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  • Cultura organizacional, Inovação, Maurício Goldstein
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Quem criou o Waze?

  • outubro 20, 2015

Outro dia, estava dirigindo com a família num horário de trânsito e o Waze, aplicativo que motoristas de cidades repletas de carros como as nossas capitais conhecem, ofereceu um caminho que geralmente estaria super congestionado. Minha esposa duvidou ao que respondi brincando “para mim, é Deus no céu e Waze na Terra — tenho muita fé nele” (é claro que conhecemos casos que o aplicativo levou pessoas a lugares ermos ou perigosos, mas não havia nenhum risco neste caso). Brincadeiras à parte, o Waze é um aplicativo sensacional, que foi vendido para a Google em junho de 2011 por 1,3 bilhão de dólares. Afinal, quem criou o Waze?

A resposta simplista é que foram Uri Levine, Ehud Shabtai e Amir Shinari, três empreendedores israelenses financiados por alguns “rounds” de investimento e suportados por uma equipe de 80 pessoas. Mas se olharmos com mais cuidado, vamos perceber que o Waze é fruto não apenas destes empreendedores visionários, mas de todo um ecossistema de inovação.

No mês passado tive o privilégio de participar de um programa em Israel, chamado “Inovação tecnológica na nação das start-ups”. Organizado por um amigo em parceria com a Universidade de Tel Aviv, um grupo de 25 brasileiros passou três dias em Israel visitando desde o ministério da economia até start-ups, da Universidade de Tel Aviv a Venture Capitals, aceleradoras e espaços de co-working. Ou seja, entendemos como vários atores se coordenam para tornar a capital israelense a segunda cidade mais inovadora do mundo (só atrás do Vale do Silício). É impressionante! Em cada reunião que participamos, ao início, todos com orgulho explicavam porque Israel é um país onde se gera tanta inovação tecnológica e tantas start-ups. Alguns insights que ficaram para mim:

  • A vocação do país: É a dificuldade que o país viveu e vive, em constante ameaça de guerra, que gera uma base para a inovação. Mas como isto funciona? Todos os jovens israelenses fazem 3 anos de treinamento no exército, logo ao sair do colégio. Isto gera na juventude comportamentos como “eu consigo” e “precisamos confiar uns nos outros”, e assim toda uma cultura empreendedora no país. Vários destes jovens servem numa unidade de desenvolvimento tecnológico do exército e, portanto, já estão aprendendo o que há de mais moderno em termos de tecnologia. E além disto, vários dos próprios desenvolvimentos tecnológicos criados para a defesa depois são transportados para a vida civil. Ou seja, o jovem sai treinado tecnologicamente, com uma atitude persistente e com ideias que servirão de base para novos desenvolvimentos.
  • O poder de uma metáfora: Dan Senor e Saul Singer perceberam que o país estava gerando muitas start-ups e escreveram um livro chamado Start-up Nation em 2009. O livro não criou o que estava acontecendo, mas sintetizou a situação e o contexto de forma brilhante, servindo como uma metáfora positiva que todos os atores do ecossistema e a população em geral repetem. Isto está acelerando a realidade.
  • Sua limitação pode ser sua fortaleza: Israel é um país de pequenas dimensões, em especial se comparamos com o Brasil. São 8 milhões de habitantes e assim um mercado interno bem reduzido. Mas, curiosamente, isto é mais uma das suas fortalezas: “todos” se conhecem por lá e isto torna as interações frequentes e vibrantes, elemento básico para a inovação. E o mercado é o mundo todo, não apenas o mercado local.
  • A coordenação dos atores: Foi surpreendente visitar mais de 15 atores diferentes do ecossistema (incluindo o governo) e perceber que todos passavam a mesma mensagem no início de sua apresentação e estavam alinhados na direção: que Israel é um polo de desenvolvimento tecnológico, que gera muitas start-ups e que a maioria das empresas de tecnologia como Intel, Microsoft e Google estão criando uma base por lá. Por exemplo, o primeiro site de pesquisa da Apple fora de Cupertino foi aberto este ano em Israel. Todos atuando juntos numa mesma direção.

Resumindo, a partir do reconhecimento das condições sócio-geo-políticas do país (que alguns poderiam ler como limitações), emergiu uma vocação e os atores se coordenaram para fazê-la florescer.

E na volta, fiquei pensando então qual é a vocação do nosso Brasil? Lembrei muito do nosso povo alegre e acolhedor, das nossas belezas naturais, da diversidade de gostos e sabores que oferecemos. Eu pessoalmente acredito fortemente no potencial turístico brasileiro. Você talvez tenha outras vocações em mente, que também podem funcionar bem. Mas, o nosso principal desafio é encontrarmos vários atores de um ecossistema com a disponibilidade, a confiança e o desejo de se coordenarem em prol de uma construção maior. Que passo podemos dar, cada um de nós no nosso pequeno ecossistema, nesta direção? Qual é o Waze que queremos criar?

Mauricio Goldstein é consultor da Corall, autor, palestrante e escreve para o blog Gestão Fora da Caixa da Exame.com

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