Como sustentar a sustentabilidade

Adams Óbvio conversa com exclusividade com nosso correspondente sobre o que todo mundo sabe sobre cultura de sustentabilidade, mas só ele mesmo é capaz de falar

Jamais imaginaríamos que um dia estaríamos cara a cara com ele, esse verdadeiro mito da publicidade que não só revolucionou o universo da propaganda com suas ideias simples e funcionais como influenciou a própria forma de se fazer negócios num mundo que carecia – e ainda carece – de ideias óbvias.

O homem nascido Oliver B. Adams, num vilarejo da Nova Inglaterra, numa data desconhecida, se transformaria em celebridade ao ter sua história narrada por Robert R. Updegraff no conto intitulado “Adams Óbvio” e publicado no “Saturday Evening Post” em abril de 1916. 

De passagem pelo Brasil  pelo que se ventila, para aconselhar um possível candidato às eleições presidenciais de 2022 – o super especialista em obviedades abriu um espaço em sua atribulada agenda para conversar com nosso podcast “No Caminho a Gente se Explica”. O tema central desta entrevista só perde em Ibope no mundo corporativo para o “novo normal”, sobre o qual pretendemos nos debruçar em uma outra oportunidade, porque agora o tema é ESG. Afinal, como sustentar a sustentabilidade?

No Caminho a Gente se Explica: Senhor Adams, sem maiores rodeios, por que uma empresa deveria se preocupar com ESG, sigla, numa tradução livre, para Meio Ambiente, Social e Governança?

Adams Óbvio: Obrigado por me permitir ir direto ao ponto. Primeiro porque, uma vez que a empresa faz parte da sociedade, e a sociedade precisa de recursos naturais para existir, equidade social para se desenvolver de modo saudável e transparência na gestão para poder fiscalizar o uso dos recursos, a empresa que não levar o tema da sustentabilidade a sério, simplesmente deixará de pertencer a sociedade, o que, obviamente, quer dizer que ela deixará de existir. E, segundo, mas igualmente óbvio, sendo ESG um novo ranking que o mercado financeiro já começou a utilizar para recomendar onde os investidores devem colocar seus recursos, que empresa em sua sã consciência escolheria ficar de fora dessa festa?

No Caminho a Gente se Explica: O que uma empresa precisa fazer para entrar para o ranking ESG?

Adams Óbvio: Você não está querendo que eu trabalhe de graça, né? Já existe farto material informativo sobre o tema. Que levantem a b… da cadeira e estudem!

No Caminho a Gente se Explica: Certo, senhor Adams, mas se me permite insistir… reconhecendo sua especialidade, não haveria um caminho óbvio, ou seja, um caminho mais rápido e simples para uma empresa ser reconhecida como sustentável?

Adams Óbvio: Nem todo caminho óbvio é simples ou rápido numa sociedade que adora fórmulas complicadas.  No caso da sustentabilidade, o caminho óbvio é evoluir, como nós americanos dizemos, de um mindset de escassez, baseado na concentração de renda e poder e num estilo de gestão por comando e controle que não tira proveito da inteligência coletiva ao criar estupidamente castas separando os que pensam e mandam dos que obedecem e executam, para um mindset de abundância, guiado pela responsabilidade corporativa num âmbito muito maior do que o umbigo empresarial, reconhecendo que, como parte da sociedade, toda empresa precisa contribuir de maneira muito mais ativa para a diminuição das desigualdades sociais e no uso eficiente de recursos, sendo exemplo de ética tanto na gestão de seus negócios quanto nas relações com todos os seus stakeholders. Por outro lado, em relação aos recursos planetários, a visão é um pouco diferente, pois a economia não pode seguir vendo-os como infinitos, um vasto mundo a ser explorado fora do fluxo circular de renda. O óbvio é que, quando falamos em recursos, a escassez é uma realidade. Não existe Planeta B. Pelo menos, não por enquanto.

No Caminho a Gente se Explica: Mas esse não seria um caminho utópico demais?

Adams Óbvio: Utópico é seguir apostando num modelo econômico que está destruindo os recursos naturais, concentrando poder e renda na mão de poucos e, assim, empobrecendo a população e, portanto, diminuindo a quantidade de consumidores, como algo sustentável. Mas, como costumo dizer, o óbvio nem sempre é fácil de ser visto ou, quando visto, aceito.

No Caminho a Gente se Explica: Então se me permite, gostaria de explorar um pouco mais esse mindset a que o senhor se refere como mindset de abundância. Como desenvolver um mindset – ou mentalidade, em tradução livre – de abundância se a cultura empresarial ainda é tão impregnada por uma cultura de guerra, na qual para uma empresa vencer, outra tem que perder?

