“O fator que mais tem impacto na felicidade da pessoa no trabalho é a cultura da empresa”

Corall entrevista Luciana Caletti e Dave Curran, da Love Mondays

“A decisão sobre nossa carreira é uma das coisas mais importantes da nossa vida. Afinal, nosso trabalho é onde vamos passar a maior parte do nosso tempo”

Quando você está em busca de trabalho em uma empresa, não seria importante ter acesso a informações dos próprios funcionários sobre como é realmente trabalhar naquele ambiente? Foi pensando em resolver esse problema que a brasileira Luciana Caletti, CEO, o irlandês Dave Curran, CFO, e seu compatriota Shane O’Grady, CTO, fundaram o Love Mondays.

Com mais de 350 mil avaliações no Brasil, o conteúdo é postado pelos colaboradores de maneira espontânea e as opiniões são anônimas. Entre os tópicos avaliados estão a cultura da empresa, as oportunidades de carreira, o salário, o ambiente de trabalho e a avaliação do processo seletivo.

Entrevistado por Ney Silva para o blog da Corall Consultoria, Luciana e Dave detalham as motivações que tiveram para empreender, as vantagens e desvantagens de criar um negócio como casal, as rupturas digitais que estão ocorrendo no mercado de recursos humanos e as inspirações de liderança.

“Antes o nome da empresa no mercado era o que mais atraia os profissionais, mas hoje não é mais assim porque o principal ponto que buscam é a felicidade em uma cultura agradável”.

Qual foi a motivação para iniciarem o Love Mondays? De onde veio a ideia?

Luciana: antes de lançarmos o Love Mondays escutávamos muito sobre a questão de ser feliz no trabalho e de se realizar no âmbito profissional. É que antigamente as pessoas buscavam se realizar na arte, no esporte, na política, na família e até mesmo na religião, mas a felicidade no âmbito profissional não era prioridade. Nos últimos anos isso mudou por parte dos profissionais e também das empresas que buscam contratar colaboradores com os valores alinhados com sua cultura.

A gente encontrava todo tipo de avaliação, sobre casas, celulares e restaurantes, mas nunca sobre vivência no trabalho. Foi daí que surgiu a ideia de abrir um espaço para as pessoas compartilharem suas experiências. E também para as empresas mostrarem sua cultura e até mesmo atrair novos talentos.

Então olhamos esses dois lados e percebemos que existia um problema que era a falta de transparência no mercado de trabalho. Nossa decisão de carreira é uma das coisas mais importantes da nossa vida porque o trabalho é onde vamos passar a maior parte do nosso tempo.

Como foi iniciar uma empresa sustentada em tecnologia sem nunca ter tido experiência em startups ou mesmo em tecnologia?

Luciana: eu e o Dave fizemos uma viagem para o Vale do Silício. Lá conhecemos várias empresas de tecnologia e nos apaixonamos por um modelo de negócio escalável. Depois, quando decidimos nos aventurar no empreendedorismo, percebemos a importância de ter um sócio focado em tecnologia. Não foi à toa que chamamos o Shane O’Grady, que é o CTO do Love Mondays, para fazer parte do negócio.

Dave: com todas as ferramentas que estão disponíveis de forma online é possível pelo menos testar as ideias. Hoje é possível lançar um site sem saber praticamente nada de tecnologia. Isso que é a grande questão do negócio. Claro que não terão todas as funcionalidades necessárias, mas dá para testar e ver se a ideia tem potencial. Depois se você começa a receber sinais de oportunidades faz todo sentido ter pessoas próximas que saibam mais sobre um determinado assunto.

Quais os principais desafios de empreender como um casal?

Luciana: começar a empresa com o seu parceiro tem desafios maiores e vantagens boas. Em termo positivo ressalto o nível de confiança que é maior e isso é muito legal. Já o maior desafio acredito que seja conseguir separar as atividades para que o casal não atrapalhe os negócios.

Dave: no começo do negócio estava mais difícil separar, mas com o passar dos anos melhorou nossa relação casal versus negócios. No início tem que definir estratégia, modelo de negócio e buscar recursos, ou seja, tem muita indefinição e acaba causando um conflito. É que a incerteza traz uma insegurança, mas depois as coisas vão se ajeitando e tudo fica mais fluído no negócio.

