“Tive um AVC, com 31 anos de idade, que posso dizer que foi o grande presente da minha vida”

Vicente Gomes, sócio-consultor Corall, entrevista Ricardo Glass, fundador & CIO (Chief Inspirational Officer) da Okena

“A gente tem uma responsabilidade maior do que as empresas convencionais, já que estamos levantando uma bandeira. Eu sou apenas uma ferramenta dessa transformação”.

A morte de um primo com câncer e um AVC (Acidente Vascular Cerebral) aos 31 anos. Um desafio pessoal foi o que levou Ricardo Glass, Fundador & CIO (Chief Inspirational Officer) da Okena, a buscar um novo rumo na vida. Depois de muita reflexão, criou a Okena, em 2011, uma empresa que trata água poluída de empresas para, após o tratamento, devolvê-la limpa para a natureza. Entre alguns dos seus clientes estão Ford, Tam e Natura — e outras mais de 150 empresas que já foram atendidas desde a fundação.+

Glass define que a Okena nasceu para ser algo positivo, que gere valor compartilhado em todas as relações. Não é por menos que a empresa está inserida em um movimento econômico contrário aos das companhias que não respeitam o meio ambiente e a sociedade — aquelas que seguem o conceito de lucro acima de tudo. A Okena é certificada pelo Sistema B, um movimento global de companhias que usam os negócios para encontrar soluções para problemas ambientais e sociais.

Entrevistado por Vicente Gomes, sócio da Corall, para o blog da Corall Consultoria, Glass detalhou seus maiores aprendizados, as disrupções que estão ocorrendo na área de tratamento de efluentes e também de como liberar o potencial máximo das pessoas. Durante a conversa, o Chief Inspirational Officer também falou sobre as metas que buscam alcançar na Okena (que vão muito além da questão financeira), liderança e inovação.

“Ter sucesso no padrão convencional, que muitas vezes deixa um rastro de destruição, não pode ser algo a ser comemorado”.

Você criou a Okena a partir de experiências e momentos adversos na sua vida. Como foi essa mudança e qual foi seu maior aprendizado?

R.G: Eu vivi um processo de transformação pessoal profundo e intenso. Isso me levou a desconstruir um caminho natural das coisas de alguma forma e me fez repensar as escolhas que estava fazendo. Esse processo iniciou com a perda de um primo, de cancêr, e de alguma forma teve um aspecto importante que foi de perceber que eu também não era eterno.

Então eu comecei a me cobrar o que deveria fazer se temos recursos e tempos limitados. Naturalmente esse processo de autoconhecimento fez perceber a interdependência e o fato de nos sentimos parte de um todo. Alguns anos depois, também tive um AVC, com 31 anos de idade, que posso dizer que foi o grande presente da minha vida, pois foi aí que fiz o movimento de me jogar de fato no processo.

Depois de mais alguns anos, cheguei a conclusão que uma questão fundamental é que deveria estar disponível para algo maior do que a mim mesmo. Olhei para meus talentos e capacidades para entender onde meu serviço seria mais eficiente. Comecei a enxergar os diversos atores da sociedade e entender que um setor de transformação estava nas empresas, já que eram as grandes protagonistas do mundo contemporâneo. Se a gente usasse esse veículo para um bem maior, tínhamos uma ferramenta incrível de transformação. Montar a Okena foi um processo natural nesse sentido.

A Okena é parte do movimento que está construindo uma nova economia — com pessoas e planeta em equilíbrio e harmonia. Qual foi a diferença que fez a diferença? Do que mais se orgulha nesta trajetória?

R.G: Eu não diria que seria um orgulho, mas posso dizer gratidão. Porque acho que sou apenas uma ferramenta dessa transformação. Claro que tem um pouco de orgulho ao ver que sou capaz de fazer negócio de um jeito diferente. Mas também é obvio que temos uma responsabilidade maior do que as empresas convencionais, já que estamos levantando uma bandeira. Quando isso tudo funciona, fico orgulhoso.

