O Jogo do Tempo: uma vida em setênios

O Jogo do Tempo: uma vida em setênios

Por Nelson P. Chapira

Oi Cara, bem vindo ao jogo do tempo. Na verdade, bem vindo é só uma força de expressão. Você não escolheu e não é convidado aqui. Você apenas foi sorteado e aconteceu. Ganhou a chance de jogar o jogo. Poderá se dar bem ou não. Isso para o Mestre é indiferente.

Ele apenas o deixou entrar. Agora é com você.

O jogo é simples. Você vai fazendo umas coisas enquanto outras acontecem. Conforme o resultado você ganha ou perde pontos. A pontuação não faz diferença, a não ser para você. Daí vai subindo de nível. Mas nada é automático, a não ser a passagem do tempo, até quando acender um aviso inconfundível.

Tem gente que pede para sair, mas a grande maioria sai sem querer. Devem gostar porque quase sempre saem achando que valeria a pena ficar por mais algumas rodadas.

Então é assim. Vamos começar. Já começou.

GLIN-GLIN-GLIN

Nível I, 0 a 7 anos.

Você é uma esponja que só recebe coisas do mundo e depende disso para sobreviver. Quando atendem ao que precisa é bem legal. Ganhou 10 pontos. Duro é quando te deixam sozinho durante horas e você tem que fazer alguma coisa. Berra, esperneia, grita, olha em volta sem ver. Geralmente dá certo e o mundo te alimenta e aquece. Mais 10 pontos.

O mundo é bom não importa o que quer que ele seja. Você é o que chamam de 3º filho. Tem dois irmãos, uma irmã e um irmão mais velhos. É o caçula. Bacana isso porque geralmente conquista bom tratamento. Ganhou mais 10 pontos. Mas vai perder aos 8 anos quando nascer sua outra irmã, que vai então virar a caçula. Paciência.

Você é bem mais gordo e forte que seu irmão mais velho. Ele morre de ciúmes e te atazana. Cedo aprende que não pode fazer o que deseja — por exemplo, enfiar a mão nele — ou perde o amor de sua mãe. Paciência de novo. De vez em quando a vontade da mão é mais forte e fica se sentindo mortalmente culpado.

Vai para a escola e odeia. Quem é aquele monte de gente estranha com roupas iguais às suas?

Ninguém te dá atenção. Perde 10 pontos e chora.

GLIN-GLIN-GLIN.

Nível II, 7 a 14 anos.

Escola de novo. Ô coisa chata. Ainda por cima porque você não frequenta o mesmo clube que essa turma de empoadinhos metidos. Todo mundo se dá bem. Todo mundo é mais alto, mais rico e mais bonito. Tem uns feinhos e pobres, mas você não se dá com eles também. Perde 10 pontos.

Bom é pular corda com as meninas e ler tudo que tem em casa. Ainda bem que em casa tem tantos livros. Ganha 20 pontos por aprender a conviver com meninas sem nem pensar em ser uma delas e mais 20 pontos por gostar de leitura.

Bicicleta é uma boa. Atividade física sem limites e sem precisar de turma. Ajuda a criar independência e conhecer os limites do mundo em volta de casa. Ganha mais 20 pontos, 10 pela atividade e 10 pela iniciativa e autonomia.

E tem mais coisa boa nesse nível. Não é por nada, mas sua irmã mais velha é até que bem jeitosinha. Não é que as meninas tem alguma coisa interessante que você nunca havia notado antes? Ganha 40 pontos pela perspicácia e mais 10 pela discrição. Esse tipo de coisa não é para sair falando por aí.

GLIN-GLIN-GLIN

Nível III, 14 a 21 anos.

Esse é cheio de emoção, aventuras e descobertas. Hormônios funcionando a milhão fazem o seu bem feito. Você emagrece como jamais imaginaria possível. Vale 40 pontos. Descobre que o que tem no meio das pernas serve realmente para mais que fazer pipi e coçar.

Nesse meio tempo, a primeira paixão avassaladora. Tão avassaladora que trava qualquer iniciativa prática que seria de se esperar nas circunstâncias. Perde 50 pontos para largar a mão de ser molenga.
A expectativa pela implementação prática daquela descoberta fisiológica é enorme. Mas ela demora. 19 anos. E finalmente acontece. Quer saber, é bom, mas não é lá tudo aquilo que lhe tinham feito acreditar. Leva 10 pontos por enquanto. Vai levar mais se aprender como encaixar — perdão pelo trocadilho — isso num sentido mais amplo da sua vida.

Nesse meio tempo ainda teve tempo de entrar e sair na faculdade, entornar hectolitros de misturas estranhas e euforizantes, conhecer gente que vai estar com você até muitos anos depois e “ticar” mais uma obrigação imposta aos bons meninos da classe média.

GLIN-GLIN-GLIN

Nível IV. 21 aos 42 anos.

A partir de agora os níveis vão ficando maiores e bem mais complexos. Seu corpinho já está pronto e você tem licença para matar, digo, dirigir e beber na rua.

Vai ter que decidir o que estudar, onde trabalhar e com quem ficar. Vai ter muito mais chance de acertar e errar. Its up to you.

É cara, você vinha vindo até que bem, mas nessa fase fez um monte de bobagens. Perde logo 40 pontos por ter casado jovem, aos 25 anos, sem saber direito para que serviria isso além de te ajudar a sair de casa. Perde mais 40 pontos porque escolheu mal uma pessoa para te conduzir e mais 60 pontos por acreditar que precisava de alguém para fazer isso.

Perde mais 80 pontos por renunciar a uma vocação que teria te exigido muito esforço, mas poderia compensar. No pain, no gain. Você preferiu o mole de se conformar com o que já tinha.

Mesmo assim, ganha 20 pontos. Deve ser um cara inteligente e bem articulado ou não manteria os bons empregos que conquistou.

GLIN-GLIN-GLIN.

Nível V. 42 a 63 anos.

Waaw, havia brasas sob as cinzas e as coisas mudam rapidamente. 40 pontos por perder o emprego, mas não o juízo. Mais 40 por conseguir se virar com consultoria. Mais 40 por conseguir se recolocar num bom emprego e tome 80 pontos por comprar o seu primeiro apartamento, depois de 20 anos de lei do inquilinato — tudo bem que é uma hipoteca, mas sem começo, não há quem chegue a um fim.

140 pontos pela paixão maravilhosa que te permitiu aprender tanta coisa sobre a vida e, principalmente, para que é que serve aquela divertida atividade que os meninos fazem com as meninas. E tome mais 20 pontos por aprender que as paixões também podem virar amizades e que as amizades são para a vida inteira.

250 pontos são por conta da separação que colocou ponto final num casamento de 25 anos, 15 bons, 10 nem um pouco. E mais 300 pontos por encontrar e saber valorizar uma nova companheira.

A essa altura você já quase pode se aposentar legalmente, mas ainda tem muita lenha para queimar. Lenha? Cruz credo, tesconjuro! Quem tem lenha é o Ibama. Você tem bytes & bites, programa de milhagem, carro flex, uma vontade imensa de viajar pelo mundo e disposição para se manter ocupado por mais 25 anos, desde que seja de 2ª a 5ª certo?

Então vai fundo. Acredita em tudo que já estudou, viveu e aprendeu. Pode não ter te servido tanto quanto gostaria, mas com certeza vai servir para muita gente que não teve essa mesma chance que você teve de chegar até aqui sabendo de tudo isso.

Aproveita a vida para viver e para fazer coisas úteis e de valor para as pessoas enquanto o jogo rola, porque o jogo não para.

A vida é tua, mas não te pertence.

Um dia, quando menos esperar, GLIN-GLIN-GLIN… O aviso: Game Over!

Nelson P. Chapira é prestador de serviços em gestão e desenvolvimento de pessoas.