Qual é o modelo de negócios do Love Mondays?

Dave: somos um marketplace que tem de um lado candidatos que estão procurando oportunidades na carreira e do outro as empresas que buscam candidatos qualificados para recrutar.

Ou seja, geramos receita criando conexões. O modelo de negócio é baseado no lado corporativo, não dos colaboradores. Entre os serviços oferecidos temos: Página de Perfil — onde a empresa aumenta sua visibilidade e atrai talentos. São mais de 75 mil empresas avaliadas pelos colaboradores no Love Mondays; Vagas ilimitadas — as empresas podem converter talentos em candidatos; e o Relatórios de Employer Branding — as empresas podem medir o alcance, impacto e atratividade da sua marca empregadora por meio de um dashboard completo de indicadores para entender, mês a mês, o número de profissionais interessados em trabalhar na empresa, o perfil desses profissionais e como a satisfação dos seus colaboradores evolui ao longo do tempo.

Como é lidar com um negócio em que as respostas do usuário nem sempre serão positivas sobre a empresa? Como é ter um negócio que tem esse contraponto?

Luciana: o Love Mondays tem quatro anos e percebemos nesse período uma evolução positiva na reação das empresas. No início ficavam um pouco mais assustadas com a exposição, mas com o passar do tempo a grande maioria percebeu que a transparência, principalmente trazida pelas redes sociais, é o mais relevante. Os sites de avaliações de produtos e serviços são excelentes canais de vendas. Trouxemos isso para o lado do Recursos Humanos e muitas empresas estão sabendo aproveitar as ferramentas disponíveis para seu negócio.

Dave: a transparência no final faz todo sentido. Digo isso porque o processo de recrutamento é custoso para as empresas e o Love Mondays consegue auxiliar já que as informações estão na plataforma. Automaticamente as empresas tornam-se ainda mais assertivas na contratação.

O Love Mondays representa uma mudança nas relações de trabalho, dando maior transparência para visão que os colaboradores têm da empresa. Que outras transformações acreditam que irá acontecer no mercado de trabalho nos próximos anos?

Luciana: uma tendência que ainda as pessoas sentem falta é a transparência sobre o processo seletivo e os feedbacks desse processo. Porque o colaborador se dedica, gasta tempo, dinheiro e muitas vezes não recebe nenhuma resposta.

Dave: nossa ferramenta permite que as pessoas selecionem as melhores empresas para trabalhar. Outro fator relevante é que antigamente o nome da empresa no mercado era o que atraia o colaborador, mas hoje não é mais assim. Tem empresa considerada pequena, sem um nome conhecido de forma geral, mas com um ambiente fantástico para trabalhar. A tendência é essas empresas atraírem esses talentos e deixarem o mercado de Recursos Humanos mais democrático.

O que os dados levantados pelo Love Mondays junto aos funcionários mostram sobre as empresas? O profissional brasileiro é feliz nas empresas que trabalha?

Dave: o fator que mais tem impacto na felicidade da pessoa no trabalho é a cultura da empresa. Isso é resultado de um estudo de correlação que fizemos para descobrir quais fatores influenciam a felicidade no trabalho. O resultado principal foi sobre o ambiente.

Luciana: quando analisamos as médias do Love Mondays, são mais de 350 mil avaliações postadas no Brasil e a pontuação que vai de 1 a 5 está com uma média de 3,6. Temos também a pergunta de recomendação de empresa onde a pessoa trabalha para um amigo: essa está com média de 72%. Esses dados indicam que as pessoas estão mais felizes que infelizes no trabalho.

Há um modelo de empresa que se inspiraram e influenciam para administrar o Love Mondays?

Luciana: No livro How Google Works Laszlo Bock fala sobre a cultura das pessoas e enfatiza que se as pessoas são boas e estão em um ambiente confortável no trabalho elas serão produtivas. Quando o líder tem essa crença, várias políticas de administração influenciam seu modo de tocar a empresa.

Além disso, temos a crença de cultura de startup. Aprendi no livro Lean Startup sobre a importância de testar a ideia rápido e com pouco dinheiro. Lançamos a primeira versão do Love Mondays em duas semanas, com um ciclo curto e rápido de aprendizado. Isso também nos permite sempre estar inovando, onde pelo menos a cada seis meses procuramos apresentar algo na plataforma ou para o cliente.