As empresas de todos os setores estão sendo desafiadas a fazer a tal da transformação. Quais são as disrupções que estão ocorrendo na área de tratamento de efluentes e como a Okena está lidando com isso?

R.G: As empresas são organismo vivo e estamos em processo de transformação. Estamos em “work progress” e não chegamos a nenhum lugar definitivo até o momento. A Okena é um organismo vivo que nasceu como uma plataforma de negócios com um propósito comum. A água é um tema urgente e nada melhor do que começar um negócio a partir da água, que é algo unânime na vida das pessoas.

A Okena é uma empresa que faz parte do Sistema B, que busca ser um veículo de transformação e de trazer impacto positivo na sociedade, e quando a gente faz esse movimento de montar a empresa vamos evoluindo até onde o braço alcança. Nesse processo, ficou claro que somos uma empresa que regenera vida, que busca trazer e não tirar a vida das pessoas.

Afinal, em muitas empresas as pessoas arrastam o corpo e produzem algo ruim para os consumidores e fornecedores. A Okena surgiu para ser algo positivo, que gere valor compartilhado em todas as relações. A evolução foi perceber que é possível trabalhar no mundo onde as pessoas regeneram o mundo. E na Okena estamos nos transformando de uma empresa de economia linear para empresa de economia circular.

Lendo ao seu respeito eu vi que seu desafio é construir uma empresa na qual exista uma busca autêntica pela realização. Quais ações você implantou na Okena para que as pessoas alcancem esses benefícios? E como liberar o potencial máximo das pessoas?

R.G: Acho este o maior desafio da organização. Somos mais de 50 pessoas, de forma direta e indireta na Okena, e precisamos alinhar propósito para um bem maior e para as pessoas se sentirem realizadas em gerar um impacto positivo. Temos um programa, que é o Okena Experience, com o objetivo de buscar algumas formas de identificar valor compartilhado.

São cinco pilares — comunidade, fornecedores, clientes, colaboradores e acionistas. Por exemplo, identificamos que tínhamos dois ou três colaboradores analfabetos que trabalhavam na estação de tratamento. Buscamos alfabetizar essas pessoas, o que pode até parecer simples, mas é muito importante. Outra coisa é a questão de licença maternidade para os homens, pois a presença do pai é fundamental no início da vida do filho. Não tem preço que paga os 15 dias que o pai vai ficar com a esposa e o filho em casa.

Outra coisa que fizemos foi de criar um programa de voluntariado para montar um muro colaborativo na empresa que expressasse através da arte o que buscamos para a sociedade. Nosso desafio inicial era fazer algo centralizado, mas percebi que ter um profissional regando essa planta dia a dia é muito mais importante.

A Okena está inserida em um movimento econômico contrário aos das empresas que não respeitam o meio ambiente e a sociedade — aquelas que seguem o conceito de lucro acima de tudo. Quais são as metas que vocês buscam alcançar na Okena?

R.G: Acho que a primeira questão é entender de fato o que é sucesso em todas as instâncias. Ter sucesso no padrão convencional, que muitas vezes deixa um rastro de destruição, não pode ser algo a ser comemorado. Os pais não passarem um tempo hábil e mínimo com os filhos não pode ser considerado um sucesso. Voar de jatinho é sucesso?

Para definirmos as metas na Okena, acabamos de inserir uma metodologia para simplificar e que busca basicamente dois objetivos básicos. O primeiro é ser uma organização próspera e abundante, mas isso não quer dizer que não precisamos dar lucro e entregar resultado. O segundo é ser uma empresa positiva para os colaboradores, clientes e acionistas. Isso se desdobra nos objetivos e resultados de cada área.

Uma das metas é realizar uma pesquisa de felicidade e aumentar sempre o índice de felicidade das pessoas que trabalham na Okena. Não deixamos de lado as ações de como vender mais e etc, mas acredito que é possível alcançar isso de uma forma mais leve e que vamos conseguir ganhar ainda mais incluindo essas práticas.

