Uma troca equilibrada — Sucesso da organização

Uma troca equilibrada — Sucesso da organização

Por Vicente Gomes

Quando uma pessoa entra no mundo do trabalho, o que espera encontrar? Viver feliz, com saúde e segurança; fazer diferença no mundo e na sociedade; pertencer a um grupo social e ser valorizada dentro dele; evoluir física e intelectualmente, colocando significado no que faz; e realizar uma troca justa entre a energia e o tempo que oferece à empresa e a retribuição que ela lhes dá. Na outra ponta dessa equação, o que a empresa pode oferecer para que isso se concretize? Um propósito inspirador, com significado, e um conjunto de ações e valores coerentes com esse propósito como a Whole Foods que se preocupa com a saúde dos consumidores e a desenvolvimento das comunidades. Oportunidades para que o indivíduo aprenda e evolua; um ambiente saudável, de confiança e segurança; autonomia, para que a pessoa perceba sua contribuição para o sucesso da organização; apreciação e valorização; uso equilibrado do tempo;diversão; uma remuneração justa. Pareceria um casamento perfeito, mas a visão mecanicista que impera no mundo das corporações, sobretudo a partir dos anos 1980, reduziu drasticamente as expectativas de ambos os lados. Para as empresas, o indivíduo está “dentro” enquanto der resultado. Não “rendeu” o esperado, cai fora. Os funcionários, por sua vez, estariam preocupados apenas com “o dinheiro que ganham e se vão evoluir na carreira”, segundo nos disse certa vez o diretor de RH de uma grande companhia brasileira. Esse modelo, que muitas empresas ainda consideram bem-sucedido, certamente teve méritos e deve ser honrado pelo patamar de produtividade a quem conduziu as grandes organizações — afinal, há múltiplas realidades no mundo corporativo, e todas têm algum valor. No entanto, produziu efeitos colaterais indesejáveis: um exército de pessoas estressadas, cada vez mais infelizes quando chegam ao topo (não raro, para ascender na carreira, elas quebraram laços familiares e desfizeram as teias de relações pessoais), trabalhando em média 14 horas por dia, perseguindo altíssimas remunerações de curto prazo — o Brasil é um dos campeões mundiais no pagamento de bônus por desempenho, chegando a representar mais 13 salários, fora o salário-base, para um diretor. Essas pessoas se inserem em organizações altamente centralizadas a anos-luz das empresas absolutamente diferenciadas dos sistemas de gestão criados por elas, talvez mais próximos das necessidades essenciais de cada ser humano, sem se ater a benchmarks — mesmo porque não havia –, e sim moldando-os de acordo com seus valores e sua visão de mundo.

Vicente Gomes é sócio e consultor da Corall