Recentemente o Love Mondays foi adquirido pelo Glassdoor. O que motivou a aquisição? O que mudou após a aquisição?

Luciana: o Glassdoor foi uma fonte de inspiração desde o início para o Love Mondays e sempre tivemos um bom contato com eles. No ano passado eles estavam olhando para América Latina para expandir na região e perguntaram se queríamos fazer algo juntos. Eles não tinham recursos humanos para expandir e também um conhecimento de mercado mais específico. Então a ideia foi do Love Mondays cuidar da América Latina e, com isso, vamos investir de forma acelerada para crescer no Brasil. No início do ano lançamos no México e Argentina e ainda não podemos falar que mudou muita coisa porque ainda gerenciamos de forma independente.

Qual o próximo passo para o Love Mondays? O que vocês pretendem alcançar a partir de agora?

Dave: na questão da plataforma estamos criando ferramentas para agilizar o acesso para o usuário. Além disso, estamos olhando outras questões para refinar a nossa proposta de valor para as empresas e evoluir para aumentar o valor para as empresas. Já na questão de mercado estamos olhando para outros locais para quem sabe entrar em novos países.

A Luciana foi eleita esse ano como empreendedora do ano, na premiação Gala Latam Founders — o “Oscar das startups” na América Latina. Qual é a dica que você deixa para os empreendedores e jovens que estão iniciando seus negócios?

Luciana: são três pontos importantes. A primeira dica é testar sua ideia rapidamente no mercado para conseguir um feedback com agilidade. Tem um empreendedor do Vale do Silício que fala que se você não tem vergonha da primeira versão do seu produto você lançou tarde demais. É bem isso que precisamos seguir.

O segundo ponto é formar uma rede de apoio para a empresa, pois ninguém sabe tudo. Começamos sem experiência em tecnologia e RH, mas buscamos formar uma rede de mentores que ajudaram na nossa trajetória. Chegamos em São Paulo sem contato e assim fomos buscando conhecer pessoas; é fundamental formar essa rede de apoio. O terceiro ponto é a importância de ter cofundadores com habilidades complementares. Vejo muita gente abrindo um negócio com amigos e não dão importância para questão de complementar as habilidades.

Se vocês pudessem voltar no tempo para conversar com a Luciana e o Dave, isso antes de empreender com o Love Mondays, quais seriam os conselhos naquela ocasião?

Luciana: largamos empregos confortáveis para começar praticamente do zero. Empreender é muito isso. Além disso, a ingenuidade de não saber o tamanho do desafio foi muito boa. Tem o lado também de estar na área de tecnologia e sempre escutarmos que o negócio precisa ser escalável. Eu aprendi que muitas coisas precisam ser feitas até chegar no segundo degrau para, daí sim, se preocupar em automatizar e escalar. Minha dica seria para que no início faça coisas para te levar a um segundo estágio e, a partir daí, avaliar aquele cenário para fazer as modificações necessárias e dar um novo passo.Dave: não sabemos o que vai acontecer, quais serão os desafios e os obstáculos que vamos enfrentar para ter uma empresa de sucesso. E acredito que seja importante você realmente não saber, porque se souber pode se assustar e nem tentar. Temos que errar e saber que os erros foram partes importantes do aprendizado. Temos que viver a experiência para se desenvolver profissionalmente. Uma dica que daria é para não contratar uma pessoa que não se encaixa na cultura da empresa, mesmo que o currículo dela seja bom o suficiente. Isso vai te trazer um problema no futuro e vai contagiar outras pessoas, gerando provavelmente um problema ainda maior.

Poderiam deixar uma mensagem final para os empreendedores?

Luciana: eu diria que se você tem vontade de empreender não perca tempo. Se tem esse sonho faça. Não será fácil, mas é muito gratificante. O dia a dia do empreendedorismo é muito interessante, com aventuras constantes. A biografia do Jeff Bezos, da Amazon, fala sobre a regra de não ter arrependimento: quando chegar no fim da carreira não queria ter esse arrependimento de não ter empreendido. Mesmo que tenha tentado e falhado eu não iria me arrepender.

Dave: a dica seria para empreender e não esperar o tempo exato para empreender. Aposte suas fichas quando estiver minimamente preparado que tudo tende a dar certo.

Entrevista originalmente publicada no HSM Experience