Falando de liderança, qual é seu estilo e como faz para motivar e engajar sua equipe? E qual é o seu principal desafio de liderança hoje?

R.G: A gente tem que entender as incoerências. Não tenho um líder idealizado e não acho que existe uma personificação, mas nessa trajetória me inspirei em vários pensadores, em pessoas mais humanistas e filósofos, do que em mestres de gestão.

O Nietzsche me inspira muito, a forma que lida com angústia e que banca as escolhas. Dou um valor enorme para esses mestres literários. Na contemporaneidade há algumas empresas que me inspiram, como a Natura, por exemplo, pois consigo ver coerência.

Você é um dos líderes do movimento Capitalismo Consciente Brasil — braço nacional do Conscious Capitalism, iniciativa que nasceu nos Estados Unidos para transformar as empresas em ambientes de desenvolvimento pessoal e contribuir com relações mais justas com a sociedade. Como você enxerga a conscientização das empresas no Brasil? Realmente o discurso sustentável está acontecendo na prática pelo mercado?

R.G: Temos que tirar a ansiedade da mesa, pois não estou vendo fronteiras que barram esse discurso no mercado. Não acho que o Brasil é diferente do México, que é diferente da Itália etc. Minha percepção é que esse conceito está ganhando uma proporção inacreditável, algo muito bom e o movimento ganha aliados poderosos. Sou muito otimista e acho que cada vez mais tem guerreiro da luz na causa.

Você já comentou que um dos caminhos da inovação está na “New Plastics Economy”? Poderia explicar melhor o que abrange esse conceito?

R.G: Esse movimento é um capítulo do Circular Economy. Mas para conceituar, preciso explicar um pouco sobre o Sistema B, que é onde a Okena tem escritório junto com outras empresas com o mesmo ideal.

Aqui tem a Triciclo, que trabalha com cultura de reciclagem de lixo, e eles falam que lixo é um erro de design. Tudo que geramos de lixo já está e vai ser repensado. Um exemplo que sempre uso é a questão da produção da “pazinha” que mexe o café. Para produzir é necessário muitas vezes extrair petróleo, que depois vai para petroquímica, que vai para a indústria de plástico, depois para a indústria que produz o material, que é levado para o atacadista e depois até o varejista. Na grande maioria todo esse transporte é feito de caminhão, o que piora ainda mais. No fim do processo, alguém compra a pazinha, coloca do lado da xícara e o consumidor usa por cerca de três segundos e joga no lixo. Esse é apenas um exemplo, mas que mostra que precisamos repensar o modelo de produção e consumo para continuar vivendo nesse planeta.

Se você realizar tudo que já desejou e deseja, pelo que gostaria de ser lembrado?

R.G: Não tenho essa pretensão de ser reconhecido e deixar um legado. Mas enfim, o que me traria muita satisfação de saber o que aconteceu, principalmente por participar do movimento das empresas do Sistema B, é que esse modelo deixe de existir e não seja mais uma necessidade na sociedade. Quando chegar esse momento, estarei feliz e é assim que gostaria de ser lembrado.

Se pudesse voltar no tempo para conversar com o Ricardo Glass, aquele que acabou de se formar em Economia, quais seriam os conselhos? O que faria diferente?

R.G: Tudo na vida é circunstância. Acho que a única coisa importante que eu falaria é para não ter medo e se arriscar. O mais importante de tudo é acreditar nas visões e intuições. De fato, as coisas que eu via foram se mostrando realidade. De alguma forma, Deus me deu uma capacidade de leitura e visão do mundo e eu uso pouco isso. Posso dizer que melhorei até, mas naquele momento que eu não tinha muito o que perder era o momento certo de se arriscar e acreditar.

Se encontrasse uma lâmpada mágica e tivesse um pedido para ser realizado. Qual seria?

R.G: Eu pediria paz de espírito e nada mais. Quero estar em paz com as minhas escolhas.

Entrevista originalmente publicada no portal HSM Experience em 07/08/2017: