Por que precisamos encontrar logo quem vai resolver a crise e acabar com esse clima de incertezas?

Por que precisamos encontrar logo quem vai resolver a crise e acabar com esse clima de incertezas?

Porque somos brasileiros.

Sim, o desejo ansioso que temos de acabar com esse clima de incertezas em relação ao futuro e encontrar uma pessoa que seja capaz de verdadeiramente nos representar e, em nosso lugar, liderar o fim da crise vem de aspectos essenciais de nossa cultura. Assim como o desejo de que esse líder represente a nação e nos proteja, em troca, oferecemos nossa lealdade e aceitamos que ele tenha um status superior ao nosso.

Porém, esse líder não pode simplesmente acabar com a crise e as incertezas do jeito que ele quiser. Ele precisa fazer isso de forma estruturada, criando leis e regulamentações fortes que garantam o bom funcionamento da sociedade e da economia, sem deixar de lado a criatividade e a atenção ao momento presente para lidar com os imprevistos e as mudanças que sempre acontecem ao longo do caminho. Além disso, o líder precisa trabalhar para garantir um equilíbrio adequado entre um país competitivo e um país que ofereça boa qualidade de vida à população. Outro equilíbrio importante para sua liderança é respeitar as tradições e as coisas que funcionaram até aqui com as novas ideias e abordagens mais modernas (não pode estacionar no tempo e nem ser tão disruptivo).

Esses comportamentos ou visão de mundo, às vezes claros para nós e às vezes nem tanto são características que revelam aspectos importantes de nossa cultura e como ela nos diferencia da cultura de outros países.

Geert Hofstede é reconhecido mundialmente como uma das pessoas mais influentes do mundo quando o assunto é cultura. Ele desenvolveu uma metodologia onde a cultura de um país, de uma organização ou de um grupo de pessoas é identificada através de 6 dimensões. Com a evolução e aprofundamento dessa metodologia, hoje temos acesso a uma rica base da dados para conhecer melhor os aspectos culturais essenciais de cada sociedade.

Conhecer as 6 dimensões e os resultados de cada país nos dá uma visão completamente diferente e ampliada. Por exemplo, uma das dimensões trata do individualismo versus coletivismo, nessa dimensão, o Brasil possui uma cultura coletivista, onde valoriza-se o “nós”, a família é toda a família (pais, irmãos, filhos, avós, tios, primos, cunhados, amigos chegados, cachorro…) e é esperado que ela apoie seus membros. Já os Estados Unidos tem uma cultura individualista, onde valoriza-se o “eu”, a família é reduzida (pais e filhos) e é esperado que a pessoa se vire e consiga as coisas pelo seu mérito, sem ajuda.

Outro exemplo curioso, agora sobre a dimensão que trata da distância de poder. Países com alta distância de poder aceitam que exista uma ordem hierárquica social que diferencie as pessoas e não é necessária nenhuma justificativa para essas diferenças. No Brasil, país com nível alto de distância de poder, é comum que as crianças sejam convidadas a sair de um ambiente quando a conversa é “só para adultos” e desde cedo aprendemos que existe essa diferença social. Na Holanda, país com baixo nível de distância de poder, é comum que a conversa seja adaptada, independente do assunto, para que a criança possa fazer parte. Um fato curioso aconteceu na Holanda com o Fernando Lanzer, um colega nosso da Corall, que é também um grande estudioso sobre cultura, autor de livros e atua como consultor nessa área em diversos países. Ele conta que um dia um funcionário da prefeitura tocou a campainha de sua casa para avisar que iriam construir um parquinho para as crianças ali no bairro e o funcionário gostaria de saber quais brinquedos os filhos dele mais gostavam. Prontamente, o Fernando começou a responder, mas o funcionário o interrompeu dizendo: “o Sr. poderia chamar os seus filhos? Eu gostaria de conversar com eles para saber a opinião deles.”

Para conhecer melhor alguns aspectos importantes sobre a cultura do Brasil, o site oficial do Hofstede disponibiliza os resultados do país em cada uma das 6 dimensões:

