilitado seu rápido crescimento e integração informal nas organizações.

As conversas de WhatsApp não acontecem por imposição da empresa, mas sim pela dinâmica social — 92% dos smartphones no Brasil têm o aplicativo instalado. Com o empregado na posição de protagonista da produção do conteúdo, circulam nesse espaço apenas informações que interessam aos interlocutores e todos, igualmente, têm a possibilidade de manifestar sua opinião em formatos diversos, como texto, voz, foto, vídeo e, principalmente, emojis, recursos que tornam ainda mais pessoal as mensagens. Além disso, o WhatsApp é um espaço de diálogos praticamente em tempo real, já que, comumente, emissor e receptor estão online ao mesmo tempo.

O empregado encontra espaço para falar e ser ouvido, criando uma comunicação mais pertinente às suas necessidades e interesses.

Assim, o empregado encontra espaço para falar e ser ouvido, criando uma comunicação mais pertinente às suas necessidades e interesses. A agilidade que se estabelece nas conversas pelo aplicativo não respeita fronteiras físicas, nem de hierarquia, nem de tempo, já que é comum que a conversa sobre a empresa extrapole o horário de trabalho.

Enquanto mídia, o WhatsApp vem cumprindo um papel de permitir e ampliar a prática do diálogo nas organizações. Esta prática, como sempre, se estabelece nas relações entre indivíduos (é impossível conversar com “uma coisa”, como uma “empresa”). Com essa mídia, no entanto, gestores têm diante de si uma oportunidade de entender o diálogo dos empregados e de participar dele, com conteúdo pertinente e que permita interação, como pressupõe esse espaço. Resta saber se há interesse de ambos.

Bruno Carramenha é consultor de comunicação, professor dos cursos de graduação em Relações Públicas e pós-graduação em Comunicação Interna na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Escreveu este artigo originalmente postado na Meio & Mensagem.