Temos um problema. Será mesmo?

Temos um problema. Será mesmo?

Minha formação em engenharia mecânica-aeronáutica e muitos dos meus anos na vida executiva trabalhando com melhoria de processos e sistemas, naturalmente me levaram a desenvolver um olhar estruturado e processual de como resolver problemas organizacionais. E por algum tempo acreditei que esta abordagem me daria o mapa necessário para endereçar soluções, por mais difíceis que fossem. Mentalmente, podia fazer paralelos com as máquinas que demandavam algum tipo de reparo. Buscava as causas-raízes, priorizava, encontrava as melhores soluções para cada tipo de causa, montava os planos de ação e executava da melhor maneira possível.

Com o passar do tempo e meu desenvolvimento pessoal e profissional, juntamente com a evolução da complexidade dos problemas e dos contextos em que trabalhava, tive que admitir que o tradicional diagrama de causa e efeito não era suficiente para encontrar as melhores respostas. Neste 2º “estágio” pude constatar o intrincado sistema de correlações interdependentes e o fato de que cada ser humano traz a sua singularidade para a relação. O que funciona bem para um não necessariamente funcionará bem para outro. Que o digam os pais na educação de seus filhos.

Cada ser humano traz a sua singularidade para a relação.

Compreendi também que quando há uma situação recorrente numa relação entre duas ou mais pessoas, mesmo que todos reconheçam que essa relação não está funcionando mais, há uma coordenação, uma contribuição de cada um dos envolvidos para que a dinâmica permaneça daquele jeito.
Foi muito interessante notar este padrão nas minhas relações pessoais e nos grupos nos quais estava inserido e, a partir deste ponto, começar a refletir sobre como eu de alguma maneira ajudava a criar as situações que percebia que não funcionavam mais. E o mais impressionante para mim foi observar a mudança que este novo olhar trazia para mim mesmo, me ajudando a sair de uma posição de “vítima da situação” para a de um corresponsável por aquela criação.

Neste meu caminhar vivi ainda o que poderia chamar de um 3º “estágio”, ainda que não exista tanta precisão cronológica nestes estágios. Passei a encarar os chamados problemas com um olhar muito mais curioso, sem o pré-julgamento apressado de que o problema é ruim e não ter o problema é bom.

Uma história que um dos meus mentores neste caminhar me contou marcou-me profundamente. Aconteceu num consultório terapêutico. Uma adolescente apresentava comportamentos agressivos contra amigos, professores e se feria fisicamente. Sua mãe não sabia mais o que fazer e estava desesperada. Após observar a dinâmica das duas, num momento de iluminação, o terapeuta pede permissão para fazer uma pergunta muito delicada à mãe: a senhora já pensou em se suicidar? Perplexa, a mãe responde: sim, com muita frequência. Talvez não o tenha levado a cabo por não saber quem cuidaria da filha com tantos “problemas”. A filha, por amor, inconscientemente havia encontrado uma boa solução para manter a mãe viva.

Qual é o convite que a Vida está fazendo?

Esta evolução de pensamento me ajudou a desenvolver um novo olhar para as chamadas situações de crise. Hoje vejo nas crises, sejam elas pessoais, relacionais ou organizacionais, um convite para a evolução, ou melhor, para uma coevolução, uma vez que no fundo há sempre alguns envolvidos no contexto em questão, mesmo quando achamos que a situação é pessoal.

O antigo equilíbrio, mesmo que tenha sido vivido com muitas dores, não é mais sustentável e a Vida faz um convite para um novo formato, uma nova forma de operação e coordenação.

Nosso desafio nestes momentos é colocar novas lentes que nos permitirão ver além do “mar de problemas” que nos circundam e nos perguntar: qual é o convite que a Vida está fazendo?

Ney Silva é sócio-consultor da Corall e escreve para o blog da Exame, Gestão Fora da Caixa.