 
  1. Distância de Poder (Power Distance): lida com o fato de que os indivíduos de uma sociedade não são iguais e como a cultura expressa essas desigualdades. O Brasil é considerado um país com alta distância de poder, o que reflete uma sociedade que acredita que a hierarquia deve ser respeitada e as desigualdades entre as pessoas são aceitáveis. As diferenças na distribuição do poder justificam o fato dos mais poderosos terem mais benefícios que os menos poderosos.
  2. Individualismo versus Coletivismo (Individualism): grau de interdependência que uma sociedade mantém entre seus membros. Nas sociedades individualistas, as pessoas devem cuidar de si próprias e somente de suas famílias diretas. Nas coletivistas, as pessoas pertencem a uma série de grupos que devem cuidar de seus membros em troca de lealdade. O Brasil é considerado um país coletivista. Desde o nascimento, as pessoas são incluídas em grupos fortes e coesos (especialmente famílias estendidas, que incluem avós, tios, primos…) que continuam protegendo seus membros em troca de lealdade. Esse é um aspecto importante nos ambientes de negócios onde é importante construir relacionamentos duradouros e confiáveis, é esperado que as reuniões comecem com uma conversa sobre assuntos gerais para fortalecer o relacionamento antes de fazer negócios.
  3. Orientação para o Desempenho versus Qualidade de Vida (Masculinity): uma pontuação elevada indica uma sociedade impulsionada pela concorrência, desempenho, realizações e sucesso. O sucesso é definido pelo vencedor, pelo melhor. Os modelos educacionais refletem esses valores, que continuam, mais tarde, nas organizações. Uma pontuação baixa indica uma sociedade que valoriza o cuidar dos outros e a qualidade de vida. A qualidade de vida, gostar do que faz é o sinal de sucesso. O Brasil tem um resultado equilibrado entre os dois aspectos.
  4. Controle da Incerteza (Uncertainty Avoidance): o futuro não pode ser exatamente conhecido: deveríamos tentar controlar e prever o futuro ou apenas deixar acontecer? Essa ambiguidade traz consigo uma ansiedade. Essa dimensão trata de como diferentes culturas têm aprendido a lidar com essa ansiedade de maneiras diferentes. O Brasil tem uma pontuação alta, o que mostra uma forte necessidade de criar regras e sistemas jurídicos a fim de estruturar a vida. No entanto, o indivíduo tem baixa necessidade de obedecer essas regras. Se as regras não podem ser mantidas, mais regras são escritas para lidar com isso, pois as regras são consideradas importantes para tornar o país mais seguro para se viver.
  5. Orientação de Longo Prazo (Long Term Orientation): descreve como cada sociedade deve manter sua conexão com o passado enquanto lida com os desafios do presente e do futuro. Sociedades com uma alta pontuação, tem uma orientação para se preparar para o futuro, o longo prazo, e incentivam ideias modernas ou diferentes da tradição. Sociedades com baixa pontuação, tem uma orientação para o curto prazo e incentivam a manutenção da tradição e de normas consagradas, olhando para as mudanças sociais com desconfiança. O Brasil possui uma pontuação equilibrada entre os dois aspectos.
  6. Extravagância versus Restrição (Indulgence): é a medida em que as pessoas da sociedade tentam controlar seus impulsos e desejos, com base na forma como foram criadas. O Brasil tem uma alta pontuação, o que revela que as pessoas têm uma grande vontade de realizar seus desejos e impulsos, gostam de viver a vida e se divertir. Têm uma atitude positiva e uma tendência para o otimismo. Além disso, valorizam os momentos de lazer, poder fazer o que quiserem, poder gastar como quiserem.

Olhando as 6 dimensões, começa a ficar interessante entender e comparar as diferenças entre os países e como elas influenciam a forma como eles lidam com a crise, com o futuro, com a maneira de entender a política ou a atuação do governo. Também é interessante compararmos a influência na cultura das organizações, como elas são estruturadas, como as decisões são tomadas, as diferenças de salários e benefícios entre os cargos, a forma como planejam a estratégia, lidam com os resultados ou renegociam as metas, principalmente no Brasil, onde convivemos com grandes empresas nacionais e multinacionais.

Uma comparação interessante, com 2 países de culturas muito diferentes: Estados Unidos e Holanda.

 

Podemos julgar um americano egoísta, mas ele pode estar sendo apenas americano. Ou, podemos elogiar um holandês que respeita tradições e ideias diferentes muito diferentes das dele, mas ele pode estar sendo apenas holandês.

Uma outra comparação interessante, agora com 2 países próximos: Argentina e Chile.

 

As pesquisas sobre a cultura das sociedades e as dimensões do modelo do Hofstede, nos ajudam a entender um pouco melhor nosso comportamento cultural no Brasil diante da crise que estamos enfrentando.

Temos compartilhado em diversos artigos nesse Blog sobre como a crise é uma grande oportunidade de evolução. Talvez, poderíamos aproveitá-la, também, para repensarmos a nossa cultura em nossa sociedade, em nossas famílias, em nossas organizações e instituições, ao invés buscarmos um novo “salvador da pátria”.

Qual seria o próximo movimento de evolução que faria sentido? Que aspecto dessa cultura necessitaria mais urgentemente de uma transformação para uma sociedade mais saudável? Se o país fosse um ser humano e você um acupunturista, em qual parte do corpo você colocaria uma ou duas agulhas para proporcionar um equilíbrio saudável no corpo todo?

Alessandro Gruber é sócio consultor da Corall e escreve para o blog Gestão Fora da Caixa, da Exame.

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