O Propósito de uma Empresa: Mais ética menos blá blá blá

 

Você já reparou na quantidade de propósitos organizacionais que se posicionam as empresas? O patamar é tão alto que faria inveja até para a turma da Marvel!

Vejamos alguns exemplos de propósitos:

  1.  “Organizar as informações do mundo para que sejam universalmente acessíveis e úteis para todos.”(Google).
  1.  “Dar às pessoas o poder de voar.”(Sowthwest Airlines).
  1.  “Melhorar a saúde das pessoas, o mercado de alimentos e o planeta.” (Whole Foods).

Pode até ser que essas e outras organizações, indústrias e até startups, estejam realmente praticando o que falam.

De modo consciente ou não, estabeleceram uma espécie de ditadura do propósito. Quem não se coloca como salvador do planeta, e nesse caso a mais explícita é a Whole Foods, está fora do clube.

Entretanto, mais forte do que esses propósitos empresariais, é a experiência real do consumidor. Aqui se dá a prova dos nove para frases e slogans impactantes.

Agora, imagine se essas mesmas empresas resolvessem ser absolutamente fiéis a essa experiência que seus propósitos ditam, seria incrível não é?

  • A Sowthwest em sua missão de “oferecer passagens aéreas mais baratas”.
  •  A Whole Foods de “oferecer alimentos mais caros, porém saudáveis”.
  • E o Google em “disponibilizar informações precisas sobre qualquer público para quem quiser vender qualquer tipo de produto ou serviço”.

A única vez que vi algo do gênero foi no início dos anos 90 e no cinema, com o filme “Crazy People”. Um grupo literalmente de loucos começa a criar campanhas publicitárias só falando a verdade.

Você compraria um carro espaçoso e confortável só porque ele é melhor para… fazer sexo?

No filme, as vendas do tal carro aumentaram incrivelmente depois que a campanha usando esse mote foi ao ar.

Passados 30 anos desse devaneio, será que a provocação ainda é válida ou nós, consumidores, seguimos comprando promessas impossíveis de serem entregues?

Propósitos empresariais realistas são capazes de andar de mãos dados com o consumidor

Com o crescimento relevante da integridade sobre o comportamento do consumidor,  quem ainda aposta em construir imagens ideais de si mesmo está com os dias contados.

Seja porque desperdiça grande parte dos investimentos destinados a marketing com balas de canhão, seja porque o consumidor está muito mais esperto depois de tanto tempo sendo enganado.

Novas formas de manipulação

Quem assistiu ao documentário da Netflix “Privacidade Hackeada” (“The Great Hack”)? Você terá uma verdadeira aula sobre as novas formas de manipulação do comportamento do consumidor.

O filme relata o escândalo da Cambridge Analytica. A empresa de dados conseguiu identificar 5 mil dados de cada uma das 30 milhões de pessoas com dúvidas sobre quem votar.

Todas foram acompanhadas ao longo da campanha de Donald Trump à presidência. Com isso foi possível estabelecer mensagens absolutamente personalizadas. O que fez toda a diferença na hora do voto.

Sabemos que isso foi ilegal, e o escândalo também resvalou forte na imagem do Facebook.

Que se defendeu esclarecendo que “apenas” estava fazendo seu negócio girar ao vender anúncios.

Contudo resolveu, inclusive, rever o seu propósito depois desse episódio, incluindo em sua pauta o tema do direito à privacidade.

 O que tudo isso diz sobre o mundo das empresas e seus propósitos?

Primeiro, que talvez tenha passado o tempo dos propósitos aspiracionais descolados da realidade.

 Segundo, que na nova era do big data, o que está em jogo não é mais apenas cumprir ou não leis.

No entanto é vital passar a mão na cabeça e refletir, não apenas sobre os aspectos legais, mas a relação ética entre o que se promete e que é entregue.

Entre usar todos os recursos para atingir o consumidor e fazer apenas o que ele conscientemente autoriza a ser feito.

Por fim, sem retoques, truques ou artimanhas algorítmicas para retirar dele seu bem mais precioso: seus dados.