Adams Óbvio: Aí está o óbvio ululante. O que trouxe as empresas até onde elas chegaram foi um modelo econômico baseado em princípios ditos científicos, porém, em sua maioria, inspirados apenas em teorias mecânicas. E a visão mecanicista, sabidamente, nos faz enxergar um mundo funcionando como uma máquina com alavancas e engrenagens. É óbvio que essa visão nos permitiu evoluir de uma sociedade de artesãos para a economia de escala e segue ainda sendo muito útil quando temos lidar com equipamentos e processos industriais. No entanto, também é óbvio que, entendendo uma empresa como um organismo vivo e que o momento da humanidade é absolutamente distinto dos primórdios da Revolução Industrial, é preciso que as empresas acordem para as leis naturais. É hora de mergulhar em sociologia, psicologia, antropologia, biologia e outras ciências que permitem que as organizações voltem a se reconhecer e, portanto, operar como seres vivos. Se os seres vivos querem seguir vivos neste planeta, precisarão desenvolver um outro tipo de cultura. Não lhe parece óbvio?

No Caminho a Gente se Explica: Sem dúvida, sr. Adams. Se o senhor pudesse discorrer sobre três ou quatro princípios, digamos, óbvios dessa nova cultura, quais seriam eles?

Adams Óbvio: O primeiro, e mais óbvio deles, é que não existem princípios óbvios que funcionem para todas as empresas. Sendo as empresas, como acabei de dizer, organismos vivos, cada uma tem sua própria cultura– até mesmo indivíduos da mesma espécie, mantém diversas características que os diferenciam. Ou seja, usar fórmulas prontas, padronizadas, para trabalhar a cultura, que é viva, é uma tremenda insensatez. Isso posto, poderíamos abstrair que, para um ser vivo existir, antes de qualquer coisa, ele precisa estar em um meio que permita a realização de seu existir, ou seja, se há algo que se pode dizer a respeito de todos os seres vivos é que eles só existem quando conservam seu bem estar. Se deixam de conservar seu bem estar, adoecem e, eventualmente, morrem. E o que vemos são empresas doentes, extraindo de seus órgãos mais do que são capazes de realizar. O segundo princípio, portanto, é aceitar que o modelo de crescimento infinito é, obviamente, descabido, lembrando que a única célula que cresce de modo indiscriminado num ser vivo é o câncer. Esse não é um princípio filosófico. Pelo contrário, precisa ser refletido em revisão de metas, modelos de performance que capturam o melhor – e não o máximo – de cada um, entre outras ações mais coerentes com a condição humana em que as organizações estão inseridas. 

No Caminho a Gente se Explica: Deixe-me ver se entendi seu raciocínio até aqui, Senhor Adams. O primeiro princípio é que, sendo um organismo vivo, cada empresa tem sua própria cultura e que, portanto, não existem fórmulas prontas que funcionem em se tratando de transformação cultural. O segundo princípio é que, ao se reconhecer como organismo vivo e que, portanto, só existe enquanto conserva o seu bem estar em congruência com o meio em que vive, a empresa deve ressignificar sua forma de operar, que ainda é mais apegada a ciências mecânicas e menos a ciências, digamos, naturais. É isso?

Adams Óbvio: Você fala complicado, mas basicamente é isso mesmo. E para situar um terceiro princípio igualmente óbvio, eu lembraria que estamos falando de algo que ainda desconhecemos. Estamos apenas começando a praticar, e muito timidamente, essa nova cultura onde os opostos se tornam complementares, a obediência cede espaço ao respeito e à colaboração, a hierarquia rígida dá lugar à liderança fluida e as empresas se transformam não apenas em autênticas cidadãs como hóspedes cuidadosas do planeta. Para nos guiar nesse ambiente ainda misterioso para todos nós, precisaremos usar e abusar de uma habilidade que nos permitiu evoluirmos de uma determinada classe de mamíferos primatas bípedes para os Homo Sapiens que ainda somos. Porque, como lembra um amigo e professor já falecido, o biólogo Humberto Maturana, algo deve ter se passado para que nós fôssemos capazes de desenvolver nosso cérebro de uma maneira muito mais complexa do que em outros seres vivos. É óbvio que nós tivemos que desenvolver um determinado tipo de dinâmica relacional onde fomos capazes de exercitar nossos cérebros a ponto de fazê-los crescer. E essa habilidade que nos constituiu como seres humanos ainda está presente, mesmo que um tanto quanto enferrujada. É ela que nos permite escutar com curiosidade o outro, com sua outra perspectiva, sua outra visão de mundo, sua outra emocionalidade e, apesar de toda a alteridade, seguir escutando, se questionando e ampliando nossa própria visão de mundo. Dialogar é o terceiro e, talvez, o mais óbvio dos três princípios. Provavelmente por ser tão óbvio, precisamos rodear tanto nesta entrevista para chegar até ele. Porque se nós respondêssemos, de bate-e-pronto, para quem nos pergunta qual o caminho óbvio da sustentabilidade, que bastaria dialogar de verdade com todos os seus stakeholders para construir o significado e o entendimento comum sobre necessidades e caminhos inovadores possíveis para atendê-las, iriam dizer o quê da gente? Na melhor das hipóteses, que somos idealistas ou charlatões. 

No Caminho a Gente se Explica: Bem, tarde demais…rs… agora já está dito.

Adams Óbvio: Justamente por não achar que já é tarde demais é que resolvi ter essa conversa com vocês…

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